Vieira Junior

Gerente de Comunicação, Marketing e Sustentabilidade Sicoob Cocre

Pouco falado, o ego é uma das maiores reclamações de pessoas que trabalham no mundo corporativo, principalmente quando ele vem de líderes. O impacto econômico e financeiro para as organizações é algo que se deve considerar, afinal, por ego, muitas travam desenvolvimentos, inovações, crescimentos e acabam prejudicando até mesmo a competitividade. Um ambiente cheio de egos é capaz de destruir pessoas, equipes, resultados e vidas.

Por não enfrentarem isso, empresas têm visto pessoas e resultados cada vez mais isolados. Indo longe a curto prazo, mas sozinhos em um mundo cada vez mais colaborativo. A longo prazo, elas correm um risco enorme diante da necessidade de inovação e alta competitividade.

Sim, precisamos falar sobre ego!

Freud, o pai da psicanálise, dizia que o ego influencia completamente a personalidade do ser humano. Aliás, pode-se dizer que ele é a sua própria personalidade, ou pelo menos a faceta pública dela, o lado que mostramos aos outros. Um ego frágil demais, por exemplo, torna a pessoa submissa, suscetível a bullying e exploração. É um comportamento de alguém que se anula por falta de autoestima, como medo de não ser mais aceita por uma pessoa ou por um grupo.

Já um ego inflado demais, como o caso de boa parte dos líderes nas empresas, torna a pessoa narcisista, com um falso sentimento de superioridade e uma incapacidade de aprender, ouvir e fazer autocrítica. O ego inflado pode mascarar dores, traumas e frustrações. Então, isso pode denunciar uma condição de sofrimento, que o ego quer esconder. Mas alguém que seja egocêntrico demais jamais admitirá sofrimento. É como se isso o tornasse “humano demais”. E você já viu algum líder que não aceita ser considerado um mero mortal? Bem, muitos também já viram.

O ego em lideranças é facilmente identificado quando olhamos para os motivos que fazem os melhores talentos pedirem a conta das organizações. Em uma pesquisa feita pela Michael Page, verificou-se que oito em cada dez profissionais pedem demissão por causa do chefe. E as razões são: a ausência de uma liderança que não é referência, falta de reconhecimento, ausência de feedbacks e diálogos de igual para igual, falta de treinamentos, chefe que não assume responsabilidades, entre outras.  Em todas as razões, podemos verificar problemas de ego inflado de líderes que não permitem ser colocados no mesmo nível humano de seus colaboradores.

Se o seu ego é maior do que você, terá um comportamento tão desprezível que ninguém o tomará como referência. Se ele continuar grande, não permitirá reconhecer outra pessoa que não seja a si mesmo e, nesse sentido, dar feedback será sua última prioridade, afinal você é o centro da sua preocupação e não as pessoas. Além disso, treinar e desenvolver também estará em último lugar em sua lista, já que primeiro virá o seu crescimento e, se der, o dos outros. E se algo der errado? Bem, nesse caso a culpa será sempre da equipe, afinal um chefe com ego inflado nunca erra. No máximo, é induzido ao erro, e então a culpa será sempre de alguém, nunca sua. E assim os melhores talentos vão embora da empresa, e o líder trabalhará mais e mais, gastando o que não precisaria para contratar e desenvolver habilidades básicas cada vez que alguém pede a conta.

Percebe como o ego pode atrapalhar um líder e toda a organização?

Esses são apenas alguns dos malefícios, que um ambiente dominado por egos, pode causar em uma empresa. Além desses, podemos citar:

Perda de produtividade

Geralmente, quando o gestor tem ego inflado, acaba praticando a gestão centralizadora. Tudo precisa passar por ele, afinal, é ele quem dá a última palavra. Muitas vezes, não só as decisões mais estratégicas passam por ele, mas também as atividades mais simples e rotineiras. Com isso, cria-se um regime incrivelmente burocrático, moroso e cheio de erros. A produtividade fica focada no desejo de uma pessoa – que pode estar bem ou mal naquele dia – e não em processos e regras bem definidas. As pessoas sabem, por exemplo, as tarefas que deverão realizar naquele dia, mas não têm ideia do que precisarão apresentar ao longo do ano. A mudança é constante, o resultado, sabemos: queda de produtividade e aumento da insatisfação. Afinal, os processos sempre precisam passar pelos olhares críticos do gestor, ficando mais lentos. Para vencer isso, é preciso ser menos egocêntrico e delegar responsabilidades. A isso, chamamos empoderamento.

