João Miguel Rodrigues

People & Culture Director Aubay Portugal

Há vários anos atrás, fui contactado por uma Headhunter, que me perguntou se eu estaria interessado em novos desafios. Apesar de sentir que, naquele momento, estava muito feliz e realizado profissionalmente, num projeto incrível e desafiante, com uma Líder que sempre admirei e que acreditava muito em mim, entendi que, com cerca de 25 anos, nunca deveria deixar de ouvir o que os outros tinham para me apresentar e conhecer outras realidades.

Posto isto, a amável Headhunter, de quem me lembro de ter ficado com uma ótima impressão, disse-me que tinha excelentes referências sobre mim e que tinha um projeto ótimo para me apresentar. Tratava-se de uma empresa tecnológica em grande expansão, e a oportunidade era para assumir o cargo de HR Business Partner.

Depois de ouvir alguns pormenores, aceitei enviar o meu CV e mais algumas informações a meu respeito para que pudesse apresentar ao seu cliente, contudo, sempre com a ressalva e total transparência:

“Eu estou muito bem atualmente e só algo fantástico me fará mudar, mas, se está confortável com esse facto, tenho todo o gosto em saber mais sobre o projeto”.

A Headhunter agradeceu a transparência e após 1 ou 2 dias recebi um novo telefonema a dizer: “João, a minha cliente gostaria muito de o conhecer!”. E assim foi.

Chegado à entrevista, tive o cuidado de começar por voltar a ser transparente e deixando clara a minha situação. Expliquei também que o que me tinha feito ir até ali, naquele dia, tinha sido o excelente trabalho da Headhunter e a imagem que me passou do projeto em questão.

A entrevistadora era a Diretora da área de Gestão de Pessoas, uma profissional ainda jovem, mas experiente e extremamente simpática e acessível. Começou por agradecer muito a minha frontalidade e dizer que compreendia a minha perspetiva e que não perdíamos nada em
conhecermo-nos mutuamente, algo que desde logo me agradou.

A importância de conhecer a função

Toda esta transparência foi o mote para tudo aquilo que foi acontecendo ao longo da entrevista. A minha necessidade de entender todos os pormenores da oportunidade e estar tão preocupado em dar-me a conhecer como em conhecer o outro lado, tornou aquelas 2 horas
numa verdadeira conversa, descomplexada, com troca de ideias, de opiniões, com perguntas de parte a parte e muito boa disposição.

De forma resumida, entendi que o projeto consistia em, assumindo o papel de HR Business Partner, eu iria fazer exatamente o mesmo que uma outra pessoa que já estava na equipa há uns anos, dividindo os mercados, onde a empresa tinha equipas, em duas partes iguais. Iria
então ficar responsável por dar apoio a mercados nacionais e internacionais, e as tarefas eram ligadas às principais matérias de desenvolvimento de RH (formação; recrutamento; entre outros). A minha colega, faria exatamente o mesmo que eu.

Parecia algo muito desafiante, aliando estratégia a operação, numa empresa em grande crescimento e que fazia parte de um grupo empresarial de grande dimensão, o que dava credibilidade a tudo o que ia ouvindo. Para além disso, eu já tinha conhecimento que o pacote salarial era muito atrativo (superior ao que eu auferia), mas ainda assim, eu continuava com muitas questões e até dúvidas.

Quanto mais questões fazia mais iludido ficava com a dimensão da função e da responsabilidade, bem como com a margem de progressão que se adivinhava, mas ao mesmo tempo algo me dizia que o que me pediam não seria possível/exequível uma só pessoa executar em 8, nem tampouco 10 horas diárias de trabalho, o que me preocupava, tendo em conta que a qualidade de vida e o work life balance eram e são questões fundamentais no pacote de remunerações, pelo menos para mim.

