LIDERANÇA POPULISTA : Uma análise psicossocial

Luís Caeiro

O fenómeno populista tem uma longa história mas ganhou novo fôlego nos últimos anos. Tem a dimensão de um fenómeno sociopolítico global que levou o historiador francês Pierre Rosanvallon a designar o nosso século de “o século do populismo”. Segundo uma investigação do The Guardian, o número de europeus que votou em partidos populistas passou de 7% para 25%, entre o final da década de 90 e 2018. Neste período, o número de europeus que tinha um partido populista no governo subiu de 12,5 para mais de 170 milhões. Em 2016, as eleições para o Parlamento Europeu foram um sinal de alarme e mudaram o panorama político: quase um quarto dos deputados foram eleitos por partidos populistas, o que foi visto como uma séria ameaça à democracia pluralista e à unidade da Europa. Na Alemanha, a maior economia europeia, o Barómetro do Populismo 2020, da Fundação Bertelsmann, revelou que mais de 20% dos eleitores tem atitudes populistas de direita. Os partidos populistas estão no poder em muitos países do leste europeu e já integraram os governos de democracias liberais consolidadas como a Áustria, a Suíça, a Dinamarca, a Noruega, a Itália e a Espanha.

 Mas o fenómeno populista não ocorre apenas na Europa. É um fenómeno generalizado. Na viragem para o séc. XXI, 119 países tinham adoptado o sistema democrático. De então para cá, tem-se dado um retrocesso da democracia. Países como a Hungria, a Polônia, a Turquia, a Rússia, a Geórgia, a Ucrânia, a Bielorússia, a Índia, as Filipinas, os Estados Unidos, o Brasil, a Venezuela, a Nicarágua e El Salvador, levaram ao poder presidentes e governos populistas, não pela força das armas mas pelo voto dos cidadãos. Os partidos populistas, sobretudo de direita, têm ganho um peso eleitoral crescente em quase todas as geografias. Calcula-se que 92 países, onde vive mais de metade da população mundial, são governados por regimes não democráticos, muitos de cariz populista.

 Nos anos vinte e trinta do século passado o populismo atingiu um dos seus pontos mais altos com a ascensão do Partido Nacional Fascista, de Mussolini, em Itália, e do nacional-socialismo, na Alemanha. A partir da década de 30 surgiram na américa latina, vários governos populistas designadamente, no México, com Cárdenas del Rio, no Brasil, com Gertúlio Vargas, na Argentina com Juan Perón e na Bolívia com Victor Paz Estensoro. A tradição populista latino-americana deixou raízes com Alberto Fujimori, no Peru e, mais recentemente, Hugo Chávez, na Venezuela.

 No início deste século, o populismo de direita ressurgiu na Europa com os regimes autoritários de Víctor Orban, na Hungria, de Recep Erdogan, na Turquia, e do partido Lei e Justiça, de Jeroslaw Kaczynski, na Polónia. Em 2019, o Lei e Justiça voltou a vencer as eleições com quase 45% dos votos. As eleições de Vladimir Putin, de Donald Trump, e de Jair Bolsonaro, instalaram o populismo autoritário na presidência de três das maiores economias do mundo, rompendo com antecedentes de democracia liberal e inclusiva. O referendo do Brexit, em 2016, foi um bom exemplo de como o fenómeno populista pode também liderar decisões políticas de grande alcance. O Partido da Independência do Reino Unido, de Nigel Farage, (que, em 2014, ganhou 24 dos 73 assentos que o Reino Unido tinha no Parlamento Europeu), conseguiu explorar os receios dos britânicos em relação à emigração e voltá-los contra “os burocratas de Bruxelas” que punham em causa a soberania do Reino Unido, o seu crescimento económico e a identidade nacional. O tom emocional da campanha e a superficialidade com que se discutiu uma questão tão complexa deu a vitória, ainda que tangencial, ao Leave.

