A Liderança Corrompe? Uma Análise Psicológica da Corrupção

A Liderança Corrompe? Uma Análise Psicológica da Corrupção

O Índice de Percepção da Corrupção, aplicado pela Transparência Internacional, que analisa os níveis de corrupção no sector público de 180 países, coloca Portugal em 33º lugar, abaixo da média dos países da União Europeia. A posição de Portugal no ranking desceu três lugares em 2020 e estava praticamente estagnada desde 2011, indicando uma década de ineficácia no combate a este fenómeno.

A nível mundial o panorama também é pouco animador. Segundo a mesma fonte, uma em cada quatro pessoas já pagou “luvas” a membros da administração do seu país e mais de metade declara que as autoridades nacionais têm feito “um mau trabalho” para controlar o problema. Quase 6 biliões de pessoas vivem em países com sérios problemas de corrupção e, segundo a Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção (UNCAC), a ocorrência deste fenómeno nos países desenvolvidos tem custos superiores a 1,25 triliões de dólares.

Os casos de corrupção estão longe de ocorrer apenas no sector público. Existem nas empresas privadas, nas entidades sem fins lucrativos, nas organizações militares e religiosas, e nas relações quotidianas. As suas consequências são negativas a todos os níveis: desvia fundos do combate a problemas sociais graves, distorce as regras de mercado e da sã concorrência, destrói a confiança nas instituições e nas relações negociais, condiciona as decisões de investimento, degrada a imagem e a competitividade dos países, aumenta as desigualdades, cria sentimentos de injustiça, e arruína carreiras e reputações. Aristóteles e Maquiavel consideravam a corrupção o primeiro sinal da decadência das sociedades.

A corrupção é um fenómeno social global e heterogéneo, difícil de definir, que varia com as culturas e com as épocas. Práticas consideradas corruptas num contexto social podem ser aceites noutro, e o que era considerado lícito pode mais tarde ser censurado. Apesar disso, todas as sociedades têm normas para controlar manifestações de corrupção, e condenam-nas à luz da lei e da moral.

A maior parte dos autores define a corrupção como a utilização de posições de poder para obter benefícios ilegítimos, para si ou para terceiros. O que melhor caracteriza os actos de corrupção é serem uma utilização não-ética do poder. Segundo a UNCAC, este fenómeno compreende três ilícitos mais comuns: o peculato (apropriação ilegítima de bens em proveito próprio), o tráfico de influência (usar a capacidade de influência para obter benefícios para si ou para terceiros) e o abuso de poder (tomar decisões ou abster-se de as tomar, para benefício próprio ou de outros).

1.O poder altera os nossos padrões de comportamento

Uma vez que o poder permite o controlo dos processos de tomada de decisão, é inevitável a associação entre a liderança e o fenómeno da corrupção. Os líderes decidem sobre recursos valiosos para a comunidade, dispõem de grande autonomia nas decisões, têm a capacidade de influenciar assimetricamente os comportamentos dos outros e podem usar o poder com muitos fins diferentes. Não faltam os exemplos de líderes que utilizaram o poder para retirar os seus países de situações críticas, levarem organizações ao sucesso e equipas a alcançar objectivos que mudaram as nossas vidas.

Mas o poder também pode ser mal usado. Pode libertar impulsos violentos e egoístas, levar à utilização dos recursos em proveito próprio, reduzir a empatia, induzir o assédio sexual ou ver os talentos dos outros como uma ameaça. O poder condiciona e os líderes vivem a tensão permanente entre usar o poder em benefício dos outros ou de si próprios. Não faltam os estudos que suportam a ideia de que as pessoas com poder tendem a legitimar o seu uso discricionário para mantê-lo, tirar vantagens pessoais e praticar actos de corrupção.

Isto significa que as pessoas em posições de liderança estão condicionadas para a prática de actos ilícitos? Confirma-se a expressão axiomática de Lord Acton, de que “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”? A corrupção em funções de liderança resulta do facto das pessoas inclinadas para a corrupção procurarem lugares de poder? Ou as verdadeiras causas não estão no poder mas nas pessoas que o exercem?

