CONTRATAR FAMILIARES NÃO É ÉTICO!

Ética e Assedio - comunicaRH

Contratar familiares não é ético. Ou, será que isto é ético?

A Amélia era a responsável da área de Recrutamento e Seleção de um dos maiores bancos nacionais, com expressão multinacional em vários países da Europa, da América Latina e da comunidade CPLP. Já desempenhava este cargo há alguns anos e granjeava de uma experiência sólida e consolidada, sendo apreciada por todos, principalmente, pela sua chefia e Diretor de RH, Jorge.

O seu único filho era finalista de Economia na mesma turma onde se encontravam, também, um sobrinho e um primo. Eram alunos de topo da instituição de ensino e figuravam, normalmente, no quadro de honra. Quando se aproximava o fim do ano letivo, o banco lançou uma campanha de recrutamento para recém-licenciados com vista à colocação em vários locais, nacionais e internacionais, que incluía a possibilidade de fazerem um estágio profissional remunerado de 6 meses, após o que, e face aos resultados obtidos no relatório do estágio e à manutenção do interesse por parte dos estagiários, poderiam passar aos quadros do banco e consequente colocação num dos diversos mercados e segmentos com que o banco trabalhava.

Pareceu desde logo à Amélia que seria uma oportunidade excelente para que o filho, sobrinho e primo, pudessem participar e iniciar a sua vida ativa numa instituição bancária que tinha sido o berço da sua atividade e onde tinha tão boas recordações e sentimentos. Assim, sugeriu desde logo que filho, sobrinho e primo se candidatassem às posições em aberto.

Por outro lado, pediu uma reunião ao Jorge e colocou-o ao corrente do que tinha feito, sugerindo que a apreciação das várias candidaturas fosse feita por outra pessoa. O Jorge respondeu-lhe de forma segura e confiante: “Não Amélia, isso não faz sentido. O processo de recrutamento tem a envolvência de entidades externas para fazer as avaliações técnicas e uma outra para proceder às avaliações comportamentais, sendo que só no final de todo este processo chegaremos a uma lista com os candidatos que, na opinião das consultoras, serão os candidatos a admitir. Por isso, continuas a tratar de todo o processo até à fase final do trabalho das consultoras e, depois disso, veremos o que fazer”.

O processo de recrutamento começou com testes de aptidão, testes em ambiente de trabalho, para verificação de competências diversas, desde as técnicas propriamente ditas, às competências pessoais, de relacionamento e de atitude, de avaliação das competências de trabalho em equipa e entrevistas, todos estes testes e dinâmicas de grupo desenvolvidos por consultores externos, que faziam uma leitura transversal a todos os candidatos e estabeleciam a sua opinião com base em relatórios das competências que tinham para avaliação.

No final deste processo de avaliação, a Amélia deparou-se com uma lista de vários candidatos onde constavam os seus familiares, embora separados por segmentos e locais onde seriam mais adequados, na opinião dos consultores, para desempenharem as funções que o banco tinha enunciado como necessidades.

Foi falar com o Jorge sobre os resultados e o que deveria fazer a seguir porque como se encontravam nessa lista os seus familiares, não lhe pareceu bem que fosse ela a submeter a lista para os vários sectores para procederem às entrevistas finais.

O Jorge, conhecendo bem a cultura do banco e dos seus gestores, disse-lhe que deveria enviar a lista sugerida pelos consultores para as diversas áreas, em que cada área escolheria os candidatos a eleger para a entrevista final (de admissão para o estágio). A Amélia sublinhou que não se sentia confortável em enviar essas listas sem comentar a esses gestores locais que a lista continha nomes de familiares seus … Jorge retorquiu que até aqui, a lista foi construída por consultores externos que não têm noção dos laços familiares entre os candidatos às posições e os colaboradores do banco e, como tal, até aqui não haveria nada de errado ou sequer alguma falha do ponto de vista ético.

A Amélia, embora relutante, acabou por enviar as listas a cada uma das áreas sem comentar algo que fosse. As entrevistas tiveram início e, quando foram realizadas as entrevistas dos seus familiares, pediu ao Jorge que representasse a área de recrutamento na entrevista e na elaboração da Ata final dos resultados.

No final deste processo, os familiares da Amélia acabaram por ser integrados em diversas áreas do banco, com base nos respetivos perfis, relatórios das consultoras e resultados das entrevistas finais, deixando a Amélia feliz e satisfeita por ter ajudado os seus familiares a entrar na vida profissional num banco que tinha tantas memórias para ela.

Mas … será que ela agiu corretamente? Será que foi feita uma análise correta dos respetivos perfis? Será que deveria ter conduzido o seu trabalho de forma diferente para não poder ser acusada de parcialidade neste processo? Terá feito as melhores escolhas? Poderá ter influenciado as escolhas nas várias áreas?

Teoricamente, ela terá realizado todas as suas tarefas da forma mais correta e ética possível. Que poderia ter saído do processo sem ter parte ativa na seleção dos candidatos? Sim, poderia, mas será que quando temos de preencher uma posição e no lote de candidatos aparece alguém com uma relação familiar, temos de declinar toda a responsabilidade nesse processo?

Creio que não, neste caso e em outros que surgem no mercado de trabalho, ser ético não corresponde a nos inibirmos de tomar decisões. Corresponde a termos o bom senso necessário para decidir com base em critérios objetivos e claros, Pode-se começar por responder à pergunta: se este candidato fosse familiar de outro colega, que, por acaso, até nem gosto dele, eu escolhia-o na mesma? Talvez, a partir da resposta, tenhamos de optar por um outro caminho. Talvez corresponda a traçar o caminho da forma mais imparcial e objetiva possível, deixando que a decisão seja tomada, suportada e fortemente consolidada, através de critérios que não sejam discutíveis ou facilmente colocados em causa.

Esta é a história de uma grande empresa, com expansão internacional, mas, muitas vezes, quando se trata de empresas com dimensão mais reduzida, o “chefe/patrão” entende que se deverá contratar a pessoa A ou B porque são da sua inteira confiança. E, será que isto é ético? Pode ser, desde que o lote de candidatos seja analisado de uma perspetiva imparcial, objetiva, completamente livre de preconceitos e de ideias feitas. E, no final, podemos apreciar sempre a familiaridade ou o grau de parentesco ou a confiança, como um dos indicadores que está na grelha de avaliação para a admissão, valorizando e ponderando a sua expressão de forma adequada.

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