Pós-graduação de Gestão de Pessoas na Saúde – Da Gestão das Pessoas aos Resultados

ISCSP -Pós-graduação de Gestão de Pessoas na Saúde

Entrevista com Fernanda Nogueira – Professora Associada com Agregação no ISCSP-ULisboa, Coordenação Científica – Pós-Graduação em Gestão de Pessoas na Saúde

CRH – O que levou à criação de uma pós-graduação focada na gestão de pessoas na saúde?

FN – Bom, após a criação do Mestrado e do Doutoramento em Administração da Saúde e mais tarde da Pós-Graduação em Administração e Gestão da Saúde, no ISCSP da ULisboa, os alunos reiteravam, sistematicamente, nos seus trabalhos, a necessidade da gestão no setor passar a dar especial relevo às Pessoas. Segundo estes, se os modelos teóricos e os discursos políticos os referiam regularmente, alertando-nos para a necessidade de colocar o Individuo no centro de qualquer análise, então deveríamos passar a preparar os vários profissionais do setor para a sua operacionalização.

Esta foi efetivamente a base da decisão da criação da Pós Graduação em Gestão de Pessoas na Saúde.

Por outro lado, todos sabemos que o Setor opera com as pessoas e para as pessoas. Se pensarmos na cadeia de valor (simplificada) na saúde facilmente percebemos que os inputs são Pessoas (utentes) que necessitam de vários recursos operados por outras Pessoas (os profissionais de saúde) para que estes lhes acrescentem valor outputs (de preferência a cura). Veja o caso da situação que estamos todos a viver com a presença desta pandemia (do covid 19), onde a estratégia o planeamento e a liderança têm sido fatores determinantes com vista ao seu controle e cura.

CRH – O que torna a Pós-Graduação em Gestão de Pessoas na Saúde distintiva?

FN – A otimização de qualquer processo de gestão numa organização de saúde pode passar pela adoção de novos equipamentos tecnológicos, novos métodos de trabalho, utilização de novas matérias-primas, adoção de novos produtos ou novos fornecedores. No entanto, em qualquer destas dimensões estará sempre presente o Potencial Humano.

Segundo os últimos modelos de gestão no setor, como por exemplo o estudo de Omachonu e Einsprunch de 2010, no centro da gestão nos serviços de saúde, encontram-se as necessidades dos pacientes e dos prestadores dos cuidados. A existência das tecnologias de informação e a inovação são fatores fundamentais neste setor. No entanto, todos eles, para que sejam bem sucedidos, se devem centrar em três vetores fundamentais:

1) como é que o paciente é visto no seu todo?

2) como e por quem é ouvido o paciente?

3) e como é que as necessidades dos pacientes são operacionalizadas pelos vários profissionais do setor?

Ora não esqueçamos que este último vetor é fundamental no setor. O Setor da Saúde contem mais um elo que a maioria dos restantes setores. O que significa isto?

Enquanto na maioria dos restantes setores é o cliente final quem decide o produto que pretende adquirir, no setor da saúde, regularmente, são os profissionais de saúde quem decide qual o melhor produto a utilizar em cada paciente. Significa isto que Gerir Pessoas no setor da saúde é forçosamente diferente de gerir pessoas noutro qualquer setor.

Respondendo de forma mais direta à sua questão, estamos perante um setor onde o “objeto” onde se pretende acrescentar valor são sempre as pessoas que, de preferência, devem gerir, e ser geridas, em completa atmosfera de Conhecimento e Humanização.

CRH – A quem se destina esta Pós-Graduação?

FN – Esta Pós-Graduação destina-se a um público muito vasto. No fudo ela está concebida para todos os Stakeholder do setor como sejam e a título de exemplo:

– os quadros superiores que exercem ou pretendem vir a exercer funções de Gestão de Pessoas nas organizações de saúde;

– os diplomados nas áreas da saúde que procurem complementar a sua formação académica com conhecimentos sólidos na área da Gestão de Pessoas.

CRH – Que temáticas se pode esperar que sejam abordadas?

FN – São várias as temáticas no âmbito da gestão de pessoas com aplicação ao sector da saúde que serão abordadas durante o decurso do curso.

