Vieira Junior

Gerente de Comunicação, Marketing e Sustentabilidade Sicoob Cocre

No último fim de semana, recebi em minha casa um pudim de abacate feito pela minha sogra que é uma verdadeira mãe para mim. No primeiro momento, fiquei um pouco incrédulo: como poderia um pudim ser gostoso com menos açúcar, sem leite condensado e usando apenas uma fruta que, por si só, eu já considerava meio sem graça? Quando perguntei a ela o motivo de se fazer o tradicional doce usando outros ingredientes, ela me disse:

— É mais saudável. Além disso, eu tinha muito abacate em casa, então, precisava usar.

Naquela tarde de domingo provei mais do que um simples pudim de abacate, tive uma lição e reflexão sobre liderança e inovação. Líderes que reclamam de liderados são como cozinheiros que jogam a culpa nos ingredientes pelo prato ruim que fizeram. Não que os alimentos não influenciem no resultado, mas há um abismo gigante entre a inexistência de qualidade e a resistência de incluir novos ingredientes. E tem muito cozinheiro, ou líder, nos dias atuais que prefere jogar a culpa nos ingredientes a se reinventar, mudar e criar um cardápio novo com seus liderados.

Essa resistência pode ser verificada com muita clareza quando líderes reclamam das características de profissionais das novas gerações, quando, na verdade, a pergunta que poderia ser feita é: o que eu, enquanto cozinheiro, poderia fazer com os alimentos que tenho em mãos? Que tipo de experiência ou sabor eu quero despertar em meu cliente com o que tenho à mesa? Então aprender, reaprender, inventar e criar com o que se tem, não com o que já se teve.

O bom cozinheiro é aquele que, diante dos ingredientes que tem, consegue deixar satisfeito quem vai comer.

Liderança também funciona assim. Em vez disso, vemos muitos fazendo as mais justas queixas com relação aos mais jovens: falta de motivação, querem tudo ao mesmo tempo e em curtíssimo prazo, não têm noção de esforço, querem receber antes de construir, questionam tudo, preferem a relação digital, não seguem ordens, não respeitam hierarquia ou regras, não disfarçam emoções, são sensíveis demais, cheios de “mi-mi-mi”, e por aí vai…

De fato, não é tarefa das mais fáceis colocar uma geração toda de líderes formada no período pós-guerra, e em um regime de ditadura, para negociar com jovens que já cresceram na liberdade da internet, quebrando padrões religiosos e sexuais, com uma economia mais estável, mais oportunidades, informação e conceitos de formação e compartilhamento social totalmente diferentes de 30 anos atrás. Mas outra pergunta importante a ser feita seria: qual o papel de quem lidera? Se a resposta não for dada em menos de 10 segundos e utilizarmos mais o pensamento complexo, talvez nos aproximemos mais da resposta ideal.

O líder é, antes de qualquer coisa, alguém que representa os interesses da organização.

Um empreendedor ou investidor só nomeia CEO’s, diretores, gerentes, entre outros, porque não consegue mais dar conta de cuidar de tantos temas e pessoas. Então, ele conta com gente de confiança para ajudá-lo a “tocar o negócio”, de forma simples e objetiva. É como se alguém dissesse: não tenho tempo de cozinhar, vá até à cozinha e prepare algo para mim. O prato será o resultado, e todos nós sabemos como seremos cobrados por ele.

Diante disso, chegamos novamente aos ingredientes, no caso, as pessoas. No passado, líderes podiam agir de forma simples. “Para fazer o meu prato, preciso de ‘x’ ingredientes. Se não os tenho na condição que quero, jogo-os fora e vou ao mercado comprar mais”, poderiam pensar. Mas e se os ingredientes no mercado forem os mesmos que o líder já tem na cozinha? Foi exatamente esse desafio que a mudança social impôs aos líderes desta década.

A mudança não aconteceu no perfil de profissionais, mas sim no perfil das pessoas em geral. Ela surgiu na sociedade e invadiu as companhias. Reclamar disso é criticar uma geração, é querer mudar o mundo, e aí o líder vai repetir uma caraterística que já critica nos mais jovens. 

Foi nessa mudança de comportamento social que os cozinheiros, ou líderes, ficaram desesperados e passaram a apontar a qualidade dos ingredientes como fatos de culpa para a qualidade ruim de seus pratos, quando deveriam, na verdade, reinventar, aprender novas receitas e, com o que tem em mãos, surpreender ainda mais o cliente.

Características do bom líder

O bom líder não é aquele cozinheiro de cardápio pronto, com seu arcabouço de ações, homens de confiança e padrão a ser implantado. O grande líder é aquele que sabe enxergar o ambiente, perceber as necessidades, adaptar-se, ir para a cozinha e fazer o melhor prato com os ingredientes que tem. Mudanças podem ser necessárias, adaptações também, mas a essência de inovar por saber que a sociedade é constantemente diferente, é mantida.

Além disso, ele é empático, muda, ouve, aprende, estuda sobre pessoas, economia, sociedade, educação, influência, necessidades básicas do ser humano, psicologia, desenvolvimento humano, filosofia, história e, com isso, consegue misturar novos pratos com os mesmos ingredientes. É aquele cozinheiro que consegue fazer um pudim de abacate sem colocar mais açúcar e ainda assim o deixa irresistível, afinal, não se consome mais tanto doce assim. E ele não vê isso como “mi-mi-mi”, vê como necessidade de adaptação em um mundo em constante evolução.

Ele mostra humildade, tem consciência de que não sabe tudo — e nem tem pretensão de saber —, aprende, ouve, ensina, com isso, ganha o respeito das pessoas. Com esse respeito, vira referência e passa a ser seguido. Aceita que hoje o resultado vem das pessoas, abre mão do controle, aceita o erro como parte do aprendizado e vê a liberdade consciente como requisito fundamental para a inovação, ganhos, lucros ou novos pratos.

O pudim da minha sogra foi o melhor que já provei em toda a minha vida. Novos tempos criaram novos clientes, exigindo novos pratos e outros ingredientes em um novo jeito de cozinhar e liderar. Vamos para a cozinha, ainda há muito para descobrir. Recomendo que você experimente o pudim de abacate.

Deixe uma resposta