João Miguel Rodrigues

People & Culture Director Aubay Portugal

Hoje trago-vos mais uma partilha real, uma situação na minha vida que defino como uma tomada de decisão que pode ter mudado para sempre a minha carreira profissional.

Recuando um pouco no tempo, em 2009, quando concluí a licenciatura e dava os primeiros passos no mundo profissional, encontrava-me com um dilema em mãos, seguir ou não seguir para Mestrado. Nessa altura, acreditava que não devia continuar os estudos, pois queria ter total certeza sobre o que teria maior impacto para a minha carreira. Em abono da verdade, não era apenas esse o dilema. Para além de objetivos de vida que me faziam querer juntar dinheiro para outros fins, tinha igualmente uma vontade enorme de retomar a carreira de jogador de futebol federado, que coloquei em stand-by durante a licenciatura. Posto isto, sabia que tudo junto seria muito difícil de conciliar e que tinha de fazer escolhas.

“Optei então por interromper os estudos, e dedicar-me ao trabalho, à poupança e ao futebol.

Nessa fase, os meus pais e a minha namorada, hoje minha esposa e mãe dos meus dois lindos filhotes, incentivaram-me a não parar os estudos, para não perder embalagem, alertando-me que no pós-bolonha ter um Mestrado seria crucial para as minhas ambiciosas aspirações de carreira. Tinha consciência que provavelmente eles estariam certos, mas ainda assim eu achava que ainda não era o momento certo. Sentia que iria chegar em breve, mas ainda não era o momento, alimentado por todos os outros objetivos que via como prioritários. Foi assim ao longo de alguns anos, em que arranjava sempre uma razão (que hoje vejo mais como uma desculpas) para não me inscrever. Era o típico adiar da decisão: “para o ano inscrevo-me”. Mesmo tendo consciência que algum dia tinha de ser feito, este “empurrar com a barriga” ia-me aliviando a pressão da tomada de decisão, mas que durava apenas algum tempo, até chegar novamente o período de matrículas e ter novamente o dilema em mãos.

A verdade é que os desafios profissionais foram surgindo e as oportunidades de carreira também, liderava equipas e uma unidade de negócio, depois fui convidado a juntar-me a outra empresa de maior dimensão, à qual me procurei adaptar, e mais tarde entrei numa empresa de grande dimensão, onde tinha de me dedicar afincadamente para poder vencer. E assim se passava o tempo, sempre com uma ou outra razão para não me inscrever. Trabalhava e sentia-me a progredir na carreira, jogava futebol com enorme prazer e poupava dinheiro para o futuro, posto isto, sentia-me realizado e a cumprir as metas que tinha traçado para o curto-prazo.

No entanto, a verdade, é que o Mestrado me assombrava, porque tinha consciência que um dia me poderia bloquear o progresso, que me poderia estar a impedir de abrir os horizontes que deveria abrir e que eu podia estar a estagnar sem sequer me aperceber. Isto porque ia progredindo, nas responsabilidades e nas condições salariais, pouco a pouco, de forma constante e continuada, mas no fundo eu sabia que poderia ser uma falsa sensação de crescimento, que se tornaria cada vez mais lento e efémero, e em breve poderia começar a tornar-se um GAP que me iria prejudicar e limitar.

O episódio que pode ter mudado a minha vida profissional para sempre!

Algures no final do 1º semestre de 2013, numa sexta-feira de manhã, numa conversa de feedback regular com a minha líder (sim, porque era e é muito mais que uma chefe), fiquei totalmente esclarecido sobre uma regra interna que já conhecia, mas que como bom português que sou, achava que fosse possível contornar, abrindo-se uma exceção para mim, porque gostavam do meu trabalho e eu achava que merecia esse reconhecimento excecional. Mas, após a habitual franqueza e objetividade da minha líder, ficou muito claro para mim: sem ter o grau académico de Mestrado, não poderia assumir um cargo executivo dentro da empresa onde trabalhava!

Apesar de haver um programa de apoio ao estudo e ao pagamento de mestrados na empresa, naquele momento não era viável, pelo que era algo que tinha de ser eu a fazer por minha conta e risco. Confesso que saí algo abalado daquela conversa, pois ficou evidente que o meu trabalho era admirado e o meu potencial estava mais que identificado, mas tinha uma barreira real ao meu crescimento. A minha líder tinha acabado de me dizer: “No dia em que me apareceres com o diploma de Mestrado, prometo que farei tudo o que estiver ao meu alcance para teres as condições de um executivo. Até lá, irás assumir mais responsabilidades e na teoria estarás a ocupar um cargo executivo, mas na prática nunca poderás ser reconhecido como tal.”.

