Será que o Mercado Laboral está doente? Ou será que somos nós?

Recrutamento - comunicaRH

O mercado de trabalho está doente! Esta é uma metáfora que se aplica quer às pessoas, quer a uma estrutura que precisa ser revista. Os últimos dados da Gallup (empresa norte-americana de consulta de opinião) em relação ao mercado de trabalho mundial revelam que 60% dos colaboradores sentem-se “desligados do seu trabalho” e 19% sentem-se, inclusivamente, “infelizes”. Se tivermos em conta que passamos, em média, 82 mil horas no local de trabalho, que a reduzida produtividade representa 11% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial (7,8 mil milhões de dólares) e custa 329 milhões de euros às empresas portuguesas… algo está a correr mal.

As empresas usam indicadores de ESG (Environmental, Social and Governance) para mostrar o seu impacto na sociedade, economia e ambiente. Só que no que diz respeito à sua força laboral, os relatórios de ESG focam-se, essencialmente, em salários, benefícios e dados demográficos. Embora sejam dados importantes, não demonstram o tipo de ambiente que se vive nos locais de trabalho. E não mostram, sobretudo, como é que os colaboradores se sentem no trabalho.

Os índices de stress, ansiedade, depressão, burnout e de tentativas de suicídio e obesidades mostram uma sociedade doente. Uma realidade que tem reflexos nas empresas e, consequentemente, na economia. De tal forma, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) inseriu, este ano, o burnout na lista de doenças laborais. A mesma organização afirma que os países desenvolvidos revelam maior incidência no decréscimo da saúde mental nos locais de trabalho.

Trabalhamos em ambientes tóxicos que estão a deixar-nos doentes. Nos seus estudos, a Gallup quis ir mais longe. Quis perceber quais os sentimentos de milhares de colaboradores em todo o mundo para saber porque trabalhamos tão desanimados e em modo de sobrevivência: 59% dos inquiridos responderam que sentem stress no dia anterior a ir para o trabalho; 56% ficam preocupados um dia antes; 33% revela sentir dores no corpo antes de irem trabalhar; e 31% dizem sentir raiva. Números que mostram que só o facto de pensarem que têm de ir para o trabalho os deixa doentes ao nível físico e emocional.

A pandemia agravou o estado mental da população em geral. É certo! O número de casos de depressão e de ansiedade subiu mais de 20%. Contudo, esta é uma situação que apenas revelou algo que já se sente há várias décadas. Os ambientes de trabalho estão a deixar-nos doentes e isso tem implicações ao nível profissional e pessoal. O mesmo estudo da Gallup revela que 51% dos inquiridos europeus confessaram que o elevado nível de stress no trabalho originou uma degradação nas suas relações familiares.

Um dos maiores estudos efetuados sobre o burnout pela Gallup mostra, inclusive, que a “forma de tratamento” é a principal causa, seguido de má gestão, falta de comunicação e de apoio por parte dos superiores e sobrecarga de tarefas. Ainda que a maioria das pessoas seja resiliente, o certo é que quando estamos perante estruturas obsoletas com base numa mentalidade de superioridade e de desigualdade e vivemos em modus operandi de sobrevivência, o indivíduo fica sem capacidade para dar o melhor de si, quer no trabalho, quer em casa, quer na comunidade.

O nosso organismo está preparado para reagir em situações em que a sua sobrevivência está em causa por um determinado período. Curto. Não prolongado. Quando estamos perante uma situação em que só conseguimos sobreviver e não conseguimos perspetivar uma melhoria das condições de vida, emoções de medo, culpa, vergonha e raiva, e sentimentos de frustação, ressentimento, ansiedade, desespero, humilhação e ofensa começam a tomar conta da nossa mente e do corpo.

A ciência já comprovou que os estímulos elétricos produzidos a partir das experiências de vida são mensagens enviadas do coração para o cérebro, que faz a interligação com experiências passadas, e envia sinais elétricos e químicos para o corpo correspondentes. À medida que a nossa mente (subconsciente) e as nossas células reforçam essa memória, mais submersos ficamos nessas emoções e sentimentos de baixa vibração (sim, a ciência já o comprovou! A informação está disponível para todos).

