TAKE 2 – A Fábula da Centopeia

A Fábula da Centopeia - comunicaRH

– Para onde vai o seu pensamento Dr. Rodrigo da Cunha? – Questionou o CEO em tom irónico dado o alheamento que notou em plena reunião de comité de Direção.

– Para dentro da cabeça dos meus colegas e depois numa espécie de efeito multiplicador reflete-se na motivação de compra do cliente! – Respondeu prontamente o homem forte do marketing, olhando em volta com um ar vitorioso.

Lá vinha aquele auto reconhecimento hiperbolizado, com a força de uma barragem em tempo de chuvas fortes, enquanto mirava a audiência à volta da mesa de reuniões, com os olhos semicerrados e um sorriso esquizoide que o distinguia.

– Que diabo homem, cada vez que abre a boca, não lhe sai nada de útil para sairmos desta miséria de vendas! Antes que o Coronel Patente Elevada pudesse terminar a sua frase em tom de parada militar, foi atropelado pelo Contas do Rosário que interrompeu em tom lastimoso, para relembrar o resultado negativo de três dígitos que, pelas projeções teria uma forte tendência de se tornar um buraco catastrófico!

– Dr. João Contas e Dra. Benedita, relembro que a prioridade é trabalharem em conjunto para me apresentarem um plano de controlo de custos, que passa por uma redução de estrutura, temos de diminuir efetivo e já! – António Luvinha mostrava uma impaciência muito materializada nas gotas de suor saídas do cocuruto da sua careca luzidia e, ainda, no tamborilar da monblanc em cima da mesa, embora de forma suave, porque não estava para estragar a bolinha onde se encontrava o símbolo e que tanto exibia junto ao nariz de quem reunisse com ele.

– Mas Dr. António, para envolvermos todos no PINOTE, temos de definir critérios muito claros de quem queremos que fique, num plano de retenção, porque não podemos perder talentos – dizia a Dra. Bibi com um leve tremelicar das voz e um cruzar e descruzar de pernas, longe da cena do filme atracão fatal, mas mais numa ótica de contração final!

– Minha cara Diretora de Recursos Humanos, simplifiquemos o seu drama, porque tenho alguma pressa e a gestão da empresa não espera pelas suas reflexões metafisicas que, alias, são belíssimas quando estamos folgados de dinheiro! Portanto saem os que têm salários mais elevados, os mais baratos ficam e esses pode atira-los para a sua piscina de talentos e mandar-lhes dar umas braçadas! – O rosto do CEO mostrava uma contração dos músculos da bochechas, uma ruga vincada no sobrolho e um ranger fininho de dentes, tudo envolto num cinismo de fino recorte. E continuou em tom ainda mais solene:

– Temos de tomar decisões a curto prazo, para que a empresa seja sustentável no futuro, tive oportunidade de discutir com o Contas do Rosário, qual a melhor opção que temos, para “alavancar” a tesouraria, e estrategicamente vamos avançar para um pedido de empréstimo bancário, uma espécie de conta caucionada com juros a uma taxa que nos convém, o que vai resolver o pagamento de vencimentos deste mês, no próximo mês teremos uma massa salarial muito mais apelativa, porque a Benedita vai tratar de executar o plano de “flexibilização da estrutura”. Bem vos digo que tudo se resolve desde que a liderança seja forte e consistente. Contem comigo, estou cá para ajudar!

– Que positivo e inspirador Dr. António Luvinha! Permita-me acrescentar, que o meu plano estratégico, irá permitir aumentos de receitas na ordem dos 30% nos próximos dois a três meses, a pior fase vai ficar para trás! A minha capacidade de “farejar” cada oportunidade de mercado, vai levar-nos longe, e não agradeçam, porque estou cá para isto! – O Rodrigo Da Cunha parecia um pavão no seu esplendor, e rodopiava sobre si mesmo, para que todos vissem o seu melhor angulo de génio.

– Meu caro colega o meu conselho sincero: em vez do nariz tente usar o cérebro, o seu desempenho como “farejador” merece uma ida à farmácia para comprar inalador nasal! – O Coronel parecia um míssil dirigido, as palavras disparam na sala como torpedos, de facto faltava-lhe algo tato, mas cada um tem o seu estilo e há que aceitar a diferença…

A Benedita, por esta altura estava corada e só lhe ocorreu uma pequena alusão onde boiavam a palavras “empatia” e “tolerância”…pregar aos peixes é muito ingrato, mas pode ser que a longo prazo dê resultados, embora o longo prazo seja um futurismo tramado para a gestão da mudança. Estamos de acordo?


O comité de Direção reúne para deliberar sobre assuntos estratégicos (é o objetivo destas reuniões mensais segundo o mesmo comité). Caro leitor coloque-se em qualquer lugar que queira até no meu (ofereço sem custos de trespasse) e confesse: mais uma página desta verborreia e perdíamos a fé na gestão de topo, não é difícil prever o destino de homens como Peter Drucker ou Michael Porter condenados ao descredito, porque afinal a gestão pode ser o que cada um quiser: criativa, despudorada, fabulizada, surreal e no final das contas o resultado na ultima linha do reporte financeiro mede o sucesso da coisa. É a vida!

Acompanhe: Take 1 – A bordo que é de bordo!

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