Os efeitos transfiguradores do poder já tinham sido registados pelos gregos no conceito de hubris que significava a arrogância e omnipotência dos que ocupavam funções de liderança, que “queriam ser iguais ou superiores aos deuses”. O conceito veio depois a ser utilizado na síndrome de hubris ou complexo de deus, estudado pelo político trabalhista David Owen, para designar os transtornos de personalidade a que pode conduzir o uso continuado do poder.

Uma dos primeiros estudos psicológicos sobre a relação entre poder e corrupção foi publicado por Kipnis, em 1972 (Does Power Corrupt?). O autor defende que o poder pode levar a um mau uso dos juízos morais porque as pessoas em posições de poder tendem a ser mais temerárias, menos empáticas, experimentam menos sentimentos de culpa e de vergonha, e procuram maiores recompensas para si e para os seus.

Recentemente, Dacher Keltner, professor da Universidade da CaliforniaBerkeley, estudou os efeitos da ascensão ao poder, na personalidade, nos contextos da política, das empresas e do desporto, e concluiu que existe um “paradoxo do poder”. As pessoas começam a adquirir poder através de comportamentos que mostram empatia, colaboração, partilha e sensibilidade aos interesses dos outros mas, à medida que consolidam a liderança, pioram as atitudes e desenvolvem comportamentos socialmente desajustados. Concluiu, por exemplo, que as pessoas quando chegam a posições de poder nas organizações têm três vezes mais probabilidade de interromper o trabalho dos outros, mostrar-se agressivas quando são contrariadas, levantar a voz, tratar os outros com rudeza, proferir insultos e tomar decisões sem justificar. Afirma que o poder nos coloca “em algo semelhante a um estado maníaco, fazendo-nos sentir dominadores, enérgicos, omnipotentes, sedentos de recompensas e imunes ao risco, o que predispõe à irritação, à rudeza e aos comportamentos anti-éticos”.

Outros estudos mostram que as pessoas com poder se tornam mais preconceituosas, estereotipam os subordinados, estão mais autocentradas, ouvem menos a opinião dos outros e são menos sensíveis aos impactos das suas decisões nas outras pessoas. Estão mais inclinadas a satisfazer os seus interesses pessoais e sentem-se imunes às sanções.

O poder parece, pois, produzir uma regressão ao “estado de natureza” hobbesiano, em que se perde a noção do certo e do errado, do justo e do injusto. O poder é capaz de mudar os comportamentos e fazer-nos ser o que não eramos? As posições de liderança favorecem a prática de actos de corrupção? O que pode levar os líderes a tomarem decisões corruptas?

2.Os actos de corrupção não resultam apenas de um cálculo racional

A psicologia, a sociologia e a ética comportamental têm procurado responder à importante questão das possíveis relações de causalidade entre poder e corrupção. As primeiras investigações foram dominadas pelos modelos de escolha racional. Estas teorias explicam a corrupção em função de comportamentos lógicos e calculistas, baseados no interesse próprio. A teoria do crime racional defendia que os crimes são cometidos quando os benefícios são superiores aos danos estimados. É a teoria que inspira o conhecido artigo de Gary Becker, de 1968, Crime and Punishment. As práticas criminosas são conduzidas pelo princípio da maximização da utilidade. Elas não ocorrem se uma avaliação racional mostrar que os custos marginais esperados são superiores aos benefícios. Deste modo, o rigor das punições seria a forma mais eficaz de combater o crime.

Contudo, investigações mais recentes na esfera da psicologia cognitiva e da economia comportamental indicam que a abordagem racional é prescritiva e simplista. Descreve como as decisões devem ser tomadas, mas não atende aos múltiplos factores que realmente as determinam, nem aos diferentes níveis de consciência a que os juízos e as decisões podem ocorrer. Na expressão de Herbert Simon, as decisões humanas têm uma “racionalidade limitada”. As pressões do tempo e a complexidade das situações tornam impossível calcular a utilidade esperada de todas alternativas disponíveis. Face às nossas limitações cognitivas, as decisões são determinadas pela intuição, por esquemas cognitivos pré-existentes (heurísticas) e por vivências emocionais do passado.

3.A corrupção é condicionada por mecanismos inconscientes

Os estudos mais importantes nesta linha foram desenvolvidos pelo nobel da economia, Daniel Kahneman. As decisões humanas, sobretudo em contextos de pressão e incerteza, estão submetidas a muitos enviesamentos que tornam o processo racional de escolha pouco útil na previsão dos comportamentos. Como refere, “a definição de racionalidade como coerência lógica é muito difícil de delimitar; exige uma adesão às regras da lógica que uma mente finita não pode implementar”.