 Contudo, o facto mais significativo tem sido o aparecimento em todos os países da União Europeia, de movimentos e partidos de pendor populista que disputam o espectro político, contribuindo para o definhamento dos partidos sociais-democratas e democratas cristãos, que foram os pilares da democracia desde o final da guerra. O partido de extrema-direita, Alternativa para a Alemanha, de Alice Weidel, teve mais de 10% nas últimas eleições para o Bundestag. Na Holanda, o Partido para a Liberdade, de Geert Wilders foi o terceiro mais votado nas eleições de 2021, com 11% dos votos. Na Áustria, o Partido da Liberdade obteve nas últimas eleições mais de 16% dos votos. Em Espanha, o Podemos, de Pablo Iglésias, um partido populista de esquerda, obteve nas eleições de 2019 quase 13% dos votos, 35 deputados e a participação na coligação governativa com o PSOE. O seu contraparte de extrema-direita, o Vox, obteve no mesmo ano o 3ª lugar nas legislativas, com mais de 15% dos votos. Em Itália, nas eleições europeias de 2019, a Liga Norte, de Matteo Salvini, um partido regionalista e eurocéptico, foi o mais votado com 34%, elegendo 28 dos 74 deputados italianos ao Parlamento Europeu. Em Portugal, o Chega conseguiu congregar o voto de protesto populista, passando, em dois anos, de 1,27% para 7,18 % dos votos nas legislativas, afirmando-se como a terceira força parlamentar. Já este ano, Marine Le Pen obteve o melhor resultado de sempre nas eleições presidenciais francesas.

 O populismo institucionalizado em partidos é secundado por numerosos movimentos de cariz populista que correspondem a formas de mobilização, pontual ou cíclica, de que se citam Os Indignados, em Espanha, os Coletes Amarelos, em França, os Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente (PEGIDA), criado na Alemanha em 2014, e o movimento internacional Occupy, que desde 2011 é o mais activo representante do populismo de esquerda, contestando o poder das grandes multinacionais e do capitalismo globalizado.

 O populismo político moderno está profundamente ligado à tradição democrática e participativa da cultura norte-americana. A eleição presidencial de 1828, disputada entre Andrew Jackson e John Quincy Adams, é apontada como a primeira campanha política conduzida com base nos pressupostos da ideologia populista. Jackson venceu as eleições com um discurso nacionalista que defendia os interesses do cidadão comum contra a “aristocracia corrupta” e a supremacia branca contra os grupos minoritários. O seu sucesso abriu caminho a outros movimentos como o Populista Conservador, o Partido Americano e o Partido Populista, e a líderes que ficaram consagrados na política americana como Huey Long, senador e governador da Luisiana. É nesta linha que se situam movimentos como o Tea Party e líderes influentes como George Wallace, governador do Alabama e candidato à presidência em 1968, Bernie Sanders e Donald Trump.

 O termo populismo apareceu pela primeira vez na imprensa norte-americana, em 1892, em referência ao programa do Movimento Populista que daria origem ao Partido do Povo. O partido pretendia dar o poder ao cidadão comum e defendia um conjunto de reformas para satisfazer as necessidades dos que não tinham voz na decisão política. Contudo, o estudo do fenómeno populista só foi objecto do primeiro trabalho académico aprofundado com a publicação, em 1969, do livro de Ghita Ionescu e Ernest Gellner, Populismo: Seus Significados e Características Nacionais. Nos últimos anos têm-se multiplicado os estudos académicos e as investigações jornalísticas sobre o fenómeno populista, reflectindo a sua crescente importância e a ameaça que constitui para a democracia representativa e para a sociedade liberal.

 O populismo é um conceito vago e impreciso. Há quem o entenda como uma ideologia, como um estilo de exercício da política, como uma estratégia de acesso ao poder ou simplesmente como uma retórica. No debate público a palavra é frequentemente usada em sentido pejorativo como “argumento assassino” para descredibilizar o adversário. Segundo o historiador Michael Kazin, o populismo foi, na história americana, uma forma de reequilibrar a distribuição do poder político em benefício do povo, uma vez que o poder tende a concentrar-se nas mãos de minorias. Neste sentido, o populismo tem a função de fazer regressar o poder à sua fonte originária, dando expressão directa à vontade popular. O populismo era, na sua raiz histórica, uma expressão genuína de democracia. No final da década de 80, a Frente Nacional, de Jean-Marie Le Pen, usava um slogan que exprimia exactamente isso: “Nós dizemos o que você pensa”.

