O trigo, o joio, e a pandemia.

António Calheiros na comunicaRH

“Nunca desperdices uma boa crise”
– Winston Churchill

A pandemia COVID-19 tem tido um impacto muito negativo no mercado de trabalho. As estimativas de forte queda do PIB e a redução da actividade de muitas empresas têm levado à suspensão de muitos processos de contratação e até a que planos de contratação de novos funcionários se tenham transformado em planos de despedimento de funcionários que, de repente, se tornaram excedentários. Quem anda à procura de emprego nesta fase não tem a vida fácil. No entanto, se esta situação traz desafios e dificuldades, traz também uma oportunidade que não devemos desperdiçar.

As empresas já perceberam há muito tempo que as pessoas são o mais importante para a sua competitividade.

Uma estratégia brilhante pode ser imitada e ver-se ultrapassada pela volatilidade do contexto. Um produto inovador acaba por se tornar obsoleto quando os concorrentes apresentam algo ainda mais inovador. O domínio de um segmento pode tornar-se irrelevante se os consumidores alterarem as suas preferências. A fábrica mais eficiente pode tornar-se um mono com a evolução da tecnologia. Uma reputação imaculada pode ser manchada irremediavelmente por uma declaração precipitada.

O que possibilita que uma vantagem competitiva seja sustentável e não meramente temporária são as pessoas que pensam e estruturam uma nova estratégia, que aproveitam novas oportunidades e potenciam recursos e competências distintivas da organização. O que possibilita que uma empresa tenha sempre o produto mais inovador do mercado são a competência e ambição das pessoas que, mal um produto é lançado, estão já a trabalhar num novo produto que o vai fazer parecer primitivo.

O que possibilita que uma empresa mantenha a preferência dos consumidores é a capacidade e paixão das pessoas

que procuram permanentemente conhecer melhor os seus clientes e desenvolver formas de, mais que os satisfazer, deslumbrar. O que possibilita que uma empresa tenha de forma consistente as operações mais eficientes da sua indústria é o conhecimento e o permanente desejo de melhoria das pessoas que estão na vanguarda tecnológica para adoptar ou desenvolver os equipamentos e métodos de trabalho que consigam fazer cada vez mais com cada vez menos. O que possibilita que uma empresa mantenha uma reputação inatacável é a sensatez e a sensibilidade das pessoas que tomam e comunicam as decisões mais impactantes.

As empresas que já perceberam a importância das pessoas sabem que as pessoas que as tornam competitivas têm que se sentir bem na empresa e bem tratadas pela empresa. Por essa razão, essas empresas afirmam que as pessoas são o seu activo mais importante e procuram mostrar que as tratam como tal. Essas empresas comunicam valores de que nos podemos orgulhar, constroem instalações onde dá gosto trabalhar, participam em iniciativas de responsabilidade social que criam boa imagem, aparecem nas listas de melhores locais para trabalhar, etc. Ganham as empresas, que conseguem contratar e reter as pessoas que criam mais valor, e ganham as pessoas, que fazem o que gostam, de forma competente, em organizações com as quais se identificam.

Mas, se as empresas que já perceberam a importância das pessoas afirmam que as pessoas são o seu activo mais importante e procuram mostrar que as tratam como tal, nem todas são sinceras quando o fazem. Empresas cínicas e oportunistas afirmam a importância das pessoas à boca cheia enquanto as tratam como uma inconveniência necessária. Empresas cínicas e oportunistas afirmam-se socialmente responsáveis enquanto procuram o lucro a qualquer custo. Empresas cínicas e oportunistas procuram cativar as pessoas mais competentes e idealistas apenas para as esmifrar e deitar fora.

A vantagem das crises é que obriga as pessoas (e as empresas) a mostrar quem realmente são.

É quando as decisões são a doer que as pessoas (e as empresas) mostram aquilo que realmente valorizam e privilegiam. Quando não há margem de manobra e todas as decisões implicam custos, as pessoas (e as empresas) vão fazer o que os lhes custa menos.

Aproveitem esta altura de pandemia para olhar bem para as empresas e para as suas decisões. Todas as empresas dizem que valorizam as pessoas mas, quando conta, nem todas realmente o mostram. Vejam que empresas mantêm incondicionalmente os seus trabalhadores, perdendo dinheiro com isso, e que empresas despedem os seus trabalhadores para manter os seus lucros. Vejam que empresas protegem os seus trabalhadores, criando condições seguras de trabalho, e que empresas colocam em risco os seus trabalhadores, negligenciando as suas condições de trabalho para não colocar em causa os seus lucros. Vejam que empresas oferecem os seus produtos a quem está a passar dificuldades e que empresas especulam com os preços dos seus produtos, explorando quem está em posições fragilizadas.

E depois recompensem as empresas que merecem. Tenho a certeza que todos vamos preferir trabalhar em empresas que sabemos que tratam bem as suas pessoas e que apoiam as comunidades em que estão inseridas. E tenho a certeza que todos vamos também preferir consumir produtos dessas empresas. Há quem chame a isto karma. Há quem chame a isto mão invisível. O mais importante não é o que lhe chamamos, o mais importante é, com as nossas atitudes, sinalizarmos quais as atitudes que valorizamos e apreciamos. Assim, recompensamos quem merece e criamos incentivos para que os outros façam o mesmo.

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1 Response

  1. Francisco Pereira diz:

    Olá António!
    Magnífico texto! O ser Humano de ser o centro de tudo! Incoerências devem ser banidas do mundo corporativo! Já estou seguindo sua dica (recompensar empresas que merecem). Continue nos presenteando com as suas reflexões!
    Parabéns e Sucesso!

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