Liderança: será que posso confiar em si?

Paulo Finuras liderança

Todos nós, consciente ou inconscientemente, quando conhecemos alguém, tendemos a avaliá-lo em milésimos de segundos.

Na verdade, e de modo mais rigoroso, essa avaliação demora, segundo a investigação[1] mais recente, entre 100 milésimos de segundo a 2 segundos, no máximo. Mas o que é que avaliamos exatamente no outro quando o conhecemos pela primeira vez?

Desde há algum tempo que sabemos que as pessoas tendem a ser avaliadas por aquilo que dizem, a forma como falam e o modo como se comportam. Estes três critérios fazem parte do crivo de avaliação que todos possuímos. Porém, agora, ficamos a saber pelo trabalho de vários investigadores,[2] em particular da psicóloga social da Harvard Business School, Professora Amy Cuddy, que as primeiras impressões que temos de alguém constituem um padrão na esmagadora maioria das interações que desenvolvemos com os outros em geral, e, em particular, quando conhecemos alguém pela primeira vez.

Aquilo que avaliamos visa responder a duas questões essenciais que se colocam nos primeiros momentos: posso confiar nesta pessoa? Consigo respeitá-la?

Os especialistas classificam estas dimensões (ou fatores) como «confiabilidade» e «competência», respetivamente, e qualquer um gosta de ser percebido como possuindo as duas.

Mas o que é mais curioso é que a maioria das pessoas, no contexto profissional e das organizações, tende a dizer que a «competência» é o fator mais importante na avaliação de alguém em termos de primeira impressão. Contudo, não é bem assim.

Segundo a investigação nos informa, entre aquilo que as pessoas verbalizam e aquilo que o cérebro realmente pensa, vai uma certa diferença, neste caso, na ordem dos fatores.

A primeira questão mais importante em termos de avaliação efetuada por alguém, numa primeira impressão, é saber se «pode confiar em si»!

Do ponto de vista evolutivo isto faz sentido por dois motivos. 1º) porque tal como na evolução do nosso cérebro, o chamado Paleocortex (área das emoções) é mais antigo que o Neocórtex (área da razão). 2º), porque sempre foi mais importante para a nossa sobrevivência tentar saber se o outro é merecedor da nossa confiança e quais as suas intenções em relação a nós, do que saber se esse alguém merecia mais respeito por ser mais competente a caçar ou a fazer fogo.

Isto não significa que as primeiras impressões estejam corretas ou não possam vir a ser modificadas, vencendo o nosso enviesamento confirmatório daquilo em que queremos acreditar ou já decidimos, inconscientemente, acreditar. Isto acontece porque, tendo nós vivido 99% do nosso tempo em bandos de caçadores-recolectores e abrigando-nos em cavernas, era muito mais importante saber se alguém que era novo no grupo, por exemplo, tinha intenção de nos matar e roubar as nossas provisões do que saber se era bom a detetar o rasto de caça.

O nosso cérebro está moldado para, em primeiro lugar e num espaço de tempo que varia entre 100 milésimos a 2 segundos, decidir se pode confiar em alguém, e só depois se preocupar em saber se pode admirar e respeitar o outro pela sua competência. Ainda hoje é assim!

Claro que a competência continua a ser avaliada, mas este fator torna-se mais importante depois de sabermos se podemos confiar na outra pessoa. Nestas situações, quando a confiança está construída e conquistada, a competência é ainda mais valorizada. Pelo contrário, quando alguém tenta apenas fazer «valer» a sua competência não se preocupando em provar que é confiável, essa mesma competência pode voltar-se contra a própria pessoa e ser vista como uma ameaça e não como uma mais-valia para o grupo.

Antes de procurar mostrar o quanto competente é, procure mostrar o quanto confiável pode ser, porque essa é a primeira preocupação de alguém quando o conhece pela primeira vez.

Não se precipite a julgar o “porquê” de sermos assim. No fundo, do ponto de vista evolutivo, parece haver boas razões para que tudo isto aconteça. Afinal, como diz o adágio, “a primeira vez que me enganas, a culpa é tua, a segunda, a culpa é minha”.

Surpreendido?


[1] Cuddy, A. (2015). Presence: Bringing Your Boldest Self to Your Biggest Challenges. New York: Black Bay Books

[2] Susan Fiske e Peter Glick; Finuras, P. (2018). Bioliderança: porque seguimos quem seguimos? Lisboa: Ed. Sílabo

Gazzaniga, M. (2012). Who is in Charge? Free Will and the Science of the Brain. Hachette UK.

Langer, E. (1994). The illusion of calculated decisions. In R. C. Schank & E. Langer (Eds.), Beliefs, reasoning, and decision making: Psycho-logic in honor of Bob Abelson (pp. 33-53). Hillsdale, NJ, US: Lawrence Erlbaum Assoc., Inc.

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