 O sentido democrático que os movimentos populistas tinham na sua origem é, contudo, posto em causa, quando analisamos os pressupostos ideológicos em que se apoiam. O populismo tem numa visão dicotómica da sociedade. Considera que a sociedade está dividida em duas realidades homogéneas e antagónicas: o povo “puro” (nós), desprotegido e manipulado, e uma “elite corrupta” (eles) que domina as estruturas do poder. O papel da acção política é exprimir a vontade geral e genuína do cidadão comum que não é verdadeiramente representada pelas estruturas formais. A oposição povo-elite não se fundamenta na posse da riqueza (oposição de classe), como no marxismo, mas no estatuto moral do povo. O povo representa a sociedade e a cultura autênticas, as raízes mais profundas e puras da comunidade, em confronto com a minoria corrupta que domina as estruturas do poder político, económico, cultural e mediático, para satisfazer os seus interesses. Esta declaração de Donald Trump é muito significativa: “Durante muito tempo, um pequeno grupo, na capital da nossa nação, colheu os frutos do governo, enquanto o povo suportava os custos”. A contestação das minorias está igualmente clara nas palavras do movimento Occupy Wall Street, “Nós somos 99%”, e no slogan do partido Interesse Flamengo, “Um contra todos, todos contra um”.

 É precisamente esta visão polarizada da sociedade que torna o populismo uma teoria não inclusiva. A soberania está no povo como realidade abstracta e não no cidadão como pessoa única, cuja vontade individual conta. Na visão populista, o indivíduo está diluído no todo homogéneo da “vontade popular”, tal como o líder a interpreta; na perspetiva da democracia liberal, a vontade individual é expressa no princípio “um homem, um voto”. Embora, na sua origem histórica, o populismo fosse uma forma de regressar às raízes da democracia, a anulação da vontade individual numa só “vontade colectiva”, substitui a ideia de igualdade pela ideia de unidade, levando à exclusão da diversidade, do pluralismo de opiniões e das instituições que o representam. O populismo contesta o parlamentarismo pluripartidário e desconfia das iniciativas mobilizadoras das minorias sociais. Reside aqui a principal diferença em relação à democracia liberal: a inclusividade.

 A proposta de acção do populismo consiste, portanto, em destruir as estruturas mediadoras da democracia representativa e do poder formal, controladas por elites alienadas do povo, e dar expressão directa à vontade popular. A vontade colectiva não se exprime pelo voto mas pela palavra dos líderes carismáticos que emergem da sociedade e que o cidadão comum aclama como “a voz do povo”. As lideranças personalizadas aparecem, assim, como elementos centrais do fenómeno populista, investidas no papel de expressão da vontade colectiva e de defesa dos interesses do cidadão comum, contra o establishment. Como declarava Hugo Chávez, “Eu não sou um indivíduo – eu sou o povo”.

 Para os populistas, as elites são igualmente corruptas e o povo é uma unidade com a mesma opinião e com os mesmos interesses. Os líderes aclamados pelo povo são os únicos a compreender a vontade popular e a defender legitimamente os seus interesses. A visão do povo como entidade homogénea, muitas vezes condensada no conceito de nação, e o papel do líder como o seu único representante, explicam o carácter autoritário e exclusivo que caracterizam o populismo. O líder assume plenos poderes como único representante dos interesses do povo, e todos os grupos e movimentos estranhos à maioria são considerados ameaças aos seus interesses ou à sua identidade. As ameaças podem ser os partidos políticos, os imigrantes, as minorias étnicas, os activistas de direitos humanos, as organizações da sociedade civil que defendem causas ambientais ou opções de gênero, as empresas multinacionais, o grande capitalismo, e até mesmo as manifestações culturais que não se enquadram nos valores da tradição. Os líderes populistas conseguem a mobilização popular mantendo um estado de alerta permanente que reforça a unidade dos apoiantes contra o que consideram factores de ameaça à comunidade. A Frente Nacional foi criada em França, em 1972, contra “o gangue dos quatro”, os quatro partidos tradicionais da política francesa. Na Federação Russa, Putin mantém uma ampla mobilização popular contra a ameaça do ocidente à sua integridade territorial.

 Para alguns estudiosos do fenómeno, o populismo não é uma ideologia mas um quadro discursivo que se exprime numa retórica agressiva contra a democracia parlamentar e contra o poder instituído, mobilizando os sentimentos de revolta do cidadão comum contra as instituições, com base em argumentos pouco fundamentados mas emocionalmente mobilizadores, expressos na linguagem vulgar. Visto como estilo performativo, o populismo pode ser considerado um estilo de exercício da política que aparece associado a diversos modelos ideológicos mas que se demarca do mainstream pelas declarações bombásticas, pelo tom agressivo, atitudes provocatórias, recurso a ataques pessoais, à ironia e ao sarcasmo, utilização de linguagem grosseira, e pela quebra dos formalismos da comunicação política e institucional.

