A desvalorização do trabalho feminino: Quando o nosso trabalho é “invisível”

“Valorizar as mulheres começa com o reconhecimento do seu trabalho doméstico e termina numa sala de reuniões” «Forbes Power Women Summit 2020».

Celebra-se no dia 8 de março o Dia da Mulher! Estão previstos discursos, manifestações, descontos em lojas, oferta de brindes nas empresas, serão inúmeros os jantares entre mulheres, mas será que hoje, em pleno século XXI, fará, tudo isto, sentido?

Será que não devíamos era instituir o dia das pessoas?

Afinal, as estatísticas apontam que, infelizmente, ainda, precisamos do Dia da Mulher.

Precisamos recordar o motivo desta data, porque entre vários outros aspetos no que ao mercado de trabalho diz respeito, as mulheres estão exaustas e mal remuneradas!

As estatísticas apontam que economias em todo o mundo são construídas sob as costas do trabalho não remunerado das mulheres».

Entretanto, o Dia Internacional da Mulher é uma recordação das conquistas das mulheres, principalmente sobre a luta contra o preconceito e ao protesto pelo direito à oportunidades nas suas mais variadas formas.

Neste dia, e tendo em conta o contexto em que vivemos atualmente, faz igualmente sentido abordar os desafios que nos deparamos no nosso dia dia, tendo em conta a sobrecarga de tarefas que acumulamos e que é “invisível” e desvalorizado.

Assim que recebi o convite de escrever acerca deste tema, fiz algumas pesquisas nas quais, custou digerir algumas verdades:

  1. Quase metade do trabalho no mundo não é remunerado. Inegavelmente a maior parte desse trabalho é feito por mulheres.
  2. As mulheres recebem em média 26% a menos realizando a mesma função, além de cumprirem dupla jornada devido às tarefas domésticas e familiares.
  3. As mulheres continuam a representar uma maior taxa de desemprego a nível mundial
  4. E são mais afetadas pela precariedade a nível social.

Com todos estes fatos, somos obrigados refletir naquilo que, ainda falta atingir para que possamos falar de EQUIDADE.

Portanto, não entendo o dia da Mulher como uma celebração, mas sim como uma tomada de consciência do caminho percorrido e de tudo o que, ainda, temos que mudar.

São tempos modernos, mas as batalhas ainda são antigas:

  • Diversas pesquisas, como a da OIT, revelam que as mulheres, apesar de muitas vezes serem mais capacitadas do que os homens, em questão de formação e experiência, ainda ganham menos e sofrem com a falta de oportunidade de crescimento profissional.
  • Apesar de registarmos alguns ganhos na matéria de direitos e conquistas femininas,  ainda enfrentamos problemas relacionados à desvalorização da mulher, realçando como fatores de peso a desigualdade salarial e a depreciação da nossa capacidade intelectual.
  • Alias, e ainda para complementar, não há ser humano na face da terra que suporta o peso de organizar a casa, cozinhar, cuidar dos filhos, e trabalhar, sem que a saúde mental, física e emocional sejam comprometidas. Geralmente chegamos ao final do dia com sensação de fracasso, de que deveríamos ter mais braços e mais horas. Chegamos ao final do dia em dívida especialmente com nós mesmas.

A tendência de muitas mulheres modernas tem sido a de conciliar um grande e variado número de atividades nas áreas do seu interesse, dado o amplo espectro de realizações que nos são atualmente facultadas.

Mas, pior que a tarefa de equilibrar exigências da profissão e da família, além das de interesse pessoal é a não valorização dessa luta nem reconhecimento.

Em função deste aspeto, muitas mulheres “pós-modernas” tendem a fazer escolhas para conciliar vários aspetos das suas vidas, acabando por “sacrificar” algumas, resolvendo dedicar-se seja mais (ou preferencialmente) à carreira, à maternidade ou ao casamento.

Não há definitivamente uma solução para todas as mulheres. Elas são “únicas” e as soluções para as suas vidas também o são.

As conquistas das mulheres ao longo dos anos também geraram muitas frustrações, não só por terem de conviver e compartilhar (até competir) num universo predominantemente machista, mas também porque a mulher, naturalmente, se sente culpada por tentar equalizar o tempo entre trabalho e família. 

Por que a mulher ainda é tão desvalorizada?

Para entender a atual desvalorização da mulher, é preciso refletir tanto nas questões culturais e históricas quanto para fatores económicos.

É fato que a depreciação para a figura feminina sempre existiu e já foi até mais forte séculos atrás. 

