Organizações e liderança na retomada – será que vai mudar mesmo?

Nesses tempos de pandemia tenho assistido a inúmeros debates e lives onde tenho tido a oportunidade de ouvir CEO’s falando das mudanças que tem ocorrido em suas organizações. Um dos temas principais tem sido a preocupação com a saúde e bem-estar das pessoas, o que é fundamental em tempos de uma crise sanitária. E através deste cuidado, estão percebendo que suas equipes mais motivadas e engajadas.

Outro tema recorrente tem sido a humildade: ninguém pode saber com certeza o que vai acontecer nos próximos meses (temos apenas projeções e hipóteses), e ao dizer que não tem todas as respostas para seu time os líderes tem percebido que isto não é uma demonstração de fraqueza, ao contrário, isso os faz mais humanos e consequentemente mais próximos das pessoas que trabalham com eles.

O impacto positivo em ouvir os colaboradores e comunicar-se de uma forma transparente e autêntica tem sido outro aprendizado indicado pelos CEO’s. A questão do home-office, antes temida por muitos, teve que ser colocada em prática à força e as organizações estão percebendo que as pessoas são produtivas sim, mesmo sem ter alguém os controlando o tempo todo.

Mais um aspecto que tem sido comentado é entender que as pessoas reagem de maneiras diferentes ao que está acontecendo. Não estamos no mesmo barco e sim na mesma tempestade e é necessário entender que barcos distintos necessitam de tratamento diferentes.

Acho tudo isso muito positivo, mas confesso que me espanta também o fato de ter sido necessária uma pandemia, que já deixou centenas de milhares de vítimas, para as empresas se darem conta de algo que já se tem estudado e falado há muitos anos: colaboradores que se sentem cuidados, prestigiados e que sentem ter a confiança de seus gestores são mais engajados e consequentemente mais produtivos. Trata-los com desconfiança só gera mais desconfiança e falta de comprometimento. Escutar genuinamente o que as pessoas têm a dizer e ser transparente também é parte de um círculo virtuoso que empodera e estimula. Controlar horários (o que é bem mais cômodo do que estabelecer e acordar metas e prazos) só gera frustração e desânimo.

Será que, com a retomada das atividades, as empresas manterão esses novos hábitos saudáveis?

Espero que este momento tão difícil pelos quais estamos passando traga uma verdadeira mudança na maneira como as empresas e seus líderes atuam.

Desejo sinceramente que depois que tudo isso passar, os velhos hábitos arraigados não voltem. Que a desconfiança e o controle excessivo (e inútil) não tenham uma recaída.

Que nossos líderes não voltem a ficar num pedestal e não mostrem suas vulnerabilidades, achando que assim estão cumprindo seu papel.

Que as empresas não se esqueçam que ter um propósito perante a sociedade é uma maneira de reter e atrair talentos.

Espero enfim, que a pandemia traga ao menos um aspecto positivo: organizações e líderes genuinamente preocupados com as pessoas, tratando-as com cuidado, respeito e confiança, com a certeza de que isto resultará também em ganho de produtividade.

Depois de terem passado por um período (e aqui me refiro àquelas que trabalham em empresas que não tinham essas práticas antes) se sentindo valorizados e compreendidos, trocando experiências de uma forma transparente, as pessoas não vão aceitar mais serem tratadas como números, ou como crianças pequenas que devem ser preservadas da  verdade e controladas o tempo todo.

Acredito que aquelas empresas que não transformarem sua cultura de uma forma consistente não conseguirão sobreviver, porque os talentos não vão querer fazer parte delas. E para essa realidade não haverá vacina que resolva.

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