 O discurso populista não é, contudo, um exclusivo do discurso político. Aparece também na comunicação social, nos movimentos inorgânicos, nas redes sociais e no cidadão comum. Vários estudos indicam que o discurso populista é muito frequente na população em geral mesmo nos que não votam em partidos populistas. Alguns estudos realizados em países do centro da Europa mostram que as atitudes populistas são mais frequentes nos homens, nas pessoas com níveis de instrução mais baixos, nas pessoas com carências económicas, e nos que se sentem revoltados com as injustiças sociais ou marginalizados pelas instituições.

 A fragilidade do quadro conceptual que suporta o populismo mostra tratar-se de uma ideologia “pouco densa”, com baixa capacidade explicativa e incapaz de dar resposta à maior parte dos problemas complexos com que se debate a decisão política na sociedade de hoje. Por isso, o populismo tem-se associado a ideologias mais “robustas” como o nacionalismo e o marxismo, dando origem a numerosos fenómenos populistas de esquerda e de direita, conforme o conteúdo atribuído à polarização povo-elite. Os populismos de esquerda interpretam o povo como os mais pobres e desprotegidos, que é preciso defender do capitalismo internacional e da elite económica; o populismo de direita tem uma perspectiva nativista. O povo são apenas os que partilham a identidade cultural ou racial da maioria, o “nosso povo,” excluindo e combatendo as minorias raciais e culturais, o cosmopolitismo e as elites intelectuais, tidos como ameaças aos seus interesses ou à sua identidade.

 Um dos aspectos mais salientes do fenómeno populista é o papel que nele desempenham as lideranças, havendo mesmo quem defenda que o populismo é essencialmente um fenómeno de liderança. Kurt Weyland, da Universidade do Texas, um especialista no tema, define o populismo como “uma estratégia política com a qual um líder personalizado procura exercer o poder do governo com o apoio directo dos seus seguidores, sem uma mediação institucional”. Este é o modelo característico dos populismos de massas como os que surgiram no século passado, na Europa e na américa latina, e dos governos de Erdogan, de Víktor Orban e Vladimir Putin. Os governos são exercidos por lideranças carismáticas e autoritárias que (do seu ponto de vista), obtêm o poder e a legitimidade para o exercer, do apoio directo do povo. Esta forma personalizada de poder, quando instalada, minimiza a intermediação dos partidos políticos, não respeita a separação de poderes e utiliza os actos eleitorais para ratificar a aclamação popular. Esta posição compreende-se na medida em que, sendo o povo uma unidade e uma vontade apreendida pelo líder, não há lugar à pluralidade nem à discussão de pontos de vista. A eleição do líder deixa de fazer sentido porque a vontade do povo exprime-se de forma directa pela sua aclamação. O populismo substitui a eleição pelo plebiscito. Não admira, por isso, que os actos eleitorais a que o líder se submete (manipulados ou não) levem quase sempre a resultados próximos da unanimidade social.

 No caso dos partidos populistas que têm surgido com sucesso um pouco por toda a Europa, as lideranças servem-se das estruturas formais da democracia parlamentar para ganhar legitimidade, ter influência e obter adesões. A comunicação social, as redes sociais e uma retórica que empatiza com os problemas concretos da população, desempenham um papel fundamental na aproximação ao cidadão comum, e na construção do sentimento de que esta identificação é uma fonte de legitimidade. O populismo utiliza a opinião do cidadão comum como uma base da autoridade do estado.

 Tanto no caso dos governos populistas, como no dos partidos populistas que actuam no quadro das democracias liberais, há uma questão que tem sido pouco estudada e que é essencial para se compreender o fenómeno populista: como se constrói a adesão às lideranças populistas e ao seu discurso, e quais os factores objectivos e subjectivos que a determinam. A resposta a esta questão, numa perspectiva psicossocial, é chave para sabermos como lidar com uma das mais sérias ameaças à sociedade aberta.

 A primeira questão que se coloca é saber se existe uma “personalidade populista”, isto é, se dos comportamentos evidenciados pelos líderes populistas se pode inferir uma estrutura estável de traços que defina uma identidade própria e distintiva. É comum atribuir aos líderes populistas duas características principais. Em primeiro lugar, uma retórica agressiva e provocatória, a linguagem grosseira, e trato desagradável, tendência para a dramatização, adoptando com frequência um estilo transgressivo. Por outro lado, são-lhes reconhecidas qualidades de liderança carismática. Os líderes populistas inspiram confiança com o seu estilo espontâneo, entusiástico e emocional, e com argumentos dirigidos às vivências dos seguidores. Conseguem, assim, uma comunicação directa e intensa, com elevado efeito mobilizador.

