Empregabilidade

Empregabilidade - comunicaRH

É com muita frequência que constato a dificuldade enormíssima das empresas em captar pessoas para suprir as suas necessidades e nos particulares em conseguir empresas que lhes prestem um determinado serviço, alegando escassez de recursos, nomeadamente de mão-de-obra disponível. A empregabilidade, ou falta dela, sempre como bom tema para nos fazer pensar mais uma vez como se comporta e que efeitos tem nas nossas vidas e economias.

Se por um lado é um constrangimento (sem dúvida), por outro não deixa de ser um sinal positivo no ponto de vista económico e social. Ainda a pandemia, que não está ultrapassada de todo, levou-me a pensar no início que se iria instalar uma crise profunda e que por consequência os níveis de desemprego iriam disparar e por consequência o que não iria faltar seria mão-de-obra disponível em muitos dos setores da economia levando a que as empresas resistentes à crise tivessem mão-de-obra disponível e capacidade para dar resposta às demandas que viessem, e que mais viessem…!

É sempre difícil retirar positividade ao que vivemos há já dois anos.

O momento em que vivíamos em 2019 era realmente diferente. Tínhamos um superavit, desemprego decrescente e um grande impulsionador da economia, o turismo, em clara curva ascendente. Considerando que de superavit passámos a deficitários (logo se seguida, não nos permitindo saborear por muito tempo); considerando que no setor do turismo, profundamente afetado, as receitas e o mercado de trabalho de forma completamente direta ou indireta também o foram, que efeitos existiram para que o nosso mercado de trabalho se encontre numa situação, na minha opinião, francamente positiva face ao cenário que vivenciámos e vivenciamos? Expressões atuais, como “… só não trabalha quem não quer…” ou “… não tenho disponibilidade porque não tenho pessoas…” ou “… quero contratar, mas não consigo…” de um modo ou de outro penso que todos já ouvimos falar, independentemente de concordância ou discordância das mesmas.

Vamos a números: taxa de desemprego em 2019 – ano considerado bastante positivo para a economia nacional: 6,6%. Tal número só se constatou em 2004 (ou melhor até em anos anteriores). De referir que chegámos a atingir em 2013, 17,1% (em plena crise económica). Se é bem verdade que em 2020 aumentámos de 6,6% para 7,0%, já em 2021 voltámos aos números pré-pandemia com 6,6%.

Se consideramos que os setores do turismo, restauração e similares garantem muita empregabilidade e tão afetados foram e que os apoios dados certamente não cobriram os enormes impactos negativos da pandemia, acresce talvez mais dificuldade de entendimento ou explicação à situação atual. De recordar que o setor do turismo representou em 2018 51,5% das exportações de serviços, 18,6% das exportações totais e um contributo de 8,2% do PIB português.

Então, como perceber a escassez de mão-de-obra, seja ela mais ou menos qualificada?

Como entender também como alguns setores da economia tão dependentes estão de imigração (exemplo: setor da agricultura)? Como perceber uma inflação de 1,3% em 2021 conjugada com um aumento constante e brutal nas energias? Um aumento da procura face à oferta no setor imobiliário (que é uma referência para o índice da pujança económica) e constatar um aumento de 12,2% no mercado imobiliário em 2021.

Tenho limitações em conseguir entender e explicar um tema de tamanha complexidade, ainda para mais quando tinha à partida uma visão mais pessimista do tema. Agrada-me muito esta contrariedade da minha expectativa inicial. Vejo que existem muitas variáveis e que contribuem para os números finais, mas também observo que cada setor tem os seus números e que trabalham por vezes de forma isolada contrariando e impulsionando os números dos outros setores em “vasos comunicantes” – a economia a funcionar holisticamente, tal como na minha visão deve ser.

O equilíbrio entre setores foi preponderante. Se uns perderam muito (novamente o turismo: em 2020 -63% no alojamento turístico face a 2019; procura internacional -75% e -57,6% nas receitas também entre 2019 e 2020). Dá assim para entender o peso e o impacto. Por outro lado, setores como as tecnológicas continuaram em franca expansão apesar de não ser fácil consolidar os números de crescimento. Na perspetiva puramente laboral, o que se constata é um praticamente full employment nas áreas de TI, uma constante necessidade de recrutar fora de Portugal, uma adaptação rápida aos novos modelos de trabalho, criando por exemplo conceitos como nómadas digitais, e logo um aumento salarial que em média não tem ficado abaixo dos 10% ao ano, bem longe do que é aplicado aos restantes setores. Setores como o da construção civil, por exemplo, também cresceram, tendo em 2021 registado um aumento de 4,3%.

Portanto, e em jeito de conclusão, parece-me evidente, que em termos genéricos a situação que temos vivido nos tem impactado bastante, mas talvez numa perspetiva de bem-estar social no que respeita às liberdades de circulação e convivência, às angústias que qualquer pandemia nos trás (agora podemos falar com propriedade) e não tanto numa perspetiva de macro impacto na empregabilidade. Talvez também se concluía que em situação normal poderíamos estar hoje numa situação bem mais favorável. Impactos que já estão avaliados e outros ainda por avaliar, e que muito impactarão as pessoas e futuras gerações são certamente âmbito de outras abordagens e que não me atrevo sequer a aflorar. As empresas e as pessoas de uma forma genérica souberam reagir e adaptar-se muito rapidamente e reagiram em muitos casos de um modo muito assertivo, tendo também em consideração todo o problema causado nas cadeias de abastecimento das mais variadas matérias-primas ou produtos finais. Certamente que medidas de apoio à economia fizeram com que muitas empresas e consequentemente os seus colaboradores pudessem conter situações de falências ou insolvências, arranjando mecanismos de manutenção de empregos mesmo em situações de total lock down das suas atividades empresariais. Expressões como resiliência, solidariedade, positivismo, criatividade, reinvenção, adaptabilidade, improviso, alteração de modelos e paradigmas nunca tiveram tão em voga quanto agora. Prefiro focar-me no que vejo de positivo do que o contrário, até porque expressões derrotistas também não faltarão.

Os meus sinceros desejos de um caminho que nos permita continuar a construir coisas positivas em ambientes tão adversos como os que temos vivido. Mas acreditando que o pior já passou, resta-me achar que o melhor está para vir.

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