Era uma vez um chefe mau, disfarçado de cordeiro

Patrícia Fatela - comunicaRH

Todos nós sabemos que existem bons e maus chefes.

Claro que se pedirmos a um grupo para definir o conceito de bom e mau chefe, a descrição varia de pessoa para pessoa, sendo que cada um de nós valoriza mais determinadas características e circunstâncias do que outras, contudo existem alguns aspetos que podemos considerar transversais e que levam a resultados previsíveis.

Dizem as estórias de corredor, que os bons chefes são aqueles sempre muito simpáticos, que dão pouco trabalho, nada exigentes, que vivem a vida deles sem chatear os trabalhadores, que pouco aparecem e que raramente tomam grandes ou impactantes decisões mas, como acontece com todas as fábulas, é preciso ouvir até ao fim, para de facto percecionarmos a moral da estória.

Na verdade este tipo de alegado bom chefe, tende a vender a imagem de querer o bem e um bom ambiente para os outros, usando de simpatia para conquistar as pessoas ao seu redor, mas a grande questão é se levam em consideração as necessidades de desenvolvimento, os sentimentos, a estabilidade física e mental dos colaboradores.

O ponto fulcral neste contexto é que as pessoas não devem ser julgadas apenas pelos seus comportamentos exteriores, mas sim dar especial relevo às suas obras e legado deixado, principalmente na vida dos outros.

Para vivermos o “felizes para sempre”, como protagonistas, é preciso todo um enredo, temos que interagir com as outras personagens, ser desafiados, expostos, com um grau de exigência cada vez maior, até atingirmos o topo.

Utilizando a metáfora para o contexto laboral, a mais importante destas personagens é a de um chefe rigoroso, compreensivo mas que nos fale mais firme quando necessário, nem sempre dizendo o que queremos ouvir e que nos empurre até ao nosso limite, por vezes com intransigência.

Crescer tem as suas dores e, na maior parte das vezes, vêm de combatermos os nossos medos, de cometermos os nossos erros e aprendermos com eles, para fazermos mais e melhor amanhã.

Não quero dizer com isto que precisamos de ser perseguidos por uma figura aterradora, que devemos viver com medo dos uivos diários, ou ser engolidos no final com a avozinha, até porque o assédio moral é das práticas mais condenáveis no âmbito laboral e o Burnout, infelizmente, atinge cada vez mais profissionais de várias funções e setores de atividade.

É fundamental não perdermos a sanidade mental e preservarmos a qualidade de vida com a nossa família, porque este percurso de evolução e crescimento não tem que ser sombrio.

Falo da necessidade de sermos acompanhados por um líder empático, íntegro, justo, impulsionador e capaz de nos fazer chegar para além do que acreditámos ser o nosso melhor e que nos ajude a trilhar o caminho da floresta com a segurança de sabermos o ponto onde se pretende chegar, mostrando-nos os atalhos e os caminhos mais longos.

Considerando que a maior parte do tempo útil dos nossos dias, dedicamos à nossa atividade laboral, é crucial rentabilizarmos ao máximo esse tempo, traduzindo-o em vivências que nos façam sentido, que nos acrescentem valor e que no final do dia nos façam sentir realizados, porque pouca coisa nos preenche mais do que olharmos para trás e constatarmos que contribuímos e deixámos obra feita.

Todos nós conhecemos profissionais com elevado potencial que ficaram pelo caminho porque a determinada altura encontraram chefes maus, que não criavam oportunidades, que não facilitavam a participação em novos projetos, que não davam feedback sobre os pontos fortes e aqueles a melhorar, que não provisionavam a formação adequada para o desempenho das funções, que não deram a conhecer ao exterior o trabalho realizado, que os deixaram ao abandono no meio do bosque…

Nós até podemos ir bem sozinhos pela estrada fora, mas só até determinado ponto. Faltam-nos sempre as outras personagens para completar a estória.

O chefe aparentemente bonzinho, vestido de cordeiro é na sua maioria das vezes o mau chefe, porque na verdade essa apatia vai acabar por devorar os nossos sonhos e ambições, consumir a nossa motivação e queimar todas as possibilidades que poderíamos construir.

É uma realidade perversa pois esconde o egocentrismo e egoísmo de um superior hierárquico que não se preocupa genuinamente com os seus subordinados, debaixo da hipocrisia do bom ambiente no trabalho e vida serena sem preocupações, para cada um ganhar o “seu” no fim do mês, sem problemas, num mercado em recessão económica onde as empresas não se podem dar ao luxo de ser menos competitivas e cada vez mais produtivas.

O bom chefe é o líder gestor de personalidades, de competências e de egos para alcançar os objetivos individuais e coletivos, adotando diferentes estratégias e formas de abordagem em função das situações.

Nem sempre quem nos dá bafos é nosso inimigo. Nem sempre quem nos dá palmadinhas nas costas é nosso amigo. Precisamos de ter a capacidade para ver além do óbvio e exigir responsabilidade de quem tem o dever de nos ajudar a palmilhar o nosso caminho. Caminho esse onde devemos participar ativamente, com a coragem de querer fazer, de querer estar e de querer ser.

Ambiciono um dia escrever um livro que narre a história dos líderes com ferocidade para nos defender de todos os perigos e ataques externos, que tenham olhos grandes para ver o nosso potencial, ouvidos grandes para nos escutar ativamente, mãos grandes para nos ajudar a progredir e uma boca enorme para comunicar com impacto.

Vitória, vitória, acabou a estória!

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