Passamos de uma época onde era obrigatório solicitar aprovação do pai ou do marido para seguir uma profissão para a atual conquista da autonomia de decidir o nosso próprio destino profissional. Porém, ainda enfrentamos a realidade da dupla ou tripla jornada.

Entretanto, para entender a profundidade desse tema, é importante começar na origem.

Afinal, as diferenças vividas atualmente por homens e mulheres na vida profissional ainda têm relação com a forma como cada grupo inseriu no mercado.

A entrada das mulheres na vida profissional ativa surgiu de um movimento de lutas e necessidades.

Por muito tempo, o nosso lugar de atuação era o ambiente doméstico, cuidando da casa e dos filhos enquanto os maridos trabalhavam fora.

Nos tempos de guerra, quando boa parte dos homens foram convocados para o serviço militar, havia a necessidade de pessoas para continuar os processos produtivos na indústria e no comércio e a utilização da mão-de-obra feminina gerou grandes impactos para a vida social e económica do mundo.

Embora, muito do que vivemos hoje deve-se a esse movimento de ampliação da atuação feminina em diversos campos sociais.

A evolução das escolas e creches, por exemplo, foi impulsionada pela necessidade de cuidado e educação das crianças depois que as suas mães passaram a trabalhar fora de casa.

Porém, a inserção e a permanência das mulheres nesse campo não começou nem evoluiu de forma tranquila. Fazem parte dessa história muitas lutas e dificuldades por maior qualidade na vida e no trabalho.

fator económico é avaliado através do índice de desenvolvimento do país.

Em geral, os mais evoluídos economicamente contam com mulheres mais instruídas na educação, o que contribui para que alcancem melhores oportunidades no mercado e, assim, diminuam a desigualdade.

E qual o custo desta desvalorização?

1. Portanto, a nível social, esta desvalorização não só priva as mulheres de oportunidades económicas, mas também tem um custo para a sociedade, na forma de menor produtividade e fraco crescimento económico.

Pois ao não integrar plenamente as mulheres, a economia está alocando mal seus recursos, fazendo com que as mulheres cumpram tarefas de baixa produtividade em casa, em vez de aplicar e utilizar todo o seu potencial no mercado.

Realçar também que limitar a hipótese de explorar a complementaridade entre mulheres e homens no contexto social e político conduz a resultados e claramente ineficazes.

Observa-se que regra geral, os homens são mais bem remunerados do que mulheres que ocupam o mesmo cargo e exercem as mesmas funções devido a ideia de que os homens são os provedores da casa, mas fato é que cada vez mais observamos famílias monoparentais que são chefiadas por mulheres e mudanças devem ser implementadas no sentido de dar resposta às novas realidades culturais.

2.A nível empresarial é fato que as estratégias de diversidade e inclusão são atualmente fatores de crescimento e evolução das empresas, com impacto direto na sua produtividade e na performance financeira.

Hoje em dia a diversidade é uma estratégia inteligente de negócio, que contribui para a evolução das empresas e para os lucros, logo, não é apenas uma métrica para implementar, mas parte integrante do sucesso financeiro das empresas e não considerar esta realidade induz a consequências desnecessárias.

3.A nível das mulheres: Exaustão, pessoal! Este é o diagnóstico. É a consequência de aceitar fardos, de fazer mais do que pode, consegue e suporta. Esse é o mundo das mulheres que aos poucos se tornam insuportáveis. Um mundo sem rede de apoio.

De não saber dizer “não”, porque a interminável sensação de ter o que fazer e estar devendo algo são insuportáveis e sufoca-nos!

E o que muitos não entendem é que não é sobre incompetência mas sim sobrecarga.

Qual a solução?

Neste sentido, para promover a igualdade salarial, as oportunidades e a valorização do trabalho da Mulher é necessário um processo de aprendizagem social amplo.

Bem como, criar mecanismos de sensibilização para um mindset que acredita e defende que que o perfil de um profissional com margem de crescimento compete aos dois géneros.

Atributos como ambição, coragem, tomada de decisão e força são intrínsecos aos humanos, e podem, sim, ter expressões distintas no comportamento de homens e mulheres.

Se as escolas e as universidades contribuírem para formar os cidadãos com cultura de equidade, teremos profissionais, pais e filhos mais aptos e mais conscientes para promover a cultura da igualdade de género.

Todavia, devemos lutar por uma sociedade em que a justiça não se faça apenas na preservação da igualdade, mas também no respeito e na oferta de oportunidades à diversidade.

Nesse caminho evolutivo, a desigualdade diminui e a valorização se fortalece, sem ignorar os aspetos distintos que há em cada ser humano.

