Curiosidade num mundo de Agilidade

Tânia Baptista na comunica RH

Em tempos de mudança constante, a curiosidade intelectual (que podemos entender como uma vontade imensa de aprender, conhecer, descobrir) representa um aspeto chave no que respeita à nossa capacidade de reagirmos da melhor forma a novos desafios. Segundo Gary Burnison, CEO da Korn Ferry, essa curiosidade é um dos principais indicadores de sucesso dos profissionais de alto desempenho, sendo fácil perceber porquê. Numa realidade cada vez mais automatizada, com soluções de Inteligência Artificial, Machine Learning e outras, a nossa mais valia enquanto pessoas tem muito mais a ver com a forma como gerimos e reagimos a situações complexas e novas, do que como resolvemos problemas que as máquinas podem resolver. Pelo que a curiosidade, aliada à criatividade, acaba por ser uma competência de excelência nos dias de hoje e amanhã.

Por outro lado, muito se tem falado acerca das organizações ágeis, mas, à parte de grandes chavões, qual a pertinência da agilidade nos dias de hoje? Num mundo VICA- Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo, as organizações estão mais necessitadas (dessa agilidade), por um lado, mas também mais capazes de desafiar e atingir os objetivos que trazem mais valor para as respetivas empresas. A agilidade, do ponto de vista da gestão, surge assim como uma abordagem essencial neste caminho de entrega de valor. Mas diria mais, esta agilidade só é possível quando existe agilidade mental, e esta mais do que uma metodologia representa a capacidade de mudança de perceção, pensamento e comportamento face às necessidades do ambiente. Ora esta parece-me ser a agilidade chave para tudo o resto.

Mas estarão estes dois conceitos, curiosidade e agilidade, relacionados?

Equipas e ambientes ágeis, implicam culturas de aprendizagem e curiosidade. Nessas equipas existe uma pré-disposição para questionar, para colaborar e até para errar (ou melhor dizendo, aceitar o erro e geri-lo de forma positiva). A relação entre os conceitos – curiosidade e agilidade – parece clara, mas traz um grande desafio ao nível da mudança de mentalidade. Trata-se de uma necessidade imperiosa de deixar de “precisar” de afinar processos ao limite, até perderem qualquer flexibilidade, controlar tarefas micro com vista a dizer “certo” ou “errado”, em detrimento de ambientes onde o próprio colaborador partilha, verifica e ajusta de acordo com a necessidade.

Trata-se de elevar os níveis de exigência, ou seja, a “inspeção”/ verificação continuar a existir, mas aliada a uma forte responsabilização, que eu diria ser, essencial para a adaptação e ajustamento necessários. Para que a agilidade seja possível precisamos de criar e alimentar a capacidade de as equipas fazerem acontecer de forma autónoma, pensarem, experimentarem e inovarem.

A dúvida é inevitável: será esta curiosidade viável nos dias de hoje? Entre o fazer sentido e o acontecer, propriamente dito, vai uma grande distância. Estarão as empresas de hoje preparadas para este passo? Pode parecer uma resposta fácil, mas não é! Sobretudo quando na “vida real” encontramos equipas altamente cristalizadas, pessoas habituadas a ver e a fazer as coisas de determinada forma, e muitas vezes só porque sim. As experiências de todos são aprendizagens únicas, não são de ignorar ou minimizar, mas para resultados novos há que aceitar a dificuldade e certamente, há que propor fazer diferente!

Este é o desafio que o presente nos coloca, mas como fazer? Seguem alguns aspetos a ter em conta no desenvolvimento da curiosidade como elemento chave duma cultura de aprendizagem:

Garantir um ambiente de segurança psicológica

A título de curiosidade, num estudo levado a cabo por Prof. Amy Edmondson da Harvard Business School percebeu-se que as equipas com alta performance erravam mais do que as restantes, ou se quisermos, admitiam mais facilmente o erro por se sentirem seguros para tal.

Estimular a curiosidade sobre o mundo lá fora

A curiosidade enquanto atitude de abertura global, ultrapassa em muito as necessidades funcionais da empresa. A par da formação “necessária” importa convidar a explorar, conhecer novas possibilidades, criar soluções em projetos. No fundo se não conhecermos outras realidades, conceitos, metodologias, é difícil pensarmos diferente. Só podemos unir os “Dots” se os tivermos previamente…

Algumas empresas facilitam o acesso ao conhecimento de uma forma geral, para aprender, ver, ouvir, no fundo, conhecer coisas novas todos os dias. Algumas, como a Novartis (de acordo com o Steven Baert, Chief People and Organization Officer da empresa) facilitaram inclusive, o acesso a plataformas como Linkedin Learning e Coursera, não só aos colaboradores como às próprias famílias.

Valorizar as pessoas

A valorização das pessoas parece intuitiva e obviamente necessária, mas não acontece com tanta regularidade. É importante comunicarmos, valorizarmos opiniões e pontos de vista, reconhecermos e envolvermos todos de forma a incentivar um primeiro passo que para muitos, nomeadamente no início, é um esforço sem ganho visível nem imediato… É importante incutirmos o conceito de ownership no dia a dia das organizações.

Desafiar a mentalidade dos gestores

Por fim, não posso deixar de referir a importância dos gestores aprenderem a desafiar e valorizar a experiência profissional de cada colaborador. Incentivarmos a descoberta, o conhecer, o promovermos o debate e a partilha. Projetos multidisciplinares e com equipas mistas (ex.: com diferentes áreas, gerações, experiências) também são formas de promover a cultura de aprendizagem e curiosidade.

Parece claro o impacto da curiosidade na forma como vivemos o presente e o futuro, porém as armadilhas são várias e muito fáceis de tropeçarmos nelas: a impaciência, os hábitos, a pressa de querer a resposta expectável, ou mesmo a falta de tempo para repensar processos, sem questionar a sua utilidade e validade. Como sugere Patty McCord questione-se “Este processo ainda cumpre a função, funciona? Acrescenta valor?” Se a resposta for diferente de “sim” arregace as mangas e mãos à obra. A curiosidade parece ser uma ótima estratégia na forma como encaramos um mundo de mudança que pede agilidade.

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