Rodrigo Monteiro

Coach Criacional, Produtor de Conteúdo, Professor na Live University, YDUQS, Grupo Ser Educacional, Universidade Católica de Petrópolis e Gerente de Recursos Humanos em uma multinacional de tecnologia.

Em março de 2021 completámos 1 ano de pandemia do Corona Vírus. Desde o início, muito se tem discutido sobre nossa inteligência emocional e saúde mental.

Verdade que desde o início de toda essa loucura, a inteligência emocional tem sido ainda mais relevante para as pessoas. Contudo, não podemos esquecer que ainda antes do COVID o conceito já contava com papel de destaque no mundo do trabalho – a destacar cenários como estes:

  • Estresse, ansiedade, depressão, burnout, já eram problemas sérios no ambiente de trabalho;
  • Chefes estúpidos, pessoas maltratadas/desrespeitadas;
  • Empresários e CEO’s que não conseguem segurar os nervos frente à uma crise extrema;
  • Gerentes que não respeitam as diferenças de seus liderados;
  • Ou profissionais estressados que retornam para suas casas e descontam o estresse do dia a dia nas pessoas que amam.

Do meu ponto de vista, muitos desses exemplos tem a ver com um mercado de trabalho carente de lideranças e de compreender suas emoções. Que tal a gente juntar as duas coisas em uma só? Então está aqui este artigo. Vamos navegar pela ideia de inteligência emocional focada no desenvolvimento de líderes e como podem se beneficiar do conceito (mas claro que esse conhecimento serve para qualquer um de nós).

O que é inteligência emocional?

Para começar, quando você pensa no assunto Inteligência Emocional, o que vem na sua cabeça? Veja se sua resposta passa por uma dessas opções: ter empatia pelo outro, estar sempre feliz e alegre, não ter nenhum estresse, aceitar tudo e qualquer coisa imposta, não discordar.

Desta lista, por mais ou por menos, uma coisa aqui e outra ali, até passam pela ideia de inteligência emocional. Mas ela está longe de ser só uma ou outra. A relativização que temos dado a alguns conceitos nos fazem tender a simplificar demais as coisas.

Ainda assim, vamos começar de forma simples para gerar entendimento (a aprofundamos nos parágrafos seguintes).

Duas ideias para ajudar a entender:

  • A inteligência emocional pode ser considerada como a capacidade de reconhecer e administrar suas próprias emoções.
  • Um outro conceito que gosto é o que vi em um dos vídeos do Gerônimo Theml (vídeo). De forma bem lúdica, ele apresenta que o nosso nível de inteligência emocional é como o tamanho do pavio de uma bomba. Quanto tempo levamos para explodir? Menos tempo quem tem pavio menor (menos IE) e mais tempo quem tem pavio maior (mais IE). Mais ainda, o Gerônimo comenta que é relevante o tempo que levamos para a recomposição do nosso estado emocional depois que explodimos. Ou seja, mais cedo ou mais tarde vamos explodir, e quando isso acontecer, devemos considerar quanto tempo levamos para nos recuperar. Quem leva menos tempo, tem maior nível de inteligência emocional. Quem leva mais tempo, tem menor nível de inteligência emocional.

Captou?

Só que como a ideia aqui é a gente ir mais a fundo, então vou lançar mão dos ensinamentos dos professores Daniel Goleman e Richard Boyatzis. Juntos ou separadamente, eles possuem artigos, livros e estudos sobre o tema. Goleman, por exemplo, escreveu ainda na década de 1990 o livro Inteligência emocional, A teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente, e uma outra obra expressiva e que também serve de base para este artigo é Liderança, a inteligência emocional na formação do líder de sucesso.

Quociente de Inteligência

Antes das ideias de inteligência emocional, por muitos anos foi o quociente de inteligência (QI) que dizia se alguém era inteligente ou não. O conceito passa pela medição do desempenho cognitivo (relativo ao processo mental de perceção, memória, raciocínio, aquisição de conhecimento) de um indivíduo comparando a pessoas do mesmo grupo etário. Com base em testes específicos, mensuram-se aspetos como: compreensão, razão e julgamento; aritmética, memorização e vocabulário; compreensão verbal e espacial, memória e velocidade de processamento.

Com evolução dos estudos científicos e do avanço da neurociência, começou a ficar evidente que não era só o QI que media a inteligência de um ser. Os teóricos percebiam que não era sustentável julgar se uma pessoa era inteligente ou não apenas pelos resultados do QI. Embora haja outras teorias que falam de diferentes tipos de inteligências, o nosso foco permanece na inteligência emocional.