Segundo Kahneman, as tomadas de decisão envolvem processos mentais que ocorrem em dois planos: mecanismos esquemáticos, automáticos e inconscientes, designados por Sistema 1 ou sistema rápido, ao nível do cérebro límbico; e mecanismos deliberativos, lógicos e conscientes, designados por Sistema 2 ou sistema lento, ao nível do córtex pré-frontal.

Uma descoberta importante é a forma como os dois sistemas interagem. Devido às nossas limitações cognitivas, não conseguimos ponderar as vantagens e limitações de todas as opções possíveis quando tomamos uma decisão, por forma a maximizar as vantagens. O esforço cognitivo e o autocontrolo exigidos por uma decisão complexa envolvendo múltiplas alternativas, esgotam a nossa energia e reduzem o autocontrolo, levando ao fenómeno conhecido por “esgotamento do eu”.

É quando a nossa capacidade lógico-racional está diminuída que os mecanismos inconscientes e impulsivos do Sistema 1, começam a controlar o processo de tomada de decisão, ao mesmo tempo que a redução do autocontrolo facilita a satisfação das necessidades mais imediatas e a cedência a tentações. Isto significa que as decisões que estão na base da corrupção podem ser pouco conscientes, resultando de julgamentos rápidos e intuitivos.

Neste sentido, o combate à corrupção não pode limitar-se ao agravamento das penas, e ao reforço dos mecanismos de regulação e controlo, mas tem que começar por compreender os modos de pensar e decidir que lhe estão subjacentes, e como interagem em contextos sociais e culturais concretos.

Pode concluir-se que, ao contrário da opinião comum, a corrupção não é necessariamente um crime calculado, conduzido apenas pela lógica da análise custo-benefício. Para o explicar é necessário conhecer os mecanismos psicológicos individuais que lhe estão subjacentes, e as condicionantes grupais e culturais que o enquadram.

4.Os mecanismos individuais da corrupção

Os contributos mais importantes para explicar os comportamentos anti éticos a nível individual vêm da psicologia cognitiva e da economia comportamental que têm estudado a forma como é processada a informação nas tomadas de decisão.

4.1. O excesso de autoconfiança pode levar à corrupção

O poder é um dos factores que aumenta os níveis de confiança em si próprio. A autoconfiança é um importante factor de sucesso mas também pode levar a expectativas irrealista e a decisões desajustadas. Um nível elevado de confiança em si leva à subestimação do risco de ser punido e à focalização na recompensa imediata. A pessoa sente-se acima das normas sociais e à margem dos mecanismos legais de punição. O poder reforça os sentimentos de dominação e a percepção de impunidade.

O excesso de confiança moral é ainda mais perigoso porque pode levar as pessoas a acreditar que tomam sempre decisões correctas e que são mais éticas do que na realidade são.

Em situações de grande pressão e ambiguidade, com elevadas recompensas em causa, pode-se ser levado a tomar decisões dissonantes com as suas posições éticas. Esta ocorrência significa que podemos ceder praticando actos ilícitos, mesmo quando nos conduzimos por princípios éticos. Os nossos comportamentos concretos obedecem a um princípio que já alguns designaram de “ética limitada”, uma extensão do conceito de “racionalidade limitada”, de Simon.

Esta contradição entre as decisões que tomamos e os princípios que defendemos, pode ser explicada pelo conflito interno entre desejo e dever. O que devemos fazer é mais racional e consciente, e é mais aplicado às acções que antecipamos no tempo, determinando sobretudo as nossas decisões futuras ou as avaliações que fazemos dos comportamentos dos outros. O que desejamos é mais emocional e impulsivo, é determinado por mecanismos inconscientes e pode dominar nas decisões imediatas sob pressão.

