Pedro Branco

Diretor da Header™. Após 19 anos no seio das organizações – foi gestor de pessoas em Portugal e Espanha – Assume em 2020 a função de Business Director da Header Top Executive Hunters, criada pelo Grupo Talenter™.

Há uns dias, um profissional que estou a ajudar na sua recolocação (já um amigo), pediu-me o seguinte conselho: Pedro, vou amanhã a uma entrevista, numa fase final para uma função de direção de segunda linha, e vou ser entrevistado pelo novo diretor da área. Como sabes, tenho já 55 anos de idade; e ele menos 15 do que eu. Ele também sabe que eu já fui diretor de primeira linha.

O recrutador já me avisou que ele poderá sentir-se ameaçado por ir gerir alguém com a minha experiência e resultados. No entanto, neste momento já não quero saber de títulos; eu quero é trabalhar, mas tenho vindo a sentir que o mercado me acha «fora de prazo». Dizem que a malta nova tem outro andamento. Achas que tenho hipótese? Como me deverei posicionar?

António, velhos são os trapos. Ainda tens mais uns dez anos de trabalho pela frente e qualquer organização teria muito a beneficiar em ter alguém com a tua competência e experiência.

A malta mais nova tem uma inteligência fluida (analítica) superior à tua (funciona como o processador de um computador) o que lhes confere uma maior velocidade de raciocínio. No entanto, as pessoas mais velhas têm a chamada «inteligência cristalizada», que se vai desenvolvendo à medida que envelhecemos, fruto da experiência acumulada durante toda a vida. Isto significa que podemos, mais facilmente, inferir como resolver determinado problema, pois já vivemos essa situação.

Nos anos 80 ou 90 (já não me recordo bem), um grupo de investigadores desenvolveu uma experiência em que punha à prova dois grupos de pessoas: um na casa dos 20 e outro na casa dos 60 anos de idade. Havia duas salas separadas por um longo corredor. Na primeira sala, uma parede com seis lâmpadas incandescentes (de filamento); na segunda, um interruptor e um display.

Os grupos participaram à vez. Regras: cada lâmpada apenas funcionava no seu casquilho; o grupo tinha de permanecer sempre junto; o interruptor só funcionava enquanto alguém o premisse; o display informava quantas lâmpadas estavam na posição correta (que, portanto, acendiam) enquanto o botão estivesse premido; o grupo podia deslocar-se à «Sala 1» para trocar as lâmpadas e voltar à «Sala 2» para premir novamente o botão; o tempo limite do jogo era de 5 minutos.

Enquanto a equipa dos anciãos aguardava numa sala isolada, ditou a sorte que a equipa dos jovens jogasse primeiro. Os jovens carregaram no botão e constataram que tinham duas lâmpadas corretamente posicionadas. Correram à «Sala 1» e trocaram algumas lâmpadas e passaram a ter três lâmpadas corretas. Depois quatro, depois duas, depois três, depois uma, depois três novamente. E passaram os cinco minutos a numa correria desenfreada entre as salas, terminando o jogo com apenas três lâmpadas acesas.

Chegou a vez dos anciãos jogarem. Não tinham seguramente a capacidade atlética dos mais jovens, pelo que teriam de ser muito mais eficientes.

No entanto, os anciãos resolveram o enigma em menos de dois minutos, com as seis lâmpadas corretamente colocadas. Em menos de 120 segundos a equipa dos «mais crescidos» carregou no botão e o mostrador indicou o número seis. Simultaneamente, na «Sala 1», seis lâmpadas iluminavam a vitória dos «velhos», que festejavam orgulhosamente a vitória, ignorando algumas dores nas articulações.

Então, se eram mais lentos, física e analiticamente, como foi isto possível? Foi muito simples. Os anciãos limitaram-se a carregar no botão e a deixar lá o dedo durante cerca de 15 a 20 segundos. Depois, deslocaram-se à sala das lâmpadas para verificar quais delas estavam quentes. Essas, estariam nas posições corretas, pelo que trocaram apenas as posições das lâmpadas frias. Repetiram o processo mais duas vezes, et voilà: seis lâmpadas acesas.

António, no início da entrevista, tens de passar a mensagem, de uma forma sub-reptícia, que não és uma ameaça e que não queres o lugar dele. Que, nesta fase, já não te moves por títulos, que estás noutra fase da vida. Diz-lhe que estás muito entusiasmado com a ideia de trabalhares com ele, que podem ensinar imenso um ao outro, construir uma excelente equipa, aliando a rapidez cognitiva dele à tua experiência de muitas batalhas.

Fala-lhe do sucesso do teu último projeto, dos resultados que obtiveste entre 2015 e 2019, antes da pandemia. Fala-lhe do crescimento a dois dígitos quatro anos consecutivos. Diz-lhe que só estás em transição porque decidiste regressar a Portugal no momento errado, que ninguém poderia antecipar uma pandemia e um confinamento que iriam mudar, drasticamente, o mundo como o conhecíamos.

Diz-lhe que estás entusiasmado por poderes ter acesso a novos modelos teóricos, novas ferramentas, outras metodologias de trabalho. Em troca, partilharás uma sólida experiência de décadas a antecipar constrangimentos e a inferir soluções de grande sucesso. Diz-lhe que, quanto mais diversas forem as equipas, mais ricas elas serão (está comprovado).

E, por favor, diz-lhe que ser velho nada tem a ver com idade, mas sim com atitude, pelo que, portanto, velhos são os trapos!

Nota: estória real, com ligeiras adaptações para proteger a identidade dos intervenientes.

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