Funcionários desmotivados

“Para quem não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve.” A frase de Alice no País das Maravilhas resume o que acontece em empresas com gestores com ego inflados. Com a ausência de processos e planos bem definidos, as pessoas começam a não se importar com o caminho que vão seguir, dando ênfase apenas no desejo do chefe, seguindo qualquer direção. A isso, damos o nome de “desmotivação”.

Normalmente, o gestor egocêntrico acredita somente nas próprias ideias e não abre muito espaço para participação. Às vezes, até o faz, mas discordar dele não é uma opção. Ao controlar todas as atividades, ele também acaba por sufocar o potencial e a criatividade dos colaboradores. Rapidamente, eles perdem todos os estímulos para trabalhar. Por isso, é importante abrir a mente e aceitar que não somos sempre os donos da verdade. A isso, damos o nome de diversidade – o que tem feito muitas empresas lucrarem muito.

A inovação acaba

No mercado atual, quem não inova constantemente, deixa de ser importante e de existir. Esse é um fato e um ponto de concordância entre todos os analistas. Para isso, o potencial criativo dos colaboradores, assim como a diversidade, possui importância de grande relevância. É justamente por isso que muito se fala hoje na importância da retenção de talentos e na promoção da diversidade.  É o capital humano e intelectual que pode ajudar a organização a dar passos além e sair da estagnação, sendo um verdadeiro diferencial competitivo.

O talento das pessoas é desperdiçado quando o gestor tem o ego inflado. Para ele, apenas as suas ideias são válidas — isso quando ele não copia a ideia dos outros e dá uma roupagem diferente para que pareça dele, ou mesmo decide usar de seu poder para abafar a contribuição de um funcionário para que ele não apareça além da chefia – sim, ego inflado é sinônimo de insegurança, e todo líder egocêntrico vive sob a pressão de perceberem que ele não é bom o suficiente para estar onde está. Assim, a organização acaba presa a velhos vícios e paradigmas e, algum dia, acaba ficando ultrapassada.

É fundamental que o gestor passe a encarar os colaboradores como semelhantes, sendo um servidor, um facilitador de caminhos. Esse é o papel de um líder do século XXI. Assim, ele irá promover um bem maior para a empresa, tornando-a um organismo vivo, atual, independente e colaborativo. É isso o que diferencia uma organização bem-sucedida daquelas que ficam presas na mesmice. Quanto mais diversa, mais lucrativa é a empresa.

Um estudo, sobre diversidade realizado pela consultoria McKinsey and Co. em 12 países, mostra que as empresas com times com maior variedade de perfis são mais lucrativas. Pelo menos mil empresas globais foram analisadas. As companhias com maior diversidade de gênero possuem 21% mais chances de apresentar resultados acima da média do mercado do que as empresas com menor diversidade do grupo. No caso da diversidade cultural e étnica, a variedade é ainda mais premiada, e esse número sobe para 33%.

O ego atrasa, a diversidade faz evoluir!

“Modelo de liderança afeta diretamente o resultado”

Isso é o que afirma uma pesquisa feita pela Universidade de Harvard. O estudo, que durou três anos, analisou 3.000 líderes em diferentes países com o objetivo de avaliar como o estilo de liderança adotado pode afetar o clima organizacional e os resultados financeiros do negócio. Segundo ele, a escolha do modelo de liderança implantado e mantido na organização pode significar até 30% do lucro de uma empresa. Aqui, voltamos aos motivos que fazem as pessoas pedirem a conta das organizações: liderança.

Por isso, é preciso, mais do que nunca, falar e trabalhar o ego dentro das organizações em prol de um ambiente mais saudável, harmônico e lucrativo.  Apostar na diversidade, na valorização das pessoas e no crescimento delas é uma premissa para que negócios e empresas prosperem atualmente. É importante que as organizações se preocupem em promover o autoconhecimento e a elevação do nível de consciência das lideranças, isso pode ser conquistado através de treinamentos e programas de desenvolvimento que trabalhem conceitos como empatia, respeito, afetividade e humanidade.

Precisamos, cada vez mais, de líderes que sejam mais humanos. E se eles não estão chegando assim, humanos, às organizações, então que tentemos lembrá-los, ainda que nos pareça óbvio. Até poque pensar que isso é óbvio nada mais é do que uma representação do próprio ego em não querer reconhecer que somos diferentes ou que deixamos de ser algo tão essencial.

Precisamos, sim, falar sobre ego.  

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