 A definição do perfil de personalidade do líder populista é importante porque a personalidade percebida dos candidatos é determinante nas escolhas dos eleitores. Sabe-se, por exemplo, que os candidatos com níveis elevados de narcisismo e baixa agradabilidade têm mais sucesso eleitoral. Uma das investigações mais completa sobre a personalidade dos líderes populistas foi publicada, em 2019, por Alessandro Nai, da Universidade de Amesterdão, e Martínez i Coma, da Universidade de Brisban, Austrália (The personality of populists: provocateurs, charismatic leaders, or drunken dinner guests?). O estudo fez uma comparação sistemática do perfil de personalidade de líderes populista e não populistas, em 152 candidatos (dos quais 33 populistas) a 73 eleições nacionais, realizadas em 42 países, entre Junho de 2016 e Dezembro de 2018. Uma equipa de 1280 peritos em análise psicológica avaliou os comportamentos públicos dos candidatos com recurso a dois instrumentos reconhecidos para avaliação da personalidade: o Big Five Inventory, de Goldberg, e o Dark Triad, de Pauhlus e Williams. Estes instrumentos têm sido largamente utilizados em estudos da personalidade e em psicologia política para investigar os comportamentos de voto, as preferências partidárias e o perfil psicológico dos líderes. O primeiro instrumento avalia as dimensões ExtroversãoAgradabilidadeConscienciosidadeEstabilidade Emocional e Abertura. O segundo avalia três tendências antissociais sub-clínicas: NarcisismoPsicopatia e Maquiavelismo.

 A comparação entre as características de personalidade dos 33 candidatos populistas e dos 119 candidatos do mainstream mostra diferenças estatisticamente significativas em quase todas as dimensões analisadas. O perfil de personalidade percebida, dos líderes populistas, tem uma identidade que se caracteriza pelos traços descritos a seguir. Em relação a cada traço indica-se, de uma lista de oito líderes populistas com mais visibilidade pública (Jair Bolsonaro, Recep Erdogan, Marine Le Pen, Jean-Luc Mélenchon, Vikto Orban, Vladimir Putin, Matteo Salvini, e Donald Trump), os três líderes que, por ordem decrescente, possuem o traço em grau mais elevado.

Elevada extroversão. Os líderes populistas são pessoas fortemente comprometidos com o meio social. Assumem atitudes dominadoras. Comunicam de forma assertiva e gostam de protagonismo. Obtêm visibilidade nos grupos argumentando e impondo os seus pontos de vista. São entusiásticos, histriónicos e orientados para a acção. São percebidos como pessoas enérgicas, influentes, liderantes e gostando de se afirmar publicamente. (Donald Trump, Jean-Luc Mélenchon, Recep Erdogan).

Baixa agradabilidade. Revelam indiferença, frieza, distância e, por vezes, hostilidade em relação aos outros. São egocêntricos e competitivos, antagonísticos e sarcásticos. Têm um discurso agressivo, usando atitudes ameaçadoras e ataques pessoais. Suspeitam das intenções dos outros e, por isso, têm dificuldade em confiar e cooperar. Podem ser vistos como frios, desagradáveis, antipáticos e egoístas. (Donald Trump, Recep Erdogan, Víktor Orban).

Baixa conscienciosidade. São negligentes e improvisadores, indisciplinados, espontâneos e pouco rigorosos. Tendem a seguir os seus gostos e impulsos de momento. São caprichosos, imprevisíveis e procrastinadores. São pouco transparentes nas atitudes e decisões que tomam, incoerentes, descontrolados e, sobretudo, pouco confiáveis. (Donald Trump, Jair Bolsonaro, Matteo Salvini).

Baixa estabilidade emocionalOs líderes populistas são pessoas facilmente perturbáveis, demonstrando tensão e instabilidade emocional. Tendem a mostrar-se insatisfeitos e desiludidos com o mundo que os rodeia. Revelam emoções negativas como a irritação, a impaciência, a depressão e a ansiedade. Têm baixa tolerância à frustração e ao stresse. São tensos, descontrolados e imprevisíveis. Têm estados de humor variáveis. Tendem a interpretar as situações como ameaçadoras, as dificuldades como obstáculos e a avaliar as situações pelo lado negativo. São pessimistas e com mau humor. A dificuldade em controlar as reacções emocionais diminui-lhes a capacidade de pensar com clareza e tomar decisões consistentes em situações de tensão. Estas pessoas são vistas como nervosas e irritáveis, com “mau feitio” e de humor imprevisível. (Donald Trump, Jean-Luc Mélenchon, Recep Erdogan).