Teremos assim oportunidade de abordar as questões da “Estratégia e Inovação nas Organizações de saúde” tentando compreender como é que esta influencia a liderança e, por sua vez, interage com os processos de inovação e mudança nas organizações de saúde; da “Cultura e gestão da mudança nas organizações de Saúde” tentando compreender e analisar a cultura organizacional que predomina nas instituições de saúde enquanto fator indispensável para o sucesso da ação gestionária; como proceder à “Atração, desenvolvimento e retenção de pessoas nas Organizações de Saúde” analisando os vários processos de gerir talentos nos dias de hoje dentro das organizações de saúde; mostrar como proceder ao “Desenvolvimento das carreiras e das equipas colaborativas em organizações de Saúde” identificando os modelos e perfis de desenvolvimento de competências dos profissionais da saúde; aprender como se processa o “Desenvolvimento pessoal para líderes da Saúde” através da promoção/progressão profissional e as competências verticais e horizontais; a utilizar as “Métricas de recursos humanos e desenvolvimento organizacional” através da utilização de técnicas; gerir os processos de “Gestão da comunicação na Saúde” como comunicar, motivar em co-presença e em contexto virtual de forma verbal e não-verbal e as barreiras comunicacionais; como se estabelecem as “Relações de poder e as lideranças na negociação na saúde” como por exemplo a relevância da análise de investimentos em RH e as decisões em condições de conflito de interesses, incerteza e risco;

Como promover os “Ambientes de trabalho saudáveis na Saúde” através do papel da liderança na promoção desses ambientes e ainda um conjunto de 5 “Seminários” destinados à abordagem de várias temáticas relacionadas com a Gestão de Pessoas no Setor da saúde por especialistas convidados, de acordo com os temas a definir anualmente em face dos interesses dos participantes.

CRH – Que acréscimo de valor para as organizações poderão trazer os profissionais que ingressarem nesta pós-graduação?

FN – Já em 1986 a carta de Ottawa definiu a promoção da saúde como o processo que permitia às pessoas o aumento do controlo sobre e para a melhoria da saúde. Todavia, embora os benefícios do sistema de saúde sobre a saúde da população estejam bem definidos, os seus efeitos sobre a economia em geral têm sido historicamente pouco compreendidos.

São várias as entidades internacionais que chamam a atenção para as ligações entre os sistemas de saúde e a macroeconomia, nomeadamente, a Comissão de Macroeconomia e Saúde da Organização Mundial de Saúde de 2001 (Sachs, 2001). Nesta altura argumentava-se que melhores resultados de saúde podem impulsionar e defender o crescimento económico. Também a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e a Comissão sobre o Emprego em Saúde e Crescimento Económico demonstraram que investir na formação dos profissionais de saúde é um caminho fundamental para o crescimento económico. Por exemplo, por cada aumento de 10% em enfermeiros licenciados está associada uma redução de 7% na taxa de mortalidade (CHEEG, 2016).

No entanto, o aumento dos gastos de saúde na força de trabalho do setor, apenas é considerado um investimento produtivo se ele, efetiva e eficientemente, conduzir a melhores resultados económicos e sociais. Uma visão tradicional entre os economistas é a de que os sistemas de saúde, como indústria, têm baixa capacidade de melhoria de produtividade em relação a outros setores da economia, enquanto uma visão alternativa é a de que os cuidados de saúde podem ser indiretamente uma força motriz por trás da inovação tecnológica em toda a economia.

Dentro dos governos, os defensores da tese que os gastos em saúde são um bom investimento são ainda encarados com ceticismo e os seus argumentos e evidências empíricas pouco persuasivos no que toca à gestão dos recursos, incluindo os humanos.

Várias são as razões possíveis pelas quais os governos hesitam em priorizar os gastos com os sistemas de saúde. Em primeiro lugar, existe a preocupação generalizada de que as despesas do sistema de saúde não sejam usadas com eficiência, dado que existem vários estudos e estimativas, nomeadamente os da OMS, que sugerem que pelo menos 20% (o valor real pode ser muito maior) das despesas nos sistemas de saúde são desperdício; falhas nos tratamentos, falhas no planeamento e na coordenação dos cuidados, falhas na execução dos processos de comunicação, falhas na capacidade de negociação, falhas nas lideranças, fraudes e abusos entre outros.

No âmbito da Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável reconheceu-se que a saúde é um objetivo fundamental de todas as sociedades e o sistema de saúde um dos mais importantes contribuintes para a saúde das populações. Considerou-se a saúde como um pré-requisito para o desenvolvimento sustentável tendo como objetivo “Garantir vidas saudáveis e promover o bem-estar de todos em todas as idades”. Para tal, há que investir na formação dos seus profissionais com vista a melhores resultados de eficiência e equidade.

Tendo por base estas premissas estabeleceram-se três grandes objetivos para a criação da Pós-Graduação de Gestão de Pessoas na Saúde:

1 – promover a aprendizagem pelo confronto do discente com diversas situações de carácter científico e de investigação, bem como pela análise e discussão de casos práticos, visando uma adequada e sólida preparação para a sua atividade profissional no sector;

2 – dotar os discentes de competências sobre os principais domínios da Liderança e do desenvolvimento de pessoas no contexto da gestão da Saúde;

3 – potenciar a capacidade crítica e criativa dos discentes, o espírito de trabalho em equipa e a permuta de ideias, assim como a aquisição de competências sobre os tópicos mais avançados da Gestão de Pessoas em Unidades de Saúde.

Só desta forma alcançaremos os melhores resultados.

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