Conceitos de inteligência emocional

Há diferentes formas de entender a inteligência emocional – o assunto complexo, até porque conhecer e controlar nossas emoções não é tarefa das mais simples, você não acha?

Vejamos alguns conceitos:

Mayer e Salovey (1990):

A inteligência emocional é a capacidade de raciocinar a partir das questões emocionais de maneira a se adaptar melhor ao que acontecem em nosso dia a dia.

Bar-On (2006):

A inteligência emocional está dividida em cinco áreas amplas de aptidões e competências:

  • Intrapessoais – autoconsciência emocional, autorrealização, independência e assertividade;
  • Interpessoais – relacionamentos, empatia e responsabilidade social;
  • Adaptabilidade – capacidade de resolução de problemas, flexibilidade;
  • Administração do estresse – gerenciar seus impulsos e ser tolerante ao estresse;
  • Humor – felicidade e otimismo.

Goleman (1995) (baseado na proposta original de Mayer e Salovey):

A inteligência emocional está dividida em cinco domínios (ao longo da evolução dos estudos do autor e a depender da obra, vemos esses nomes variarem um pouco):

  • Domínio das próprias emoções – autoconsciência do indivíduo;
  • Lidar com emoções – habilidade da pessoa para lidar apropriadamente com seus sentimentos;
  • Motivar-se – dispor das emoções para se atingir uma meta;
  • Reconhecer emoções nos outros – empatia;
  • Lidar com relacionamentos – lidar com as emoções dos outros.

A IE vai ser melhor desenvolvida na infância, até os 7 anos de idade, dentro de um ambiente familiar saudável. Mas isso não quer dizer que ela não pode ser desenvolvida em outros contextos ao longo da vida (e é por isso que estamos aqui).

Identificando as suas emoções, você pode aprender e desenvolver sua inteligência emocional – ser um melhor ouvinte e a controlar as suas emoções. O segredo é se dedicar e ser persistente nesse processo (como em qualquer coisa que a gente queira de fato aprender).

O nosso cérebro é incrível quanto ao processo de aprendizagem. Claro que para algumas coisas, aquelas que possuímos mais aptidões, teremos melhores resultados. À medida que nos aprofundamos mais no conceito, melhor é nossa compreensão e mais fácil fica traçar as estratégias de desenvolvimento. Se você acha que não consegue aprender sobre IE ou algum outro tema, saiba que você pode enganar seu cérebro até conseguir – para saber mais veja esse TED Talk da Amy Cuddy, uma psicóloga social americana.

A inteligência emocional aplicada à liderança

Como Goleman nos ensina em seu livro, alguns teóricos com uma visão restrita do conceito de inteligência entendiam que o QI é genético e impossível de ser alterado a partir das experiências vividas pelas pessoas. Neste sentido, foi ficando difícil para seus defensores explicar o porquê alguém de elevado QI tinha resultados ruins na vida, enquanto pessoas com QI mais modesto se saiam muito melhor.

E foi com essa premissa que o autor começou suas hipóteses, levantando que os aspectos como: autocontrole, zelo, persistência e capacidade de automotivação faziam a diferença, era a inteligência emocional agindo. Mais do que isso, os estudos realizados mostravam que tais aptidões poderiam ser ensinadas e desenvolvidas ao longo da vida. Pronto, a gente não seria mais condenado se tivesse um QI baixo!

A partir de suas experiências, Daniel Goleman percebeu que líderes mais eficazes possuíam elevado grau de inteligência emocional. Ou seja, a inteligência emocional falava mais alto do que o QI e as habilidades técnicas (ainda que estes não sejam irrelevantes, longe disso!).

Esse peso é ainda maior para os cargos nos níveis hierárquicos mais altos, considerando o tipo de decisões que precisam tomar (em geral, menos técnicas e mais comportamentais e estratégicas).

Por exemplo, é errado acreditar que a inteligência emocional é associada apenas à sociabilidade, ficando de lado outros elementos fundamentais que compõem o conceito (e comum na rotina dos cargos do alto escalão) – como a capacidade de dar feedbacks complicados, coragem para dar uma notícia ruim e desagradar as pessoas, fazer mudanças.

Na apresentação dos próximos tópicos (a. o modelo, b. como desenvolver a inteligência emocional e c. tríade da empatia) recai o principal objetivo deste artigo: permitir a autorreflexão e autodesenvolvimento dos líderes (ou aqueles que almejam ser), ajudando a melhor prepará-los para construir um mundo do trabalho mais feliz.