Está provado que a perspetiva temporal acciona níveis diferentes da tomada de decisão. Um curioso estudo de Kovetz e Tyler (Tomorrow I’ll be me: The effect of time perspective on the activation of idealistic versus pragmatic selves) mostra como a perspectiva temporal pode activar diferentes dimensões do self. Quando têm que escolher, a prazo, um professor, os alunos activam o seu self idealista e escolhem um professor competente e exigente. Quando têm que tomar uma decisão imediata, activam o seu self pragmático e escolhem o professor que dá melhores notas…

A dissonância ética tem uma explicação clara: antes da decisão, as pessoas antecipam que vão tomar as decisões como deveriam, de acordo com os seus elevados padrões éticos mas, no momento de decidir, podem prevalecer os desejos imediatos. A consciência deste mecanismo pode ser decisiva para que se tome uma decisão ética e para evitar o que normalmente se segue à dissonância ética: a racionalização da decisão tomada para a tornar coerente com os princípios morais defendidos, como veremos a seguir.

É isto que explica que líderes acusados de corrupção defendam com igual veemência que não praticaram qualquer ilicitude (embora à luz da lei e da moral o tenham feito) e que são detentores dos mais elevados padrões éticos.

4.2. As decisões corruptas dependem da percepção do risco

A corrupção é condenada e, por isso, envolve riscos. A maioria das pessoas é avessa ao risco e isso poderia ser um obstáculo às práticas corruptas. Mas não é exactamente assim. Com pequenos actos de corrupção, com actos de corrupção repetidos e não sansionados, ou quando se trata de decisões em que os benefícios pessoais são elevados, a pessoa tende a subestimar os riscos, encontrando uma diversidade de argumentos para mostrar si própria a baixa probabilidade de ser punida. A tendência à subestimação do risco é ainda mais acentuada em contextos de incerteza e quando há níveis elevados de auto-confiança. A confiança em si próprio pode ainda ser reforçada por traços narcísicos e de maquiavelismo, levando a pessoa a acreditar que está acima da lei e é intocável.

O viés optimista também é responsável pelas distorções na percepção dos riscos que se correm. As pessoas tendem a crer que as experiências desagradáveis e os males em geral só acontecem aos outros. Há evidências de que as pessoas envolvidas em actos corruptos tendem a pensar que escapam aos controlos e conseguem evitar a punição, mesmo quando a probabilidade de isso acontecer é elevada.

Estes mecanismos psicológicos mostram que a aversão ao risco pode ser atenuada e que as estratégias de combate à corrupção, baseadas na punição, não têm o efeito dissuasivo que muitos supõem.

Várias investigações compararam a propensão à corrupção entre homens e mulheres, com base nas diferenças de atitude em relação ao risco. Os estudos psicológicos mostram que as mulheres são mais avessas ao risco do que os homens e que é mais provável condenarem os comportamentos egoístas. Isto pode explicar por que razão as mulheres se envolvem menos em actos de corrupção. Contudo, as evidências são pouco consistentes e há quem argumente que a maior incidência da corrupção nos homens resulta da maior exposição a posições de poder que a favorecem.

4.3. A aversão às perdas pode potenciar os actos de corrupção

Como vimos, as pessoas são avessas ao risco mas existem vários mecanismos e enviesamentos que reduzem essa aversão. Como explicar, então, que as pessoas pratiquem a corrupção mesmo com elevada probabilidade de sofrerem graves sanções? A resposta pode estar na teoria da prospectiva.

Num estudo publicado em 1981 por Kahneman e Tversky (The Framing of Decisions and the Psychology of Choice), mostra-se que as pessoas percepcionam ganhos e perdas, de forma assimétrica, quando tomam decisões em contextos de incerteza. Quando estamos numa perspectiva de obter ganhos, tendemos a ser prudentes e evitar decisões de risco; quando antecipamos perdas, favorecemos opções de maior risco, para as evitar.

Como explicam os mesmos autores, (Prospect Theory: An Analysis of Decision Under Risk), trata-se de um automatismo cognitivo que confere aos ganhos e às perdas utilidades esperadas diferentes. As pessoas em geral estão mais motivadas para evitar o sofrimento das perdas, na medida em que, psicologicamente, é mais importante para elas evitar a dor do que se perde, do que viver a alegria do que se ganha. Alguns estudos mostram mesmo que as pessoas são duas vezes mais sensíveis às perdas do que aos ganhos. Por isso, as pessoas estão dispostas a correr mais riscos para evitar perder aquilo que valorizam.