Situações de assédio moral, sexual e financeiro apenas agravam sentimentos de insegurança, baixa autoestima e revolta. Sentimentos que ficam mais evidentes no mercado ultracompetitivo em que vivemos, com lideranças que ainda acreditam que a autoridade não se discute, que quem tem dinheiro detém o poder, que só os fortes ganham e chegam longe e que a estabilidade financeira advém de trabalho duro e do sacrifício. Pelo contrário, este tipo de julgamentos revelam medos e inseguranças que resultam de traumas na infância, nomeadamente de situações de humilhação, abandono, rejeição, traição ou injustiça. Com isto surgem problemas comportamentais e distúrbios mentais de várias ordens, na infância, adolescência e na fase adulta.

Como curar uma sociedade e mercado de trabalho doentes?

A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que, para solucionarmos os problemas que resultam de fatores mentais, é preciso valorizar e trabalhar a área da saúde mental, haver um compromisso e respetivo investimento por parte das empresas nesta matéria, e alterar os ambientes nos quais estamos inseridos (social, económico e físico).

Pois bem, todos nós sabemos o que precisamos de fazer. E porque não o fazemos? Porque é mais fácil mantermo-nos na nossa zona de conforto do que rumarmos ao desconhecido. Porque é mais fácil deixar tudo como está do que olhar para aquilo que está a provocar uma disruptura. Quem vem atrás que se preocupe com isso…

Só que não. Estamos numa fase de transição e as coisas acontecem de forma muito mais rápida do que no passado. O mercado de trabalho mudou. Os valores mudaram. E quem não se adapta não vai conseguir fazer face às mudanças que já se perspetivam.

Os colaboradores apresentam a demissão. As empresas enfrentam a demissão em massa, independentemente da sua dimensão, como o verificado no movimento Grande Demissão. Se para uma empresa duas ou três demissões pouco pode significar, para outras é revelador de que algo precisa de ser analisado. A começar pelo relacionamento das lideranças com os seus colaboradores, uma das principais causas que levam muitos colaboradores a pedir a demissão. As condições de trabalho e os salários são também causas que levam à apresentação da carta de demissão.

E desengane-se quem julga que o que se passa na empresa fica na empresa. São cada vez mais os testemunhos nas redes sociais de pessoas que não aguentaram mais os ambientes e as lideranças tóxicas. A somar a isto, temos plataformas nas quais os colaboradores dão a sua opinião desde o processo de seleção até ao ambiente vivido dentro da empresa, passando liderança, remuneração e benefícios.

Hoje são os colaboradores que escolhem as empresas onde vão trabalhar, mesmo que isso signifique estar a milhares de quilómetros de distância de casa. A experiência de vida, o desenvolvimento profissional e pessoal, a qualidade de vida proporcionada pelo trabalho é mais relevante do que a estabilidade e segurança que as gerações anteriores valorizavam. O trabalho é apenas uma extensão daquilo que são.

Muitos são empurrados para o empreendedorismo porque não encontraram o seu lugar no mercado de trabalho. Não por falta de competências. Por falta de identificação. Por ausência de valorização e reconhecimento nas relações e remunerações.

A Natureza é sábia. E ela mostra-nos que os mais fortes não são aqueles que estão no topo da cadeia alimentar. Até os predadores sabem que precisam de COLABORAR para sobreviver. É aquilo a que os biológos chamam de Ajuda Mútua. O nosso corpo também é assim. Se a comunidade de 50 mil milhões de células deixam de colaborar umas com as outras, o corpo adoece e, em casos mais graves, podem conduzir à morte.

As empresas são também organismos vivos. Se as células ficam doentes, o organismo pode apresentar a síndrome da falência múltipla de órgãos e, consequentemente, levar à morte. Assim, numa empresa, se algum departamento começar a entrar em falência, outros podem seguir-se até que, se não for intervencionada, pode entrar em falência. A cura depende de todos!

Empresas mais humanizadas, conscientes e colaborativas conduzem a uma economia mais resiliente e sustentável. Está nas mãos de cada um de nós. E cabe a cada um de nós mudar. O que é necessário para mudarmos? Humanismo e Colaboração.

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