Bruno Barcelos Morais

Especialista em CSR e Gestor de Projetos Sociais

Com 2020 a caminhar para o fim vamos nos preparando para encerrar um ciclo, assim, meio aos trambolhões…

Nesta altura as pessoas desejam um mundo melhor nas suas preces, mensagens de Natal e cartazes espalhados pela rua. Nem sempre estas atitudes estão expressas nas atitudes quotidianas. Expressar os nossos votos em ações concretas exige mudanças no comportamento. Estamos prontos para isso?

Queremos ser a mudança? 

O desejo dum mundo sustentável, harmonioso, justo e saudável cresce e estes comportamentos são visíveis principalmente nas novas gerações, que nascem num mundo mais informado e consciente das consequências dos nossos comportamentos.

Nós, profissionais da área de sustentabilidade, temos vindo a trabalhar e discutir sobre a preocupação da sustentabilidade na procura de estabelecer um equilíbrio para o planeta, tendo em conta a nossa forma de produzir, subsistir e preservar um ambiente saudável.

Alguns dizem: “salvem o planeta”.

De repente, o próprio planeta dá uma reviravolta e leva-nos a repensar a nossa forma de ser e estar num contexto que nos foge do controlo. O que podemos concluir?

Nós não temos o controlo sobre o planeta! E sobre quase nada na verdade.

A Terra irá sempre sobreviver… já nós humanos…

Um mundo pós-Covid

Tendo em conta as transformações provocadas pelo momento atual, que competências serão necessárias para alavancar as mudanças provocadas pela Covid-19?

E como essas competências possibilitam a restruturação dum modelo económico, e de vida, mais sustentável, harmonioso e humilde, da nossa relação com a Terra?

E delas, quais já são desenvolvidas pelo voluntariado?

Neste artigo procuro trazer insights sobre as questões acima referidas.

Competências ao alcance de todos

Em 2004 tomei conhecimento sobre o autor da teoria das inteligências múltiplas, Howard Gardner, quando estava a desenvolver um trabalho de educação musical para a Faculdade de Música de Minas Gerais.

O objetivo do estudo passava por provar que qualquer pessoa é capaz de desenvolver habilidades musicais, e isto vai contra o paradigma da inteligência única. Gardner defendia a ideia de 7 inteligências naturalmente disponíveis que não são fixas, e podem ser treinadas.

Não conseguia imaginar que qualquer pessoa por ser bom a jogar futebol, tocar guitarra, dançar ou desenhar podia ser sinónimo duma enorme capacidade de inteligência, tal e qual a inteligência lógica-intelectual. Afinal, o leque de possibilidades e variáveis era bem maior! Percebi que a proposta de Gardner trazia consigo a inclusão de diversidade e valorização de diferentes capacidades.

Nesta perspetiva não cabe a clássica definição: ser bom ou mau, com o objetivo de formar rankings de pessoas mais capazes que outras. Esta paradigma de melhor-pior está centrado principalmente na inteligência lógico-matemática como diferenciadora para justificar todo o sistema em que vivemos. Principalmente o económico, promovendo a desigualdade a favor das pessoas com maior riqueza.

Isto não é uma lista de competências

O potencial do ser humano e as suas capacidades tem sido amplamente estudado, por autores como Peterson e Seligman (2004). Os autores definiram 6 virtudes e 24 forças de caráter como uma espécie de ementa de atributos que as pessoas podem desenvolver de acordo com os seus objetivos. 

Não quero fazer deste artigo mais uma lista com centenas de com as competências atuais e do futuro – sejam elas “O A a Z das competências”, “Competências que os recrutadores adoram”, “As x competências que devo desenvolver na minha empresa” – as pessoas estão saturadas de listas que pouco ajudam, que nada sabem sobre o seu contexto profissional ou empresa, com fórmulas mágicas que nos deixam iguais.

Isto faz sentido?

Há excesso de informação e exigência, e é preciso filtrar: quais as competências que precisamos de estimular? Ainda mais agora?

Competências do agora e o voluntariado

O momento que atravessamos convida a utilizarmos competências mais básicas para nutrir relações de resiliência e espírito de equipa. E isto pode ser desenvolvido através do trabalho voluntário.

Acredito que um grupo de voluntários, regulares, esteja mais pronto para lidar com este momento porque sabem reagir perante contextos adversos, com falta de recursos e têm muita vontade de superar obstáculos.

Estas são as softskills muito apreciadas pelo mundo empresarial, ligadas à forma como faço a gestão das minhas emoções, como me relaciono com os outros e com as capacidades de empreender e inovar, sem esquecer da preocupação pelo outro.

Fazer voluntariado pode ser uma forma de fortalecer as equipas para dar uma melhor resposta a momentos de incerteza.

5 competências potenciadas pela prática de voluntariado

1- Desenvolver relações positivas

Permite estabelecer relações win-win. O voluntariado facilita criar vínculos de entreajuda, beneficiando o fator coletivo.

O momento atual assim o exige: atuação coletiva e unida, evitando agir de forma individual ou egoísta. É preciso pensar como um todo.

Empresas que não agiram assim vão ter mais dificuldade de sobreviver à crise provocada pelo Covid-19. Qualquer negócio precisa duma rede de colaboração. E quem foi voluntário pode ajudar no envolvimento e colaboração.

2- Resiliência

Desenvolver relações, processos e recursos dentro (e com) a comunidade para fortalecer o que é local e assim ajudar a suportar a crise.

Nos lugares onde há competição, falta de coesão e dispersões as probabilidades de rutura são maiores.

A resiliência vem da força e resistência da rede de colaboração. O voluntariado permite que as pessoas desenvolvam a resiliência na prática através do trabalho em campo onde enfrentam várias adversidades.

3- Solidariedade

A solidariedade é a consistência das relações. Consiste na capacidade duma espécie se manter viva através de relações simbióticas.

Ou seja, a manutenção da vida é mais provável quando nos associamos aos outros para beneficiarmos mutuamente. O voluntariado promove o desenvolvimento da solidariedade minimizando o impacto do egoísmo e egocentrismo.

4- Gestão dos recursos

Fazer muito com pouco é outra das capacidades desenvolvidas pelo voluntariado, e o momento atual exige isso.

O trabalho voluntário convida à procura de resolução de problemas tendo de lidar com contextos adversos e falta de recursos.

Os voluntários procuram soluções na rede, aprendendo a valorizar recursos muitas vezes subestimados, mal-usados e mal direcionados.

De forma criativa o voluntário usa os recursos para melhorar as condições ao seu redor. É uma mais valia a trazer para dentro das organizações.

5- Criatividade

Da minha experiência, posso dizer: por vezes tem que travar um pouco para fazer ajustes e sistematizar as coisas, porque, no geral, o voluntário é muito criativo.

A exposição a novas realidades, os cenários socioeconómicos e a empatia para aprender com os outros promovem nos voluntários verdadeiros pensamentos fora da caixa.

Se deseja desenvolver todas estas capacidades dentro da sua organização envolva os colaboradores de certa forma em voluntariado e aprendam todos com esta prática.

E há mais

E existem muito mais competências que podem ser desenvolvidas através do voluntariado. Realço algumas como empatia, liderança, espírito de equipa, empreendedorismo, foco nos resultados e até experiência em infraestrutura, construção ou hortas.

Por tudo isto, o voluntariado é sim uma forte ferramenta para nos fortalecermos, principalmente em momentos como o atual.

Deixo uma mensagem: Promova o voluntariado, seja voluntário e aprenda com o que  voluntariado pode dar!

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