Espero que durante os próximos parágrafos, você seja estimulado a ter mais clareza das questões emocionais referentes aos cargos de liderança e como trabalhar efetivamente o seu autodesenvolvimento.

O modelo da Inteligência Emocional

Daniel Goleman fala da inteligência emocional aplicada a liderança e dividida em 4 domínios: autoconhecimento, autogerenciamento, consciência social e gestão de relacionamento. Dentro de cada um desses domínios estão um total de 12 competências fundamentais para o líder de sucesso (que podem ser adquiridas e desenvolvidas).

DOMÍNIOS E COMPETÊNCIAS DA IE
AUTOCONHECIMENTOAUTOGESTÃOCONSCIÊNCIA SOCIALGESTÃO DE RELACIONAMENTO
Autoconhecimento emocionalControle emocional Orientação de conquista Panorama positivo AdaptabilidadeEmpatia Consciência organizacionalInfluência Coaching e mentoring Gestão de conflitos Trabalho em equipe Liderança inspirativa
Fonte: Criado pelo autor do artigo

Ter uma competência ou dimensão da IE mais aguçada que a outra não é sinal de ausência de capacidade de inteligência emocional, mas sim que as qualidades do indivíduo nesta área são desiguais – e será pouco provável que você consiga altos índices em todas as competências. O líder deve buscar o equilíbrio, assim estará mais bem preparado para lidar com os mais diversos desafios.

Como desenvolver a inteligência emocional?

Para desenvolver nossa inteligência emocional, primeiro precisamos saber como ela está.

Há diversos modelos científicos que trabalham o tema (ligando QI, Testes de Personalidade e IE). Goleman desenvolveu o Emotional and Social Competence Inventory (um guia explicando melhor o teste). Um teste científico que vai avaliar os graus em cada uma das 12 competências. Como este e outros testes são pagos, há uma forma mais simples de se autoavaliar e traçar um plano de desenvolvimento.

O próprio Goleman menciona que ferramentas de autoconhecimento, como os feedbacks 360 graus ou uma conversa com quem te conhece bem já são um baita input, gerando percepções suficientes para o desenvolvimento. Assim como no teste formal (Emotional and Social Competence Inventory) ou em feedbacks informais, quanto maior for a lacuna entre a autoavaliação e como as outras pessoas nos veem, menor é a nossa capacidade de IE. Para quem tem baixa capacidade e inteligência emocional e busca desenvolvimento, Goleman recomenda o coaching como o método mais eficaz para se aprimorar áreas que estão em déficit.

Ainda assim, há como se virar sozinho. Dica. Liste as 12 competências em um documento digital. Faça sua autoavaliação atribuindo uma nota de 0 a 10 para cada uma delas. Em seguida, busque pessoas que acredita que possam ajudar. Envie o documento digital para elas e peça que façam o mesmo, nota 0 a 10 para cada competência. Quando receber as respostas, calcule a média das respostas e compare com sua autoavaliação, identificando o gap em cada competência. Nada científico aqui, mas uma forma interessante de te direcionar no caminho do autodesenvolvimento.

A tríade da empatia

Um outro tema que os líderes necessitam prestar atenção é quanto à empatia. Ela está dentro do domínio consciência social do modelo de Goleman, e ajuda a construir relacionamentos sociais (outro domínio do modelo – Gestão de Relacionamentos). É fácil identificar os líderes que têm sucesso com a empatia. Muitas vezes, são aqueles que encontram consenso dentro do grupo e as pessoas querem trabalhar.

Embora seja comum falar de empatia como um elemento único, ela é dividida em 3 (tríade da empatia): empatia cognitiva, empatia emocional e preocupação empática. E encará-la separadamente será estratégico para o avanço da sua inteligência emocional.

Empatia cognitiva

É a capacidade de compreender a perspetiva da outra pessoa, levando os sentimentos dela em consideração ao invés de senti-los diretamente.

Ao dominar a empatia cognitiva, o líder se torna capaz de obter o melhor desempenho dos seus liderados. Mas para isso, é preciso realizar que a empatia cognitiva é consequência da autoconsciência. Quando pensamos melhor sobre nós mesmos e desenvolvemos o autoconhecimento, em geral, estamos mais aptos a aplicar este modelo à mente de outras pessoas, fazendo com que seja possível entendê-las com maior facilidade. Um liderado que tem um líder que o compreende, tende a ser mais motivado e engajado.

