Juliana Torres

Consultora de Desenvolvimento e Carreira

BANI: novo acrônimo hype ou novo conceito que descreve o cenário atual?

O conceito de Mundo VUCA (volatility (volátil), uncertainty (incerto), complexity (complexo) e ambiguity (ambíguo)) era frequentemente usado pelos executivos e escolas de negócio para ilustrar como navegar e definir estratégias num ambiente disruptivo. O acrônimo VUCA foi criado no final da década de 1980, pelos militares americanos. Desde esta época até à era COVID em que vivemos, tantas mudanças aconteceram que já podemos ouvir um novo conceito: mundo BANI.

Depois de ler artigos interessantes de Alberto Roitman ([1]) e Stephan Grabmeier ([2]), decidi eu mesma pesquisar mais a respeito e compartilho aqui meu ponto de vista e contribuições sobre o conceito BANI.

Primeiramente, esta não é uma terminologia criada no contexto da era COVID em que vivemos, mas sim criado em 2018 pelo pensador futurista Jamais Cascio, do Institute for the future. No entanto, não podemos negar que este acrônimo cabe muito bem no momento pandemia … Um pouco assustador, nos convida a ter um senso de urgência e de ação.

BANI significa Brittle (frágil), Anxious (ansioso), Nonlinear (não-linear) e Incomprehensible (incompreensível).

Bem-vindos a um mundo caótico, onde não temos referências e benchmarkings a seguir. Temos que criar nossos próprios caminhos, modelos e rapidamente reagir às constantes mudanças no ambiente.

Precisamos fazer um reset, ou, como num aplicativo, precisamos fazer o download ou upgrade de uma nova versão que dê conta de navegar neste contexto.

Grabmeier cita em seu artigo que “precisamos de novas palavras para descrever este novo cenário”, se comparado ao que usávamos com o modelo VUCA “Agora benchmarks não são mais confiáveis”. Causa e efeito foram distorcidos. A incerteza se transforma em ansiedade, em parte até em medo. Mais e mais dados tornam qualquer problema cada vez mais incompreensível. Bem-vindo ao mundo BANI!

Brittle (Frágil)

O mundo é frágil, nós somos frágeis, assim como todas as empresas também são. Um novo vírus aparece de forma inesperada, um hacker ataca os sistemas e rouba dados dos clientes de uma empresa, um avião colapsa em torres empresariais de um grande centro financeiro … não estamos completamente seguros ou podemos planejar a longo prazo.

Talvez por isso uma nova competência esteja sendo tão falada atualmente: mais do que resilientes, precisamos ser anti frágeis. O conceito de anti-frágil foi criado por Nassim Taleb (3), filósofo e economista em 2012. Taleb cita que “ser anti frágil é crescer e desenvolver-se mesmo em situações improváveis e inesperadas, é ser mais do que resiliente”.

Com isso, a ideia de sermos resilientes e retornar à situação anterior ou “normal” depois de um momento de crise já não é mais suficiente. Durante os momentos de pressão, é necessário absorver e assimilar os aprendizados que afloram deste contexto. No conceito de anti frágil passamos pelos momentos de intensa pressão e saímos deles com aprendizados e ainda mais fortalecidos.

Já Roitman, o outro autor que pesquisei, cita: “Não há garantias, não há promessas, tudo muda em fração de segundos. O contrário de frágil é anti frágil. Se prepare para aguentar as porradas pois elas serão cada vez mais constantes. Se mudar a música (e ela vai mudar), saiba dançar outro ritmo claramente.”.

Anxious (Ansioso)

As pessoas não sentem apenas a incerteza, elas estão ansiosas. São tantos dados e informações que recebemos, que atualmente sofremos de “FOMO” (fear of missing out). Além disso, parece que ficamos ansiosos ao perder oportunidades e informações, por estar de fora de alguma discussão, ao mesmo tempo em que muitas vezes não nos sentimos em prontidão para tomar decisões por parecer que faltam informações cruciais para esta escolha.

Em um ambiente moldado pela ansiedade, o grande desafio é aprender a como lidar com essas circunstâncias de maneira produtiva. Olhando de uma perspetiva do indivíduo, estamos vivendo uma era onde um importante skill deve ser convidado à nossa rotina: empatia.

Entender o ponto de vista e demanda do outro, ter uma escuta ativa nunca é demais. Um pouco de mindfulness também pode nos ajudar a lidar com o caos (será que por isso tantas empresas e pessoas começam a falar deste tema?).

