RH como escuta estratégica

Ana Eliza Figueiredo Pinto na comunica RH

Nas últimas décadas o RH vem passando por profundas e importantes transformações.

De área pouco reconhecida até se tornar braço direito de CEOs, foram anos adaptando e desenvolvendo processos que conseguissem demonstrar a importância e influência do RH nas tomadas de decisões estratégicas.

Diferente de áreas que surgiram depois e hoje já ocupam posições estratégicas e fundamentais no negócio, o RH continua lutando por espaço em empresas onde ainda se permanece no operacional, limitada ao fazer rodar o dia a dia, em aplicar processos por vezes obrigatórios e competitivos de mercado, mas sem o devido alinhamento com o estratégico do negócio.

Apesar disso, evoluímos muito, a adoção da análise de dados com forma de demonstrar a riqueza de informação com que o RH pode e deve trabalhar abriu e ainda nos abre espaços fundamentais na implantação e nas melhorias de processos internos.

Mas seriam os dados suficientes para “escutar” o colaborador e suas necessidades?

O cenário atual nos mostra que podemos e devemos ir além, nas possibilidades de escutar os colaboradores.

Aqui faz-se necessário diferenciar as palavras ouvir e escutar, enquanto no primeiro temos que se tratar dos 5 sentidos básicos para perceber o mundo e o que nos rodeia, já o segundo seria o ouvir com atenção, dedicado a compreender o que outro diz.

Dizer esse que demanda uma escuta ativa, cuidadosa para como outro, que não se irá se revelar num todo em dados e pesquisas padronizados.

Não quero aqui desqualificar os dados, pelo contrário as pesquisas têm poder e capacidade de mapear cenários e embasar estudos fundamentais, mas não podemos esquecer neste momento da complexidade e individualidade do ser humano.

Diante desta certeza e de um cenário de incertezas como o atual que vivemos, o RH teve que se adaptar muitas vezes e uma destas ações tem sido a adoção de suporte psicológico para enfrentamento da angústia e ansiedade gerada pela pandemia.

Profissionais de RH com formação em psicologia, podem dar um suporte neste processo em um primeiro momento, escutando no grupo e/ou individualmente os profissionais, permitindo expressarem suas preocupações, medos e angústias, mas muitas vezes a demanda precisa ser trabalhada em um ambiente seguro e neutro como um consultório.

Por este motivo e notando que apenas as aulas de yoga online e o envio de materiais a casa dos colaboradores não tem sido suficiente, algumas empresas incluíram também no pacote de benefícios o atendimento psicológico online, aquelas que já tinham estes benefícios, ampliaram a possibilidade de acesso à rede.

O suporte psicológico auxilia na redução da ansiedade,

aumento da empatia, redução das distrações e permite o desenvolvimento de um controle maior das emoções, isso se traduz em um time mais produtivo e em um melhor ambiente de trabalho, mesmo que seja ele online.

Empresas como Vittude, startup fundada em 2016 e que recebeu o aporte de 4,5 milhões no ano passado, tem mais de 3.500 psicólogos disponíveis em 50 países para atendimento online
por meio de aplicativo para facilitar o agendamento, além disso por ser uma plataforma que
trabalha em parceria com RH, oferecendo relatórios gerais de uso do benefício.

Outra startup que viu sua demanda crescer muito nos últimos meses foi a Zenklub, com
propostas de serviços para empresas e também pessoas físicas, a plataforma oferece desde
serviços de atendimento psicológicos, de coaching a psicanálise até uma biblioteca com material
para desenvolvimento de habilidades comportamentais e carreiras.

Oferecer uma escuta ativa, senão for possível por meio de uma parceria ou benefício, que pelo menos sejamos líderes e RH que escutam, que silenciam seus pensamentos para acolher o outro, para isso devemos seguir alguns caminhos:

• Demonstre sua preocupação e cuidado com o outro, reúna-se com o profissional em
local fechado, onde tudo que for falado e discutido seja um ambiente seguro e
acolhedor;
• Ouça primeiro, evite os julgamentos, interrupções e excesso de questionamentos, deixe
com que o outro sinta-se à vontade para expor o que pensa e sente sem que se sinta
pressionado ou julgado;
• Observe sua postura, deixe que fique à vontade, o mais confortável para que possa
demonstrar naquele momento suas preocupações e angústias de modo mais
verdadeiro;
• Acolha, seja sincero caso não sabia o que dizer naquele momento, a simples presença e
cuidado já traz conforto com o outro, nem sempre é necessário que se diga algo
conclusivo ou tenha uma resposta pronta;
• Disponha-se a buscar ajuda para o problema do profissional, sugira caminhos, parcerias
e acompanhe seu processo, verificando de tempos em tempos como ele está se
sentindo.

Mesmo que nada disso seja como um processo terapêutico conduzido por profissional especializado, pode trazer conforto e reduzir a angústia e preocupação inicial.

Outra forma que os RHs e as lideranças podem trabalhar as angústias, são trabalhos em grupos
(hoje reduzidos se forem presenciais) como formato de grupos de apoio, no qual o objetivo será
a expressão de cada um e a troca de sentimentos e comportamentos que tragam algum conforto
e auxiliem a encontrarem caminhos para suportar as angústias do momento.

Acredito que como RH somos fundamentais em mantermos os profissionais motivados e
engajados, mas não devemos esquecer que este momento exige adotarmos uma postura
voltada ao ser humano com maiores cuidados a sua saúde mental, neste momento os times
precisam mais que tenhamos escutas acolhedoras, mas do que entregas estratégicas.

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1 Response

  1. Outubro 9, 2020

    […] ressaltar também o papel da liderança e do RH, na criação dessas experiências. Líderes que sejam capazes de cultivar senso de propósito; que […]

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