Miguel Figueiredo

Coach de Executivos, Mentor de Equipas e Keynote Speaker

Antes de me ter tornado coach de executivos, passei 10 anos a trabalhar em grandes
organizações e outros 10 a trabalhar em empresas que criei. Em qualquer uma delas houve
uma tarefa que foi recorrente, que foi a de entrevistar candidatos a fazerem parte de uma das
minhas equipas. Das centenas de candidatos que entrevistei, quando falámos das
características que mais os definiam, havia uma em particular que surgia com muita frequência:
“Sou perfeccionista”.

A enumeração desta característica era apresentada como algo que não era propriamente
positiva, mas ao mesmo tempo era dito com orgulho e sobretudo, com a convicção de que
seria algo valorizado pela organização. E de facto, as organizações de um modo geral
valorizam muito a procura constante por fazer mais e melhor e nesse sentido, alguém com um
perfil de perfeccionista, pode ser considerado uma mais valia. Por isso, vemos muitas vezes
pessoas com esse perfil em posições de relevância nas organizações.

Acontece que o perfeccionismo vem com um custo adjacente que quase nunca é tido em
consideração.

Ser perfeccionista é altamente desgastante, conduz à infelicidade e pode ser paralisante.

O perfeccionismo enquadra-se naquilo que se chama de Padrão Tóxico de Pensamento.

Um padrão tóxico de pensamento é uma crença profunda que despoleta um comportamento
recorrente que nos trás uma recompensa imediata, mas que no longo prazo, nos faz mais mal
que bem. No caso do perfeccionismo, a recompensa imediata é o resultado das tarefas em que
a pessoa desempenha. Normalmente atinge-se uma performance de excelência. Isso é bom
para a empresa, naturalmente, e para o sentido de realização e auto estima individual. Mas
quais os efeitos de longo prazo? Tipicamente, os resultados obtidos por perfeccionistas
conduzem a crescimento de responsabilidades e consequente crescimento dos desafios. Ou
seja, cresce a complexidade. E é com essa complexidade que começam a surgir os problemas
do perfeccionismo.

Problema 1

A obtenção de resultados excepcionais implica dedicação, ou seja, tempo. Com o
crescimento das responsabilidades, dar cada vez mais tempo para concluir todas as tarefas
com um nível de excepcionalidade máxima, significa roubar tempo a outras componentes da
vida que são naturalmente críticas para uma vida saudável. É muito habitual encontrar um
perfeccionista com grande responsabilidade que dorme pouco, dedica pouco tempo às
relações familiares, faz pouca ou nenhuma atividade física e tem zero tempo alocado
simplesmente a descontrair. Tudo isto resulta numa combinação explosiva que abre caminho
para uma situação de desgaste extremo – o temido Burnout.

Problema 2

Por melhores que sejam os resultados alcançados, estes nunca serão perfeitos.
A perfeição é um conceito abstracto que é impossível de atingir. Ao estar sempre a apontar
para a perfeição, significa que nunca se vai estar 100% satisfeito com o resultado alcançado.
Por isso, é muito frequente ver um perfeccionista que, apesar dos resultados excepcionais que
alcança, expressa sentimentos de frustração, zanga ou ansiedade. E quando se vive dominado
por estes sentimentos negativos, é impossível ser-se feliz.

Problema 3

Ao querer que tudo o que se faça saia perfeito, pode estar a dar-se excessiva importância a todas as tarefas, mesmo àquelas que têm pouco impacto no resultado desejado.
Ao dar-se importância quase igual a todas as tarefas, têm-se grande dificuldade em
estabelecer prioridades, e sem estabelecer prioridades, fica difícil saber para onde avançar
primeiro, por forma a conseguir atingir um determinado objectivo. Ou seja, paralisa-se.

É por estes 3 motivos que é muito importante reconhecer que ser perfeccionista tem
implicações sérias e graves. Uma vez reconhecido isso, há que substituir este padrão tóxico
por um padrão saudável. Qual?

Em vez de apontar para alcançar o impossível, a perfeição, é desejável que se aponte para
alcançar o bom o suficiente (good enough).