Sentimos como se não houvesse tempo suficiente para analisar de forma aprofundada os acontecimentos e fatos, bem como ter cem por cento de confiança em um processo de decisão. Vivemos num mundo instantâneo e em constante mudança. Parece um pouco arriscado ou perigoso, mas precisamos tomar decisões, mapeando os riscos e tentando mitigá-los.

Do ponto de vista dos negócios, talvez este contexto explique por que os métodos ágeis vêm sendo tão utilizados … o ritmo de hoje é diferente do que tínhamos há décadas. Ser ágil, prototipar, testar, errar rápido, aprender e corrigir rapidamente torna-se um diferencial de muitas organizações que conseguem atender às demandas de seus consumidores.

Nonlinear (Não-linear)

Causa e efeito já não são tão óbvios. Fomos educados para um mundo linear (nasce, cresce, estuda, trabalha, se aposenta e morre), cheios de checklists e procedimentos. Mas isso já não assegura e garante mais nada. As coisas agora não só são complexas, mas vivemos em um modelo de vida não linear.

“Não é possível atuar de maneira estruturada em um mundo desestruturado”, diz Roitman.

“Uma empresa do mundo VUCA vai seguir um planejamento estratégico achando que nada vai mudar ao longo do tempo. Uma empresa no mundo BANI vai se planejar para executar fielmente um planejamento estratégico para os próximos 3 meses, máximo. Esqueça fazer um forecast para 12 meses. Temos que começar mil coisas ao mesmo tempo, desistir de algumas, parar outras, incluir outras (…) O melhor exemplo disso era o processo de liberação de uma vacina. No mínimo 5 anos. O cinto apertou e tivemos que fazer em 2 anos”.

Talvez, como profissionais, tenhamos que nos desafiar também quanto aos modelos de trabalho e emprego. Talvez já não possamos contar apenas comum único emprego e fonte de renda. As pessoas da Gig-Economy são atraídas pela flexibilidade, por testar novos modelos, desenvolver novas competências e experiências.

Não teremos um único emprego, mas trabalhos, projetos e atividades profissionais. Elas desenvolverão diferentes skills e preencherão nossa satisfação e nosso bolso de múltiplas formas. Já percebemos muitos profissionais tocando suas carreiras múltiplas, basta procurar por alguns deles no LinkedIn: “Professor e Executivo”, “Empreendedor e Investidor Anjo”, “Consultor, Conselheiro e Mentor de Negócios”.

Incomprehensible (Incompreensível)

O que parecia ser ambíguo, hoje se apresenta como incompreensível. Como Grabmeier cita “resultados não lineares de qualquer causa, eventos e decisões muitas vezes parecem não ter qualquer tipo de lógica ou propósito – eles são incompreensíveis”.

Humanos são animais racionais, buscamos o lado lógico das coisas, mas algumas vezes as situações parecem não fazer sentido (mesmo em um cenário onde temos tanta informação e dados para nos suportar).

No entanto, diz Grabmeier “é importante notar que podemos não compreender vários aspetos agora. Tecnologias futuras e efeitos de sinergia (cérebro humano + tecnologia) muito provavelmente tornarão muitas coisas compreensíveis”.

Alguns de nós esperarão novos modelos emergirem, bem como buscarão respostas e explicações para os acontecimentos. Outros serão o benchmark, eles próprios (num mundo onde estamos sem referências, envoltos em tanta mudança e transformações, nós mesmos temos que construir novos modelos).

Empatia, criatividade, resiliência, flexibilidade, inteligência emocional, anti-fragilidade, adaptabilidade, capacidade para lidar com problemas complexos, aprender a aprender e reaprender (learning agility) são alguns skills muito requisitados hoje em dia e que a meu ver serão ainda mais valorizados daqui pra frente.

Independentemente do acrônimo que usarmos para nomear nosso momento atual, P.A.R.E. e reflita o quanto você e a organização da qual faz parte estão navegando neste contexto.


Fontes sobre o Mundo BANI:

1. Alberto Roitman -Mundo BANI – https://tinyurl.com/yg3gyvc5

2. Stephan Grabmeier – https://stephangrabmeier.de/bani-versus-vuca/

3. Nassim Taleb – “Antifragile” (2012)

4. World Economic Forum – “These are the top 10 job skills of tomorrow – and how long it takes to learn them” –
https://tinyurl.com/y4822dta

This Post Has One Comment

Deixe uma resposta