Esta foi a conversa de que precisava, foi o abanão que me faltava para saber que o dia que andava a adiar tinha chegado e que agora, já não podia arranjar mais desculpas. A mais pura das verdades é que na 2ª feira de manhã (3 dias depois da conversa), entrei no gabinete da minha
líder e disse-lhe: “Só para a informar que me inscrevi no Mestrado, e que daqui a 2 anos cá estarei com o diploma!”.

A verdade é em setembro de 2013 iniciei o Mestrado de Políticas de Desenvolvimento de Recursos Humanos, no ISCTE, que concluí em outubro de 2015, com Média de 17 valores, e em que conquistei 3 Bolsas de mérito, que me permitiram fazer o Mestrado a custo zero, não afetando assim o nível de poupança que defini para mim, o que foi um plus com que honestamente não contava. Durante o 1º ano do mestrado, foi ainda possível conciliar o Mestrado com o futebol e manter assim uma atividade muito importante para o meu Work Life Balance e para a minha realização pessoal.

Em outubro de 2015, com o diploma na mão, fui promovido a um cargo executivo e tive uma melhoria considerável das minhas condições salariais, tal como me foi “prometido” pela minha líder, que lutou para cumprir com a sua parte do “acordo”. Pois bem, tinha valido a pena todo o esforço, toda a dedicação, todas as horas sem dormir, mas acima de tudo, o que mais gozo me deu, foi o olhar carregado de orgulho que senti por parte da minha líder, que senti que teve um enorme prazer em cumprir a “promessa” que me fez e me disse algo que nunca vou esquecer:

“É este tipo de ação que diferencia quem tem sucesso na vida, faz o que tem de ser feito, sem arranjar desculpas! A sorte, dá muito trabalho!”.

Sentia ainda que tinha sido um episódio que a marcou, a ela também enquanto líder, pois inúmeras vezes utilizava este meu exemplo em
reuniões/discussões com outros líderes, o que para mim era um combustível motivacional para ser cada vez melhor, por mim e por ela, para que nunca duvidasse que tinha tomado uma boa decisão e que a sua crença em mim não tinha sido em vão.

Desta história, podemos retirar, na minha humilde opinião, algumas lições relevantes. Desde logo o papel do Líder, que neste caso foi determinante, não só pela franqueza, mas também pelo compromisso que decidiu assumir, pelo suporte e confiança que foi dando ao longo do
processo e acima de tudo, pela empatia, respeito e orgulho que demonstrou. Sempre que partilhava com ela uma nota, uma conquista, parecia que era algo que estávamos a fazer juntos, que aquele Mestrado era mais um projeto que eu estava a liderar e que ela estava a supervisionar, como tantos outros. Estes pormenores foram cruciais e fizeram a diferença para o sucesso deste projeto pessoal/profissional.

Mas também o meu papel foi decisivo, pois a decisão foi minha e impactou a minha carreira, a minha vida. Este é um exemplo de uma máxima que defendo (em breve escreverei sobre isso): “A minha carreira, tal como toda a minha vida, é gerida por mim!”. Mesmo parecendo cliché, a grande verdade é que nós somos o que fazemos com a nossa vida. Não tenho qualquer dúvida que esta decisão, reativa é certo, mas que já estava preparada, que apenas andava a ser sucessivamente adiada, mudou várias coisas na minha vida.

Apesar do cansaço, durante estes 2 anos, eu sentia-me fortalecido e cada vez mais preparado para os desafios do dia-a-dia, a aprender imenso e com a sensação que estava pronto para novos voos, a todos os níveis. A minha determinação teve também um grande impacto na minha Personal Branding, pois para a minha família e amigos, colegas de mestrado, colegas de trabalho e colegas de equipa de futebol, eu era um exemplo de dedicação, perseverança e de que tudo é possível quando nos dedicamos e acreditamos no que fazemos.

O que pretendo com este texto é alertar e inspirar-vos, através da partilha de uma experiência, que me parece um bom exemplo de que ao longo da nossa vida vamos adiando decisões que no nosso subconsciente sabemos que podem ser impactantes e fazer toda a diferença, mas que ainda assim por vezes vamos menosprezando e assobiando para o lado. É importante estarmos atentos aos sinais e passar da intenção à ação, vivendo as consequências das decisões que tomamos ou deixamos de tomar. Devemos liderar a nossa vida, e numa carreira profissional, somos nós que temos de assumir a rédea, o controlo das operações, obviamente aceitando ajudas e conselhos e por vezes estando dependentes de terceiros, mas é fundamental termos consciência que depende muito mais de nós próprios do que dos outros.

This Post Has 2 Comments

  1. Edgar Magro

    João, muito inspirador! Excelente artigo. E parabéns pelo sucesso profissional!

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