Ana Marques

Diretora de Recursos Humanos Fapajal Papermaking, S.A.

Em 31 de dezembro de 2019 era reportado o primeiro caso da doença em Wuhan, na província de Hubei, República Popular da China. Em 2 de março de 2020 eram anunciados em Portugal os 2 primeiros casos de infeções por Covid-19.

Há 260 anos que as nossas máquinas não param. Empregamos 120 pessoas, maioritariamente residentes nas proximidades, em alguns casos famílias completas. Há que manter a fábrica em funcionamento. E o Cliente precisa dos nossos produtos. Adaptámo-nos a uma velocidade estonteante.

Forçados a gerir a crise

No dia 6 de março a equipa de gestão de crise realizou a sua primeira reunião, onde definimos um conjunto de medidas a serem adotadas no imediato e curto prazo. Tal como a nossa história, as nossas instalações revelam o passar dos anos em produção contínua, 24 sobre 24. Não temos espaços fáceis para concretizar o distanciamento. Foi difícil encontrar medidas que protegessem os colaboradores da propagação do vírus quando a nossa tecnologia não impede que as equipas se sujem e precisem de continuar a tomar banho, que tantos equipamentos e ferramentas tenham de ser partilhados, que tantas tarefas, para serem executadas, obrigam o ajuntamento.

Trabalhámos com as pessoas, pedimos as suas sugestões, usamos as ferramentas que tínhamos. Procurámos adaptarmo-nos às circunstâncias e redescobrir estratégias a seguir. Preocupou-nos os efeitos do medo e da desinformação. Sentimos necessidade de afastar as emoções e sentimentos que atrapalham e que impedem uma resposta adequada.

Comunicação como arma fundamental

A comunicação assumiu um papel fundamental. A comunicação em linguagem simples, objetiva e, sobretudo, sistemática é o melhor antídoto para o medo. Partilhámos todas as iniciativas que estavam a ser adotadas. Comunicámos numa base semanal para que todos soubessem o que fazer, para que sentissem que estamos todos no mesmo barco

Comunicámos, esclarecemos, formámos. Demos especial enfoque às chefias fabris, agentes mobilizadores e modelos de comportamento, mas também cuidadores das suas equipas. Ensinámos-lhes a lidar com o medo, acalmando e orientando os comportamentos.

Adotámos todas as medidas que possibilitassem o distanciamento, mas que não colocassem em causa os processos, produtivos e outros. Criámos equipas espelho nas áreas produtivas, condicionámos acessos, no interior e no exterior, espaçámos mesas no refeitório para proporcionar o distanciamento, mudámos a forma de reunir e de nos relacionarmos. Implementámos o teletrabalho em tempo record. Sem portáteis para todos, algumas torres viajaram para casa das nossas pessoas. Redescobrimos novas formas de trabalhar na manutenção, reduzindo ao mínimo a intervenção externa. Contámos com aqueles que não esperam ordens para solucionar adversidades ensinando aos restantes o que é um profissional de atitude.

O processo foi fácil. Fomos obrigados a adotar tantos comportamentos novos e não sentimos a resistência à mudança, reação tão comum em ambientes como o nosso.

Recorrendo a questionários, que também incluíssem perguntas de resposta livre, procurámos sentir o grau de conforto e de confiança dos nossos colaboradores. E concluímos que as nossas pessoas confiam na organização e nas medidas adotadas.

Impacto na área comercial

Também do ponto de vista comercial vimos o nosso portfolio de clientes ser fortemente impactado na sua atividade, razão pela qual sentimos necessidade de proceder a ajustes no posicionamento comercial, seja a nível da oferta seja ao nível do seu target geográfico. E como as crises sempre abrem janelas de oportunidade, tal ajuste não só possibilitou como impulsionou acesso a novos mercados e novos segmentos que ajudaram a mitigar o impacto económico da pandemia.

Atravessamos um ciclo difícil. Precisamos de continuar a acompanhar a evolução dos números da pandemia, tentando antecipar estratégias que ajudem a prevenir casos positivos dentro da empresa e em simultâneo o retorno gradual a este “normal diferente”.

Lideramos com calma e transparência, procurando reforçar o compromisso e o sentimento de pertença.

Enquanto gestora de pessoas não posso deixar de procurar a nossa janela de oportunidade. A luta contra o Covid-19 conseguiu sincronizar países, credos, organização e pessoas. Quando tudo estiver bem devemos continuar a procurar estratégias que possam unir os colaboradores em torno de objetivos, valores e interesses partilhados. Assim estaremos mais próximos de estabelecer uma conexão forte e construir equipas de trabalho solidárias, resistentes e comprometidas.

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