Na família, também deve haver uma mudança de paradigmas para que a mulher seja a única lesada na carreira profissional por engravidar, por entrar em licença-maternidade, ou por ser a única responsável pelo filho quando fica doente.

Portanto, é preciso abrir mais espaço para o protagonismo dos homens na família. A criação de um filho requer paternidade factual: um pai também pode e deve levar o filho ao médico, participar da reunião da escola.

Com o aumento da paridade entre as políticas de licença materna e licença parental pode aumentar a participação feminina na força de trabalho ao facilitar o retorno das mães ao trabalho e envolver os pais no cuidado dos filhos desde cedo.

 E se há esse equilíbrio dinâmico na família, as empresas também vão lidar com o fato de que o homem precisa se ausentar, eventualmente, para vivenciar a paternidade deixando de ser uma questão exclusivamente feminina.

Enfim, pode-se também sensibilizar as empresas para atração e recrutamento de mulheres para funções tradicionalmente masculinas, contratação de mulheres grávidas e oportunidades para mulheres com idade superior aos 50 anos.

Sugere-se também programas específicos de formação e de desenvolvimento de carreiras para mulheres e promover a ambição para conquista de cargos de liderança, ampliando a conceção do seu conceito: pelo mérito!

As empresas também podem criar oportunidades de a conciliação da vida profissional/familiar através da flexibilidade de horário, o trabalho remoto e a partir de casa.

Esta mudança também requer-se mudar a cultura dentro de casa.

Este talvez seja o ponto mais fácil de colocar em prática, porque só depende da boa vontade dos homens em compartilhar as tarefas com as mulheres.

Todavia, um bom começo é eliminar a palavra ajuda, pois muitos homens entendem que “ajudam” suas esposas com as tarefas, pressupondo que a obrigação é da mulher, quando a responsabilidade por cuidar da casa é de todos que constituem o lar sejam homens, mulheres, idosos ou crianças.

Todos devem fazer a parte que lhes cabe podendo ser possível à mulher dedicar a si mesma com mais tranquilidade.

Para as mulheres a mudança é diferente: Conheço bem o fardo de uma mulher que não gosta de pedir nada a ninguém, e garanto que é pesado demais. Não carregue este peso sozinha, porque não vale a pena.

Receber ajuda quando precisa é maravilhoso. Pedir ajuda não é um ato de fraqueza mas sim de humildade e sabedoria.

Podemos pedir ajuda e mesmo assim continuar sendo mulheres incrivelmente inspiradoras e está tudo bem ficar cansada.

Não precisas ir além do teu limite. Se precisar, peça ajuda pra terminar uma tarefa, concluir um projeto, carregar as comprar, arrumar a casa.

A bagagem fica mais leve quando nos permitimos receber ajuda. Perceber nossas limitações faz com que tenhamos humildade para reconhecer o papel que os outros têm em nosso crescimento.

Percebo que muitas de nós mulheres, nos tornamos vítimas da nossa própria procura pela liberdade escondendo atrás de um personagem que magoa e exige de nós um esforço que acaba por nos sufocar.

Não foque em ser uma super mulher. Seja a sua melhor versão possível.

Não se preocupe em ser uma “mulher empoderada”, mas empenhe-se em despertar a mulher sábia que há em si!

Contudo, cuidado com o pseudo empoderamento alienante e caricato que cria muito mais um estereótipo do que qualquer outra coisa, e mantém mulheres no mesmo despreparo de outrora diante dos desafios do viver.

A mulher deverá procurar fazer escolhas que lhe convém sem esperar nada do outro que não seja respeito!

O essencial é que tenha em mente que não há uma forma de ser mulher, mas sim uma forma que convém a cada mulher ser.  

Para Freud: “mulher não nasce pronta, ela se torna” e é um processo longo e difícil que exige a cada uma de nós a nossa melhor versão constantemente.

Cabe a cada uma a aspiração de se inventar e reinventar, segundo sua história e o momento de vida que atravessa.

É preciso guardar em mente que esta construção deve constantemente ser retomada e repensada para cada ser cujo destino é o de se tornar uma mulher que inspira e emotiva outras mulheres independentemente do respeito e do valor externo que recebe.

De fato, cabe a nós a dura missão de iluminar a nossa sociedade de que o trabalho das mulheres deve ser visível e reconhecido, porque a excelência constrói-se com homens e mulheres, e não existe outra forma de chegar a essa valorização se não mudando a noção que temos sobre as competências das mulheres e seu papel na sociedade.

Como?

Pela educação, com muito diálogo e, principalmente, vontade de transformar nossa realidade.

É possível, e a hora é agora! 

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