.Elevado narcisismo. São líderes com fortes tendências narcísicas. Gostam de se engrandecer, captar a atenção e o reconhecimento dos outros. São arrogantes, autoconfiantes e muito competitivos. São agressivos e desconfiados, mostrando sinais de irritação quando são contrariados ou desobedecidos. Só aceitam as realidades que confirmam a imagem empolgada que têm de si próprios e rejeitam todos os feedbacks críticos que a ponham em causa. Tendem a rodear-se apenas de quem os apoia e a escutar os que confirmam as suas ideias (Donald Trump, Vladimir Putin, Recep Erdogan).

Forte orientação psicopática. Os líderes populistas mostram uma acentuada orientação psicopática sub-clínica. Tendem a perceber hostilidade nas intenções dos outros. São insensíveis ao sofrimento e às fragilidades das pessoas, e procuram o confronto pessoal. Podem ser impulsivos e descontrolados em algumas situações, mas também manter-se calmos e focados, em situações de grande tensão ou ameaça. Mostram ousadia perante o risco e tendem a comporta-se à margem das normas sociais. (Donald Trump, Recep Erdogan, Marine Le Pen).

Elevado maquiavelismo. São líderes estratégicos e ardilosos, cínicos, manipuladores e tendencialmente amorais, procurando obter vantagens à custa dos outros. Gostam de provocar escândalos, mentir ou criar factos a seu favor. Estas pessoas tendem a ser vistas como falsas e pouco confiáveis. (Donald Trump, Jair Bolsonaro, Marine Le Pen).

Os líderes populistas apresentam traços carismáticos muito salientes que os tornam particularmente capazes de estabelecer com os seguidores uma relação directa e fortemente mobilizadora. O carisma não é um padrão de liderança exclusivo dos líderes populistas e, por isso, não é uma característica definidora. Contudo, os populistas mostram, mais que os líderes do mainstream, os traços atribuídos à liderança carismática pela maior parte dos estudos: dominância no relacionamento social, atitudes enérgicas, capacidade persuasiva, autoconfiança e ousadia. Estes traços integram-se nas dimensões extroversãonarcisismo e psicopatia que, como se viu, estão muito presentes no perfil da personalidade populista.

A análise estatística realizada aos resultados obtidos pelos 33 líderes populistas prova que o seu perfil é relativamente homogéneo. Não se observam variações significativas com o contexto geográfico ou político em que actuam. Também não se registam diferenças significativas nas avaliações realizadas por diferentes peritos em relação ao mesmo candidato, o que leva a querer que a percepção do público é convergente com a dos peritos. Registam-se, no entanto, algumas pequenas diferenças relacionadas com o espectro político e com o gênero. Os populistas de direita têm resultados mais elevados em psicopatia e dominância social, do que os de esquerda, e as mulheres têm traços de narcisismo menos acentuados que os homens.

A existência de um perfil de personalidade percebida, diferenciador dos líderes populistas, é um dado fundamental para se compreender as razões do apoio crescente que obtêm e da ascensão generalizada dos movimentos populistas. A correspondência entre o perfil psicológico dos candidatos e os traços pessoais, crenças e motivações dos eleitores, é um facto bem estabelecido pela investigação. Os eleitores tendem a apoiar os líderes com perfis de personalidade congruentes com os seus e também os candidatos com padrões de comportamento que correspondem às suas crenças, expectativas e estados emocionais.

