O normal e o novo RH

Eluard Puccini na comunicaRH

Estamos há alguns meses falando de um “novo normal”. Desde o início dessa pandemia temos questionado muito a forma como fazemos as coisas, como administramos nossos negócios e nossas vidas pessoais. Temos falado tanto sobre isso que para mim isso já nem é mais o “novo normal”. Passou a ser “O NORMAL”.

“O NOVO”, creio eu, é resposta ao nos adequarmos aos novos cenários. Nossa capacidade de adaptação está sendo desafiada a cada dia e tivemos que mudar tudo e, ainda assim, temos mais o que mudar daqui para frente.

Nesse sentido o papel do RH toma uma protagonismo sem precedentes. A relevância da área nesse período de crise tem crescido exponencialmente. A cada fala de algum colega, a cada depoimento de CEO e a cada artigo ou reportagem que leio vejo a relevância do RH nesse momento. É unanime que somos uma peça fundamental na gestão dessa crise e no apoio do desenho do futuro das organizações.

RH da crise, RH sem crise

Tendo mais de 25 anos de experiencia em RH vi, muitas vezes, questionamento sobre o papel do RH nas organizações. Uma “crise de identidade” que, muitas vezes, vinha de dentro da própria área. Quantos meetings anuais que discutiam o papel do RH você teve a oportunidade de participar?

Nunca concordei com esse tipo de questionamento. Sempre acreditei no papel do RH, na influência ao negocio e no papel estratégico da área e isso ficou evidente na gestão da crise do COVID-19. As empresas que conheço, que deram ao RH a autonomia necessária para gerenciar a crise, estão tendo muito mais sucesso na gestão desse desafio e continuidade de negócio, bem com um número muito menor de membros da equipe afetados pela pandemia.

Não posso dizer que todos RH’s conseguiram esse mesmo nível de sucesso. Mas aqueles que vêm fazendo um bom trabalho de desenvolvimento de pessoas, que vêm buscando dar autonomia aos times, que promovem uma comunicação clara e objetiva, que já têm processos menos burocráticos e que, acima de tudo, valorizam e gerenciam a cultura organizacional, conseguiram dar um apoio muito maior às suas empresas e equipes durante a crise.

Esse RH da crise não tem crise de identidade. Sabe de seu papel e gosta de estar em missão. Entende sua importância e consegue equilibrar os anseios dos times e o atingimento dos objetivos estratégicos e organizacionais.

O futuro não é mais como costumava ser…

Iniciamos o ano de 2020 sem imaginar o que enfrentaríamos. Como poderíamos, ainda em janeiro, prever que em alguns meses a forma como trabalhamos e nos estruturamos como “mundo corporativo” seria algo que sofreria uma mudança tão rápida e tão profunda? Projetos bem estruturados, pensados por meses, discutidos e aprovados foram substituídos pela necessidade de adequar nossos times, garantir a sustentabilidade do negócio, e manter a equipe engajada.

Nesse momento nosso principal foco dos gestores tem sido em garantir a continuidade de nossos negócios, através de uma equipe engajada e motivada, mesmo diante de tantas adversidades. Fazer qualquer projeção de como as coisas serão daqui para frente é difícil, mas algumas mudanças na forma como trabalhamos chegaram para ficar.

A casa é sua, mas não precisa entrar

Acredito que a mudança de maior impacto nas ações e processos de RH foi a adesão ao trabalho remoto. Com exceção das empresas que já tinham essa modalidade de forma muito mais estruturada, não há dúvidas que essa mudança alterou para sempre a forma como RH entrega seus projetos.

Não é uma forma de trabalho para todos nem para qualquer indústria. Demanda adaptação da empresa e do colaborador; demanda infraestrutura; exige uma maturidade de líderes e liderados e; não nos enganemos, o desafio do trabalho remoto não se resolve apenas com tecnologia.

Quanto mais distantes, mais humanos precisamos ser.

Como não perder a essência da companhia quando selecionamos novos funcionários e os desenvolvemos à distância? Como podemos garantir a integração de nossas equipes quando não há esse contato próximo?

Pois bem, esse é o desafio do RH. Em primeiro lugar a área precisa criar um clima de confiança que permeie a companhia. Não existe gestão remota de equipes se as relações interpessoais não são baseadas nessa confiança. Além disso, o RH não pode desenvolver apenas projetos e/ou soluções de controle, como políticas e procedimentos. As respostas aos desafios devem ir mais além, acolhendo as necessidades individuais e estando alinhadas aos objetivos estratégicos da empresa.

Para isso é necessário mudarmos a forma como olhamos nossos times. Gosto muito de um acrônimo forjado pela autora Lucy Adams, no excelente livro Disruptive HR, que reflete bem a forma como deve ser a gestão de pessoas no novo RH:

EACH – Employees as Adults, Consumers and Human Beings.

Ou seja, trate seus Empregados como Adultos, Consumidores e Seres Humanos. Autoexplicativo.

E sempre, e acima de tudo, cuidemos da Cultura Organizacional como o elo mais valioso de sua empresa! É através dela que as pessoas estarão conectadas. Estabeleça rituais e ações que reforcem os valores organizacionais. Não precisamos de um ambiente físico para demonstrar o que nos faz únicos como empresa e como grupo.

LídeRHes

Pode parecer clichê, mas é fato: os líderes são os maiores responsáveis pela gestão humana das companhias. Cabe ao RH preparar esses líderes através de planos de desenvolvimento e ferramentas, para que eles estejam preparados para os desafios da gestão. Os líderes, por sua vez, devem ter ciência de seu papel e sua responsabilidade. Entendendo que são protagonistas no desenvolvimento de talentos.

Além disso, líderes estão habituados a falar de negócios em curto prazo. Nossos acionistas querem saber os resultados do último trimestre e a projeção do próximo. Gestão de pessoas não pode ser assim. Líderes precisam ter uma visão de longo prazo e sustentável na gestão de pessoas. É essa visão que garante um time preparado para desafios atuais e futuros.

Uma gestão de pessoas aberta, franca e efetiva tem o protagonismo da liderança “de mãos dadas” com RH. Não há plano de RH que se sustente com uma liderança despreparada. O papel do RH é preparar cada vez mais os líderes para esse desafio.

Recursos Humanos de Negócios

Mudou! Não existe mais o espaço para o RH que cuida das pessoas apenas. Quando tudo muda, o mundo corporativo passará por uma transformação e os principais afetados por essa mudança são nossos times. Entender do negócio tão bem quanto entendemos de pessoas é fundamental.

Cada decisão e cada ação deve ser pesada em todos os aspectos e seus impactos. Trazer esse equilíbrio somente será possível se o RH conhecer profundamente o negócio e que esteja alinhando com os anseios organizacionais. O verdadeiro papel do líder de RH é de servir como um advisor do CEO e dos Comitês Executivos nos temas de pessoas e gestão de negócios.

Além disso o RH deve estar conectado com a linha de frente do negócio e com o mercado onde atua. Não adianta nos relacionarmos apenas com a comunidade de RH. Devemos ampliar nossa perspectiva para que os resultados de nossas decisões sejam completos.

Temos as respostas… o problema é que as perguntas podem estar erradas

Tudo é tão novo, tão imprevisível que talvez estejamos fazendo as perguntas erradas. A forma de saber se estamos no caminho correto é tentando, propondo soluções e avaliando resultados. O momento permite isso.

O mundo está em transformação. O RH pode ser coadjuvante apenas buscando respostas, mas também pode ser protagonista formulando novas perguntas. 

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