Vieira Junior

Gerente de Comunicação, Marketing e Sustentabilidade Sicoob Cocre

No começo da minha carreira trabalhei por cerca de três anos como pintor. Na verdade, como um ajudante, passando a maior parte do meu tempo fazendo o que chamávamos de “recorte”, que era a pintura dos cantos das paredes, feita com pincel.

A ansiedade por pegar a ferramenta principal, o chamado rolo de pintar, e sair fazendo o trabalho de maior destaque era grande, mas meu chefe nunca permitia, dizia que, antes, eu precisava aprender a fazer bem os recortes para poder, então, pintar uma parede inteira. E assim foi.

De recorte em recorte, eu fiquei por quase dois anos com o pincel na mão, observando tudo que podia e, claro, controlando a ansiedade. Um belo dia, meu chefe recebeu uma ligação, atendeu ao celular, falou por alguns minutos, desligou e me disse:

— Pegue o rolo, termine essa parede pra mim enquanto eu resolvo um problema externo, por favor.

Eu quase parei de respirar. Era a minha chance de ser, de fato, um pintor! Mais que depressa, disse a ele que poderia ficar tranquilo, pois me sentia preparado para cumprir aquela tarefa. Ele, então, se foi e eu fiquei, todo animado para pintar.

Eu já sabia o que fazer, afinal fazia muito tempo que o observava. Estava confiante demais e, assim, comecei bem. Durante o trabalho, senti uma dificuldade: notei que o rolo não podia chegar muito perto nem do teto nem do chão, senão mancharia ambos. E do que eu precisava? De alguém para fazer os recortes.

Jamais vou me esquecer do impacto que aquela situação me trouxe. Naquele momento, sozinho, eu parei, deixei o rolo de lado, peguei o pincel com orgulho e fiz os recortes para que, depois, eu pintasse a parede com o rolo. Foi o melhor recorte que já fiz, cheio de importâncias, significados e ensinamentos.

Percebi o quanto o meu trabalho era importante e impactava no trabalho de outra pessoa, na verdade, até impedia o rendimento do outro caso não fosse bem feito. Além disso, percebi que não existia “melhor” ou “pior”, tudo era importante. Sem os recortes, a parede não seria finalizada e o trabalho não seria reconhecido, ou nem pagos seríamos…

Terminei os recortes, peguei o rolo e pintei a parede por completo. Meu chefe chegou, elogiou o trabalho e me perguntou como tinha sido. Minha resposta foi:

— Senti a sua falta. Sozinho, tive que fazer recortes e ainda pintar. Juntos, esse trabalho fica muito mais fácil.

E então ele pegou o pincel, foi fazer recortes e eu segui com o rolo de pintar nas mãos, sem empáfia, soberba ou achando que estava por cima. Apenas fazia parte de uma equipe.

Quantos ensinamentos eu tive naquele dia…

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