Neste sentido, o perfil do líder populista pode ser visto como uma “oferta” que responde a uma “procura social” de respostas e soluções por parte do eleitorado. O sistema político funciona como um mercado em que a oferta de narrativas políticas e de protagonistas tem sucesso na medida em que há procura e, por seu lado, a existência de procura estimula o aparecimento da oferta. O crescimento da liderança populista deve-se à resposta que é dada pelo seu perfil, ao sistema de crenças, emoções e expectativas que dominam em largas camadas da sociedade actual, como resultado das crises e mudanças profundas que se estão a viver. Isto significa que os movimentos políticos crescem e ganham audiência na medida em que respondem ao quadro psicológico do eleitorado e este, por seu lado, estimula o aparecimento de narrativas políticas consonantes. O aumento da criminalidade e da insegurança estimula o aparecimento e o apoio a propostas securitárias que vão no sentido de limitar as liberdades, ao mesmo tempo que uma retórica que exagera essas ameaças contribui para aumentar a procura de autoridade. A crise das migrações gera medos e estimula as propostas que defendem o nativismo, Por outro lado, a exacerbação da ameaça que os estrangeiros constituem ao modo de vida dos naturais, aumenta a procura de respostas xenófobas. A corrupção nas instituições aumenta o apoio à retórica contra os privilégios da elite política, e um discurso demagógico sobre esses privilégios potencia o apoio aos que contestam as instituições. A procura estimula a oferta e a oferta estimula a procura. Este mecanismo de feedback positivo ajuda a compreender duas coisas: em primeiro lugar, que o populismo se apoia em problemas reais da sociedade e exprime o quadro existencial dos cidadãos; em segundo lugar, a importância que tem, na retórica populista, o uso da mentira, do exagero e da ameaça.

Importa, pois, saber o que determina o aumento da procura por este perfil de liderança e por que razão o eleitorado está a aderir à retórica populista. Há seis factores objectivos que estão na base dessa adesão crescente.

Insegurança económica. As sucessivas crises económicas, a crise do estado social, a precaridade do emprego, a crise das dívidas soberanas, a queda do investimento público e a privatização de funções asseguradas pelo estado, têm criado um ambiente de grande instabilidade e incerteza em relação ao futuro. O contexto de insegurança económica gera sentimentos de ansiedade face a um futuro incerto e de revolta pela perda da estabilidade vivida no passado. Os ambientes de incerteza são favoráveis à atribuição de poder àqueles que parecem ser capazes de reduzir a incerteza com propostas corajosas de mudanças radicais.

A crise da democracia representativa. Nas últimas décadas os partidos políticos perderam gradualmente a sua ligação às massas, fecharam-se em si próprios e transformaram-se em estruturas burocráticas ao serviço de interesses clientelares. A necessidade de alargar a base de apoio e conquistar votos tirou a identidade ideológica a muitos partidos e reduziu a diversidade de respostas ao eleitorado, reforçando a ideia de que “são todos iguais”. Isso também contribuiu para que os partidos tradicionais não fossem capazes de apresentar propostas eficazes para resolver os muitos desafios criados pela globalização, pelas crises económicas e pela evolução tecnológica. Deste modo, uma parte importante da sociedade deixou de se sentir ouvida e representada pelas estruturas formais do poder. Os partidos políticos perderam o alinhamento com o seu eleitorado tradicional. O sentimento de ser abandonado pelas instituições é vivido como um “regresso ao estado de natureza”, com a necessidade de encontrar figuras fortes da autoridade que falem pela voz do povo e restaurem o poder do estado. O populismo encontra aqui um terreno particularmente propício, abrindo o caminho ao protesto, propondo a extinção das estruturas mediadoras da democracia representativa e entregando o poder a lideranças carismáticas.

A corrupção. A corrupção sistémica é um dos factores com mais impacto na opinião pública e é um tema recorrente do discurso populista. O relatório de 2021, da Transparência Internacional, indica que Portugal faz parte dos 26 países da União Europeia e Europa Ocidental em que não houve, na última década, evoluções significativas no combate a este fenómeno. A corrupção corrobora a visão de uma sociedade dividida entre o povo e uma minoria acima da lei, alimenta o ódio contra as elites e gera desconfiança sobre a capacidade e fiabilidade das instituições em geral. A corrupção gera sentimentos de injustiça, de desigualdade, de revolta e de desconfiança, e abala os princípios do contrato social.

O multiculturalismo e os direitos das minorias. A globalização tirou da miséria milhões de pessoas, aproximou sociedades e culturas mas também agravou desigualdades sociais, criou dependências problemáticas e ameaças identitárias. A pobreza, que se agravou com as guerras e a crise climática, tem dado origem a movimentos migratórios que a maior parte dos países de acolhimento não tem sabido gerir e integrar. A falta de políticas concertadas e eficazes tem levado a que os migrantes sejam vistos como uma ameaça ao emprego, ao bem-estar e à cultura dos nativos. Estes sentimentos são instrumentalizados pelo discurso xenófobo e pelo apelo identitário. O lema de campanha de Trump, “Make America great again”, é um bom exemplo.