Uma decisão inesperada e diferente

Até que, de forma surpreendente, no fim da entrevista, a entrevistadora diz: “João, gostei imenso da nossa conversa, acho que estamos muito alinhados e é a pessoa certa, tenho ótimas referências suas e gostava que se juntasse à minha equipa!”, confesso que não tinha expectativas formadas sobre como seria o resultado daquela conversa, mas de todo julguei que fosse terminar esta conversa com uma intenção declarada de contratação da outra parte.

Após agradecer e demonstrar a minha gratidão pelo reconhecimento demonstrado e pela agradável conversa proporcionada, tomei uma atitude que julgo ter tanto de inesperada e pouco convencional, como de corajosa, arrojada e inovadora. A minha resposta foi: “Muito obrigado pelo interesse, mas confesso que para dar continuidade ao processo e poder vir a aceitar a oportunidade, preciso de conversar com a colega que atualmente assume estas funções, para entender de forma perentória todos os prós e contras desta oportunidade! Como lhe disse, se vos disser sim, será um sim comprometido e para tal tenho de ter a total certeza do passo que estou a dar!”. Continuei demonstrando que o que me foi passado foi muito útil, mas precisava de mais detalhes!

A conversa decisiva

Apesar de se mostrar algo surpreendida, percebi que ficou agradada com a minha audácia e disse: “João, confesso que nunca me pediram nada do género, mas de facto faz todo o sentido. Vou tratar de agendar essa conversa!”. E, nesta toada, terminamos a nossa conversa daquele dia, ambos com um sentimento de dever cumprido, ambos nos esforçamos por conhecer o outro lado.

E assim foi, dois dias depois fui conversar com a “colega” e percebi exatamente o dia a dia dela, mostrando-me que estava coberto de razão no pedido que fiz e que fez toda a diferença. Como resultado, ficou claro para mim que não era o tipo de oportunidade que me faria deixar o meu
projeto, a minha líder e a minha carreira na empresa onde estava.

Um dia após a entrevista, dei a minha resposta final e agradeci toda a abertura demonstrada. Fiquei com uma imagem incrível das pessoas com que falei que me proporcionaram uma ótima experiência de candidato. Como resultado, acabei por recomendar pessoas para a posição e sai
deste processo de consciência totalmente tranquila que fiz tudo para ter todos os dados necessários para uma correta tomada de decisão sobre a minha vida e a minha carreira. Para além disso, permitiu-me ser 100% honesto também com o outro lado, algo que é crucial em qualquer relação.

A importância duma decisão ponderada

Deste episódio, retirei para o resto da minha vida a importância de, mesmo estando no papel de entrevistado, nunca me esquecer que é a minha vida que está em causa, a minha carreira, e que é da minha total responsabilidade garantir que tenho toda a informação necessária para
tomar uma decisão ponderada e consciente, pois no final do dia, serei, principalmente, eu que irei viver com as consequências de qualquer decisão tomada.

O conselho que sempre deixei aos meus candidatos, amigos, conhecidos, foi aplicado por mim e considero que com sucesso, pelo que hoje reitero esse mesmo conselho a todos os que dedicaram tempo a ler este artigo. Nunca se esqueçam que o papel de entrevistado é também de entrevistador e que o querer saber é crucial para não haver um defraudar de expectativas. É normal num pitch, ser dito apenas o que interessa a uma das partes, mas quando há um diálogo aberto, com questões pertinentes passa a haver verdades e mentiras, coisas boas e coisas más,
e é isso que deve levar a uma tomada de decisão bilateral.

As empresas têm o poder de escolher a pessoa a quem apresentam uma proposta, mas o candidato tem o poder de escolher aceitar ou não essa proposta, havendo uma interdependência e um poder repartido num processo seletivo. Quando não há honestidade ou frontalidade de uma das partes, normalmente todas perdem.

Quando vos disserem que candidatos há muitos, percebam que é verdade, mas a vossa vida é só uma e são vocês que decidem o vosso futuro!

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