(sim, eu sei que se é perfeccionista e acabou de ler esta última frase, nomeadamente as
palavras “bom” e “suficiente”, todo o seu corpo de contorceu e estremeceu em rejeição – mas
leia até ao fim.)

Nós temos uma muito má opinião sobre o que é atingir um nível bom, ou suficiente. Isto tem
que ver com o sistema de avaliação escolar. Durante toda a nossa vida académica, fomos
ensinados que bom e suficiente são dois níveis de resultados intermédios e consequentemente
aquém das expectativas de quem quer ser excecional. Mas se ignorarmos esse contexto e
analisarmos o significado destas duas palavras juntas, vemos que representam algo muito
diferente. “Bom o suficiente” significa primeiro estabelecer para cada tarefa qual o grau de
atingimento que nos permite alcançar o objectivo definido.

Assim, para as tarefas que têm um grande impacto no alcance do objectivo desejado vamos definir um nível de excelência. Mas para outras de menor impacto, podemos definir um nível apenas de cumprimento básico. Por exemplo, se estão a organizar um espetáculo multimedia de 10 minutos, em que o objectivo é fazer com que a audiência fique deslumbrada, naturalmente que para a tarefa de definição dos conteúdos do espetáculo, vou querer atingir um nível de excelência. No entanto, para a tarefa de arranjar cadeiras para as pessoas se sentarem, posso definir que arranjar uns bancos de madeira do IKEA já cumpre o propósito.

Portanto atingir o nível de bom o suficiente, significa precisamente isso: atingir um nível de
performance tal que produz o resultado desejado. Logo, é suficiente. Trata-se de atribuir a
quantidade certa de esforço para a quantidade certa de resultado. É bom o suficiente.
Assim, da próxima vez que definir um objectivo, defina também qual o nível de atingimento que
permitirá satisfazer a necessidade subjacente.

Finalmente, e por forma a garantir que cada vez que implementa esta nova maneira de abordar
os seus desafios, está a contribuir para a substituição do padrão do perfeccionismo pelo padrão
do bom o suficiente, é importante fazer duas coisas adicionais:

1 – Celebrar ruidosamente o facto de ter atingido o seu objectivo – deixe o seu corpo e sua
mente experienciarem o prazer do sucesso!
2 – Reflita sobre o que ganhou com o facto de ter poupado o tempo extra que teria gasto a
perseguir a perfeição. Dormiu mais? Passou a fazer desporto? Ntriu mais as suas relações
familiares? Ou aproveitou para iniciar aquele hobbie que estava na gaveta e que tanto prazer
lhe dá…?


Sobre o autor:

Líder inspirador e de grande sucesso, com 25 anos de experiência em pensamento estratégico,
inovação, comunicação e gestão de equipas, Miguel conduziu com eficácia e eficiência negócios
nacionais e internacionais, através de processos de fusões e aquisições, para depois emergir
como um procurado coach de executivos, mentor e palestrante, com foco em Liderança,
Sucesso com felicidade e Comunicação interpessoal.

Miguel formou-se em Gestão de Empresas na Universidade Católica Portuguesa e tem diversos
pós graduações de universidades como London Business School, IMD Suíça, EPG Porto e
Universidade Nova. É coach PCC pela ICF, com formação adicional em ciência da felicidade, pela
Universidade de Berkeley, gestão da emoções e micro-expressões pelo Instituto Internacional
Paul Ekman e em Programação Neuro Linguística, com o próprio John Grinder.

O Miguel tem uma carreira muito diversificada, que passou por trabalhar em grandes
multinacionais como Unilever e Sonae, mas também por criar a sua própria empresa – a Excentric, uma das mais prestigiadas empresas de marketing digital, que mais tarde se fundiu com a Agência publicitária internacional Young&Rubicam, tornando-se assim uma das mais fortes agências de comunicação em Portugal. Depois de vender a sua posição ao grupo WPP, ele persegue agora o seu sonho de ajudar outros a tornarem-se na melhor versão de si próprios, através das actividades de coaching, mentoring, palestras e formação.

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