Empatia emocional

É a capacidade de sentir o que a outra pessoa sente. Deixa-me explicar isso melhor.

A verdade é que não temos como sentir exatamente o que a outra pessoa sente. A forma que vemos, enxergamos e sentimos o mundo é própria nossa, exclusiva. Por isso, duas pessoas com as mesmas características e histórico pessoal podem ter gostos diferentes: uma gosta de sorvete de limão e a outra não; uma gosta de cachorro e a outra não.

Cientificamente falando, o professor Goleman esclarece que a empatia emocional tem origem nas partes mais remotas do nosso cérebro, abaixo do córtex (amígdala, hipotálamo, hipocampo e córtex orbitofrontal). É a parte responsável por nos permitir sentir rápido sem pensar (agir emocionalmente, impulsivamente sem avaliar o que está em jogo). Essa parte do cérebro também é responsável por nos fazer conectar emocionalmente com as outras pessoas.

Quando falei em: “é a capacidade de sentir o que a outra pessoa sente”; isso que significa “conectar emocionalmente com as outras pessoas”. Por exemplo, é essa conexão que ocorre quando alguém perde um ente querido e nossa empatia faz a gente se sentir triste, capazes de sentir a dor do outro (só que do nosso jeito).

Preocupação empática

É a capacidade de sentir o que a outra pessoa precisa de você.

Vou te dar um exemplo. Um certo fim de semana eu estava almoçando em um restaurante com a minha filha e a minha esposa. Já tínhamos feito o pedido, mas ainda aguardávamos ficar pronto. Observando o ambiente, vi que uma família acabara de chegar. Estavam em 12 pessoas e não havia uma mesa que comportasse todos juntos. Por fim, acabaram sentando-se em mesas separadas, ao mesmo tempo que conversavam com o garçom em busca de um espaço que deixasse todo mundo junto. Ao perceber a situação, sem que ninguém me pedisse nada, eu me levantei e fui até um senhor que parecia estar na liderança da família. A minha mesa estava exatamente ao lado de uma das mesas que a família ocupou. Então, se eu trocasse de lugar com eles, todos nós ficaríamos felizes.

Perceber o cenário, levantar e conversar com o senhor foi uma demonstração de preocupação empática. Eu senti que eles precisavam que alguém no restaurante tomasse essa atitude.

Aqui há uma íntima relação com a empatia emocional: perceber o como as pessoas se sentem e o que elas precisam de nós (emocionalmente falando).

No entanto, faz-se necessário uma ressalva. A preocupação empática demanda que a gente controle nossas próprias emoções, para que tal preocupação não gere frustrações. Por exemplo, profissionais da área assistencial, terão dificuldades (em vários sentidos) ao se envolverem de forma demasiada com seus clientes. Executivos, podem sofrer com ansiedade em relação às pessoas e situações que não estão em seu controle (por exemplo, em um caso de fechamento de uma filial com inúmeras demissões – deve-se controlar a preocupação empática, pois não haverá o que fazer em muitos casos; ser responsável no processo já será muito digno).

Coloque a mão na massa

Foram apenas algumas pitadas, mas a partir do conhecimento de inteligência emocional, do modelo de Goleman e da compreensão da tríade da empatia, espero que você dedique um tempo para você. Faça o exercício de autoconhecimento de como andam suas competências de IE. Com a identificação do gap, pense o que pode fazer para melhorar.

Também, invista um tempo se questionando como anda seu grau de empatia. Coloque-se na condição de pensar no outro a sua volta na ótica da empatia cognitiva, emocional e da preocupação empática. Junte tudo isso as suas habilidades técnicas, as hardskills e seja um profissional ainda mais forte nesse mercado de trabalho que tanto nos demanda.

Boa sorte, e se precisar trocar uma ideia, estou por aqui.


Referências

BAR-ON, Reuven. The Bar-On model of emotional-social intelligence (ESI) 1. Psicothema, p. 13-25, 2006.

SALOVEY, Peter; MAYER, John D. Emotional intelligence. Imagination, cognition and personality, v. 9, n. 3, p. 185-211, 1990.

GOLEMAN, Daniel. Inteligência Emocional: a teoria que redefine o que é ser inteligente. Trad. M. Santarrita). Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1995.

GOLEMAN, Daniel. Liderança: a inteligência emocional na formação do líder de sucesso. Objetiva, 2015.

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