A difícil missão de motivar “heróis”

Paulo Castanheira na comunicaRH

A pandemia que atravessamos há mais de meio ano tem-nos obrigado a repensar muitos comportamentos e a adaptarmos o nosso quotidiano, mas tem-nos também levado a valorizar prerrogativas que tínhamos por tão garantidas que até nos descurávamos de lhes atribuir o devido valor.

Enquanto gestor de pessoas, e assumindo desde já a alusão ao grande cliché da gestão de recursos humanos, tenho a forte convicção de que o bem mais precioso de qualquer organização são as pessoas que a compõem. E esta situação que temos vindo a atravessar, leva-me a valorizar ainda mais todos aqueles que exercem funções no Serviço Nacional de Saúde. Sinto-me efetivamente orgulhoso por todos os profissionais que em abril eram aplaudidos pela sociedade e nomeados heróis. Que eram elogiados e assumiam o protagonismo de reportagens que testemunhavam o esforço feito por muitos, sacrificando muitos vezes a vida familiar em prol da sua missão profissional.

Como era esperado, esse reconhecimento entusiástico da sociedade para com os profissionais de saúde foi-se diluindo. Contudo atualmente estas pessoas estão nas mesmas condições em que se encontravam em abril ou maio, talvez até num esforço maior resultante do cansaço acumulado, mas atualmente já foram destituídos do estatuto de outrora. Parece que se confirma a efemérida memória da sociedade, existindo até já correntes nas redes sociais a criticar vários ramos do SNS, como acontece por exemplo com os cuidados de saúde primários. Seja porque as consultas de rotina (para grupos não de risco) ainda não foram retomadas com a normalidade habitual ou porque as unidades de saúde familiar não atendem o telefone sempre que são contatados, ou por outro motivo qualquer… Sem nem sequer haver a preocupação e o respeito de se tentar perceber o porquê disso acontecer.

Embora tenha a noção que não são as “palmadinhas nas costas” que movem estes profissionais, não podem ser tratados como um mero instrumento para alcançar objetivos, pelo que cabe à Gestão de Recursos Humanos a responsabilidade e o privilégio de se preocupar com o bem-estar dos seus colaboradores. Mas não é fácil motivar e reter profissionais estando reféns de normativos legais muito limitativos baseados num conceito de one size fits all, pressão para redução de custos, insuficiente número de recursos humanos e/ou recursos materiais, constante pressão de indicadores de produção, entre outros. Já anteriormente a esta situação de pandemia se verificava um aumento de stress e situações de burnout entre os profissionais de saúde, tendo a situação se vindo a agravar nestes últimos meses. E desengane-se quem ainda pensa que os profissionais do SNS são a personificação do estereótipo do típico funcionário público estabelecido pela sociedade ao longo dos anos. Logicamente que, tal como se verifica no setor privado e nas mais diversas áreas de atividade, existem bons e maus profissionais. Contudo, posso garantir que no SNS existem (muitos) excelentes profissionais e a generalidade dos trabalhadores recebe um vencimento baixo face às exigências da função que desempenham.

Costumo afirmar que a função de um gestor de recursos humanos tem como objetivo encontrar o equilíbrio entre os objetivos da instituição e os objetivos das pessoas que a constituem, mas esse é por vezes um ponto equilíbrio difícil de concretizar, sobretudo nas instituições do SNS. O ritmo de evolução das organizações públicas face às organizações privadas é só por si consideravelmente mais lento (no início do século verificava-se um esforço do setor público na tentativa de aproximação ao setor privado, mas nos últimos anos as diferenças voltaram a acentuar-se), a autonomia das instituições para implementar processos continua limitada, a adequação de processos aos novos paradigmas nem sempre é possível e é muitas vezes impossível possibilitar a conciliação entre vida familiar e vida profissional.

Mas então, como podemos motivar estes profissionais?

A nós, gestores de pessoas das instituições do SNS, cabe-nos ouvir ativamente os desafogos e frustrações dos “nossos” profissionais, fazer o possível para que estes se sintam valorizados e sobretudo, independentemente do reconhecimento externo (ou não) relativamente ao papel fundamental que estes desempenham, lembrar-lhes o que os levou onde estão hoje… o desejo de cuidar e tratar dos outros!

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1 Response

  1. Áurea Almeida diz:

    É muito importante o burnout a que estão sujeitos
    Precisam de apoio
    Têm que ter todos os recursos humanos e materiais

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