Joao Baptista Leite

Presidente da UNICRE

Um ano após o primeiro Estado de Emergência, ninguém duvida que a pandemia afetou todos os aspetos do nosso contexto socioeconómico, e o setor financeiro foi, e continua a ser, um exemplo claro desse efeito, sobretudo pela crescente necessidade de digitalização que a COVID-19 trouxe à estrutura das empresas – que se viram “obrigadas” a transferir grande parte das suas operações para a casa dos seus colaboradores – mas também à resiliência dos negócios e ao disparar das tendências de pagamentos digitais que já estavam a entrar no mercado nacional a pouco e pouco – como é o caso do contactless ou das compras online.

O tecido empresarial financeiro está hoje, claramente, mais preparado para lidar com um contexto virtual e à distância do que há um ou dois anos atrás – apesar do processo de transformação digital ser já há alguns anos uma imperatividade num mercado cada vez mais competitivo e inovador.

Mas a questão que se coloca agora, passa por perceber qual a lição que as lideranças retiram deste cenário disruptivo em que vivemos, e qual a perspetiva a traçar para um mundo pós-pandemia?

Para as empresas da área financeira, o contexto corrente veio despertar uma urgência em inovar e transformar. E, se no mundo pré-pandemia já se traçavam caminhos que convergiam para uma gradual digitalização quer das soluções financeiras – como resposta ao crescente dinamismo trazido para fintechs – quer do ambiente de trabalho – cada vez mais alinhado com a máxima de work-life balance – os dias de hoje deixam pouca margem para dúvidas de que este será o futuro dos players financeiros em Portugal e no mundo.

No entanto, e mais do que isso, a atualidade tem-nos mostrado que pensar o digital é coisa do passado e já não é suficiente. As lideranças terão agora de agir e adaptar os seus modelos de negócio, de modo a que o digital possa estar ao serviço das pessoas: não só dos clientes e parceiros, mas também, e em primeira instância, dos colaboradores. Facto é que, quando juntamos conceitos, aparentemente distintos, como são o de liderança e a digitalização a um contexto como o que atravessamos hoje, diversos desafios são levantados para o futuro das empresas.

Desde logo, a manutenção da cultura organizacional, que passa a ser uma missão mais complexa, perante a ainda incerteza trazida pela pandemia. Aqui, a liderança terá de assumir um papel de integração do espírito de equipa e da visão do negócio, bem como de motivação e engagement com cada colaborador, uma realidade que até pode parecer contraditória no mundo à distância, mas que a tecnologia já deu provas claras na aproximação dos colaboradores ao top management através das ferramentas de comunicação virtuais.

A par disto, temos também a reflexão sobre os novos modelos de trabalho. Prevê-se voltar ao escritório na totalidade, manter o teletrabalho, ou encontrar um equilíbrio entre ambos? As visões são diversas, mas uma coisa é certa: as mudanças abruptas que o confinamento despoletou no regime de trabalho dos colaboradores e o impacto que estas estão a ter no bem-estar das pessoas, são certamente um tema em cima da mesa para muitas lideranças, que reconhecem cada vez mais a importância de promover um ambiente de trabalho saudável, produtivo e inspirador, quer seja este um espaço físico de trabalho fornecido pela empresa, ou o home office.

Um outro desafio prende-se com a preocupação que deve existir por parte das empresas numa maior aposta na literacia tecnológica dos colaboradores, por forma a capacitá-los à adaptação às novas ferramentas de trabalho, e a consciencializá-los para as boas práticas que devem reter ao nível da segurança cibernética – este tornou-se um aspeto particularmente importante com o aumento do ciberrisco no período de confinamento.

Além destes, muitos outros desafios virão, não vivêssemos nós num mundo em constante evolução. Contudo, a resposta tanto para os atuais desafios, como para aqueles que ainda estão por desvendar, passa por um conceito-chave: inovar. E não refiro inovar no sentido de evolução tecnológica – que só por si já é relevante. Falo de inovação no sentido mais lato da palavra, ou seja, na abertura das lideranças deste setor também importante para o nosso sistema conseguirem refletir e identificar novas e disruptivas formas de alavancar o seu negócio, de promover uma maior proximidade com os seus colaboradores e, em último caso, de encontrar novas soluções que respondam às verdadeiras necessidades da nossa sociedade.

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