Quando a solução está dentro de casa

Cristina Ferreira e Jorge Jesus protagonizaram as grandes surpresas deste verão que ainda vai a meio. Cristina Ferreira, enquanto colaboradora da TVI, tentou por diversas vezes concretizar um projeto para o Day Prime e a sua entidade empregadora, a TVI, alegadamente, nunca terá reconhecido valor no projeto apresentado, não permitindo a Cristina Ferreira a realização do seu sonho. Sem o esperar, a sua entidade empregadora viu sair um dos seus talentos para a concorrência direta, onde conseguiu finalmente implementar o seu projeto. Durante os cerca de 18 meses em que esteve na Sic, o seu programa foi líder incontestado de audiências, exceto em apenas 2 dias desses cerca de 18 meses, nas comemorações do 10 de junho de 2019 e 2020.

Cristina Ferreira mudou de entidade patronal e arrasou completamente, no que a audiências diz respeito, a antiga. Em menos de 2 anos, a TVI percebeu o erro que foi deixar sair um dos seus talentos e decidiu voltar a contratar a sua antiga colaboradora. Para a convencer a regressar, a proposta foi irrecusável, permitiu que a sua antiga colaboradora se pudesse tornar acionista e ainda lhe ofereceu o cargo de Diretora de Programas. A proposta foi de tal forma tentadora que Cristina decidiu aceitá-la, rompendo de imediato o contrato que a ligava à SIC para poder assinar pela TVI. Este é um caso em que um talento perdido foi recuperado. Porém, durante o tempo em que esteve fora, na concorrência, as perdas foram muitas. A TVI perdeu a liderança para a sua maior rival, certamente desperdiçando com isso muito dinheiro em publicidade.

Jorge Jesus é um caso parecido com o de Cristina Ferreira. Esteve 6 anos no Sport Lisboa e Benfica, conquistando 10 títulos (3 campeonatos, 5 taças da liga, 1 supertaça e 1 taça de Portugal), marcando presença, por uma vez, nos quartos finais da liga dos campeões e em 2 finais da liga Europa. No final desses 6 anos, a sua entidade patronal decidiu convidá-lo a sair, tentando forçá-lo a ir para um outro campeonato que não o português. Jorge Jesus não queria sair do seu país e o presidente do Sporting Clube de Portugal decidiu contratá-lo. Nada errado, a sua entidade patronal da altura não quis continuar a contar com o seu contributo e convidou-o a sair, um dos seus concorrentes percebeu que Jorge Jesus iria ficar sem trabalho e decidiu investir tudo na sua contratação.

Considerou que o sucesso no rival se devia ao seu treinador. O Sport Lisboa e Benfica, após a contratação de Jorge Jesus pelo seu rival, decidiu colocar em tribunal o seu antigo colaborador exigindo-lhe uma indemnização de 14 milhões de euros, por deslealdade. Jorge Jesus atacou a sua antiga entidade patronal e vice versa. O clima foi muito tenso durante algum tempo e o presidente da sua antiga entidade patronal chegou a dizer que este seu antigo colaborador nunca voltaria a trabalhar naquela empresa.

Jorge Jesus acabou por não ser feliz na sua nova entidade patronal e saiu ao fim de 3 anos. Passou pela Arábia Saudita e mais recentemente pelo Brasil. Neste seu último desafio, Jorge Jesus foi muito bem sucedido, conquistando 6 títulos em apenas cerca de ano e meio. Jesus era visto como um Deus na sua nova entidade patronal.

Passados 5 anos após a sua saída, o Sport Lisboa e Benfica, sua antiga entidade patronal, decidiu investir tudo no regresso daquele que passou a considerar como o único capaz de dar a volta à situação do clube. O único capaz de voltar a ganhar. Jorge Jesus voltou, mas exigindo muito mais que na sua primeira passagem pelo Benfica. Estes 5 anos sem Jorge Jesus, o Benfica venceu 3 campeonatos em 5 possíveis. Porém não foi suficiente nem para a direção nem para os adeptos, vendo em Jorge Jesus o único capaz de voltar colocar o Benfica a jogar bem.

Pode parecer que é mais um artigo sobre futebol ou televisão. Não, de todo. Este artigo fala simplesmente em talento e na sua retenção. Os exemplos foram mediáticos para mais facilmente percebermos o talento que todos os dias se perde nas empresas porque nem sempre conseguimos valorizar as pessoas que já estão dentro da organização. Olhamos muitas vezes para fora, desejando contratar alguém que sobressai na concorrência e não somos capazes de primeiro perceber que o talento já está dentro da organização. É tão importante reter talento como atrair novo talento.

Vivemos uma situação de exceção, uma pandemia que nos trocou as voltas, que nos fez perceber que nada na vida é garantido, que nos fez capacitar que nada na vida é um dado adquirido. Se é verdade que muitas vezes são os colaboradores que dão como garantidos todos os direitos numa empresa e se acomodam, não é menos que verdade que as entidades patronais também dão como garantida a permanência do seu talento e se esquecem de o reconhecer e aplicar políticas de retenção de talento para que os colaboradores se sintam bem na sua entidade patronal e não pensem em sair. Esta é uma tarefa que não pertence apenas aos Diretores de Recursos Humanos, mas sim a todos aqueles que gerem pessoas, como um administrador, CEO, Diretor, Chefe de Departamento, resumidamente, qualquer pessoa ou função que tenha de gerir uma equipa.

Assim, é necessário conhecer bem a equipa que temos e implementar ferramentas de retenção de talento permitindo que todos os colaboradores possam desenvolver todo o seu potencial na organização. É preciso saber acompanhar a evolução do mercado de trabalho, perceber a evolução global da sociedade e ajustar sempre as políticas de recursos humanos. Vivemos uma época de exceção e temos de saber ajustar as políticas de recursos humanos à época em que vivemos.

Este é o momento em que uma grande parte dos trabalhadores se encontra em teletrabalho, algo que traz benefícios para todos, colaboradores e empresas e é necessário respeitar esta necessidade. Novas gerações estão a entrar no mercado de trabalho e as necessidades são diferentes. A Geração Z e os Millennials valorizam mais o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal que as gerações anteriores. Entre muitas outras diferenças. É preciso perceber estas diferenças para que as políticas de recursos humanos sejam ajustadas. É preciso ainda perceber a importância de reconhecermos a diferença entre equidade e igualdade. Se tratarmos todos de forma igual, estamos a cometer um erro enorme e a criar conflitos nas organizações. Temos de tratar igual situações iguais e de forma diferente situações diferentes.

Atrair os melhores talentos é uma grande virtude, os grandes talentos são sempre bem vindos às organizações, e não é por um grande talento entrar numa organização, que aqueles que já lá estavam deixam de o ser, pois os grandes talentos são sempre compatíveis. Porém, reter os talentos que já estão dentro da organização, é ainda uma virtude maior, evita gastos desnecessários. Os atuais empregadores de Cristina Ferreira e Jorge Jesus, perceberam mais tarde o erro cometido ao não reter estes talentos e a prova disso é que pouco tempo depois foram buscá-los novamente e estes voltaram com poderes reforçados.

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