 Na maior parte das democracias ocidentais a abertura multicultural tem sido acompanhada por um alargamento dos direitos das minorias, na linha da inclusividade que caracteriza as democracias liberais. Este processo nem sempre foi conduzido com bom senso, caindo na ditadura do politicamente correcto e na cultura do cancelamento, vistos por muitos como formas intoleráveis de censura. O sentimento de que estão a ser postos em causa os valores tradicionais, a liberdade de crítica e a posição de poder dos grupos instalados, leva a reacções de revolta que facilitam a identificação com lideranças autocráticas e discursos xenófobos.

A emergência das redes sociais. As novas tecnologias da comunicação em rede proporcionaram novas possibilidades de expressão individual e de participação do cidadão comum. A facilidade na troca de factos e de opiniões, alargou o debate, deu novo fôlego à contestação, facilitou a mobilização social, contribuiu para a volatilidade eleitoral e retirou aos partidos políticos uma parte do seu papel. As redes socias favorecem o diálogo próximo com as lideranças mas também a circulação de falsidades e juízos sem fundamento, que são facilmente aproveitados para criar revolta, medo e incerteza. Uma parte importante do discurso populista e dos movimentos de apoio às suas lideranças passa pelas redes sociais. Beppe Grilo tinha o blogue político mais popular de Itália antes de ter fundado o 5 Stelle. Geert Wilders liderou a política holandesa com os seus tweets e Donald Trump ganhou as eleições com o contributo decisivo das redes sociais.

O papel da comunicação social. As últimas décadas foram marcadas pela multiplicação de empresas privadas de comunicação social que concorrem num meio fortemente competitivo. Ao perderem o apoio financeiro do estado, dos partidos políticos, dos sindicatos ou de organizações privadas, que tradicionalmente os suportavam, a conquista de audiências tornou-se essencial para o sucesso do negócio. A necessidade de optar por conteúdos que vendem explica a preferência editorial pelos escândalos, pelos conflitos e pela criminalidade, agravando a percepção do cidadão comum, de uma sociedade decadente, insegura e corrupta, que precisa de lideranças redentoras. Uma boa parte da comunicação social tem na retórica populista um aliado de negócio e o populismo têm na comunicação social (quase sempre de forma pouco consciente) um veículo ao seu serviço.

Se colocarmos em paralelo o perfil de personalidade percebida dos líderes populistas e o quadro psicológico induzido pelos factores objectivos que descrevemos, percebe-se claramente a sua correspondência. Estamos perante um número crescente de cidadãos inseguros quanto ao seu futuro, que não cofiam nas instituições nem nos governantes para resolverem os seus problemas. São cidadãos que se sentem revoltados com a corrupção nas elites e ameaçados no seu estatuto e valores tradicionais. Estão expostos em permanência a novos factos que reforçam os sentimentos de insegurança e de revolta, ao mesmo tempo que podem partilhar directamente os seus problemas com outros cidadãos e com as lideranças emergentes. Este quadro psicológico em que dominam os sentimentos de insegurança, injustiça e revolta, projectam-se em líderes autocráticos e dominantes, corajosos, confrontativos e justicialistas, capazes de protagonizar a revolta do cidadão, enfrentar as ameaças, e estabelecer a segurança e a justiça, em nome da maioria. Estas expectativas correspondem a um perfil de liderança caracterizado por traços de acentuada extroversão, baixa agradabilidade, baixa estabilidade emocional, acentuada orientação narcísica e psicopática. A personalidade populista satisfaz a procura de liderança que resulta dos sentimentos partilhados por muitos cidadãos comuns, face à crise actual da sociedade e das instituições. Estamos perante uma procura social de autoridadeestabilidade, e segurança, que inclui o reforço do poder do estado, o regresso aos equilíbrios sociais do passado e aos valores tradicionais. Pelo menos nos países ocidentais, o populismo é uma contra revolução social e cultural em relação aos desvarios da sociedade liberal.

Como escreveu Benjamin Arditi, da Universidade Nacional do México, “o populismo é um companheiro de viagem da democracia que floresce cada vez que se atravessam tempos de crise social e económica, para lembrar o povo, fazendo regressar a formas radicais de democracia”. Mas mais do que companheiro de viagem, o populismo é um sério aviso para as respostas urgentes que a democracia liberal tem de encontrar para os problemas do cidadão comum. Se queremos viver numa sociedade aberta e inclusiva, temos de começar por fazer uma autocrítica, realizar reformas corajosas e não perder mais tempo a acusar os populistas de… populismo.

Partilhe este artigo...

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.