Esta tendência pode influenciar as tomadas de decisão quando se fazem escolhas éticas. Os comportamentos não-éticos podem ser desencadeados por mecanismos automáticos que determinam os juízos e as tomadas de decisão. É mais provável ocorrerem decisões não éticas quando se está em contextos de perda. Compreende-se, assim, que os comportamentos corruptos ocorram mais quando se está em risco de perder o poder, o emprego, ter um prejuízo financeiro, não conseguir concretizar um negócio ou perder uma oportunidade valiosa.

A aversão às perdas também pode ser explicada pela psicologia evolucionista como um mecanismo da selecção natural: os organismos que dão prioridade a combater as ameaças têm mais probabilidade de sobreviver e reproduzir-se, do que aqueles que dão prioridade às oportunidades. Nesta perspectiva, os comportamentos corruptos também seriam determinados por mecanismos básicos de sobrevivência que continuam presentes nas nossas heurísticas e enviesamentos cognitivos.

4.4. Mentimos a nós próprios para “branquear” os actos de corrupção

O economista comportamental Dan Ariely, da Universidade de Duke, faz esta afirmação surpreendente: “Podemos ser desonestos até ao limite em que sejamos capazes de manter a nossa autoimagem de pessoas honestas”.

As pessoas tendem a criar uma fronteira entre o que é moralmente aceitável para elas e o que não é, para manterem a sua autoimagem de pessoas honestas. Quando se lida com situações em que é possível ser desonesto, mesmo as pessoas mais honestas têm a probabilidade de agir desonestamente. Quando isso acontece, gera-se uma situação incómoda de conflito entre o acto ilícito praticado e a imagem positiva que a pessoa quer manter de si própria, designada de dissonância ética. Este estado de dissonância aciona um conjunto de mecanismos cognitivos para a sua redução.

O principal é a racionalização que visa restaurar a imagem de integridade, através de uma reinterpretação do acto praticado ou do seu contexto, de modo a torná-lo neutro ou mesmo positivo. Há muitos exemplos: receber um suborno com a justificação de que o salário é baixo, receber “luvas” para compensar o trabalho “extra” que se teve para resolver um problema, ou argumentar que o acto corrupto não prejudicou ninguém e até beneficiou a organização.

Estes mecanismos automáticos que procuram justificar a moralidade de actos ilícitos impedem a percepção da sua gravidade e mantêm o conceito de si próprio como “pessoa honesta”. É uma “reconstrução” da realidade com a qual a pessoa se engana a si própria (self-deception), anulando a contradição entre o acto que praticou e as suas crenças morais. A racionalização é uma forma “branquear” os comportamentos anti-éticos pela redução da dissonância cognitiva.

A racionalização pode também apoiar-se em narrativas culturais ou em valores organizacionais que a tornam mais robusta. A ascenção à riqueza preconizada no “sonho americano”, os valores organizacionais relacionados com o sucesso competitivo e com o lucro, ou a importância do sucesso na carreira, são a base de muitos argumentos que racionalizam actos de corrupção.

A justificação dos actos de corrupção pode surpreender pela criatividade e em muitos casos só é verosímil aos olhos do próprio. Outras vezes assume formas banais como “toda a gente faz o mesmo” ou “foi uma decisão bem intencionada, que não prejudicou ninguém”. Os mecanismos de racionalização são mais usados por pessoas criativas e com maior flexibilidade cognitiva. A capacidade de self-deception explica o facto de a maioria das pessoas envolvidas em actos de corrupção continuar a ver-se com uma honestidade a toda a prova, a “sentir a consciência em paz” e a fazer a apologia da sua integridade.

A racionalização dos actos de corrupção explica o descompromisso moral, isto é, por que há pessoas que praticam actos de corrupção sem sentirem stresse moral. Como mostraram os estudos realizados por Moore (Moral disengagement in processes of organizational corruption), a racionalização é um mecanismo cognitivo que reinterpreta os comportamentos e bloqueia a autorregulação moral. Em princípio, as pessoas reconhecem os comportamentos não éticos e estão dispostas a não os praticar, a não ser que encontrem boa razões para isso. É exactamente o que fazem os mecanismos cognitivos de reinterpretação dos comportamentos, chegando mesmo a encontrar virtualidades nos actos corruptos. Um responsável partidário ao comentar a corrupção no seu partido declarava que “era um sinal de crescimento” e outro argumentava que a corrupção nos órgãos do estado era “um óleo lubrificante do desenvolvimento”.

Noutros casos, a desresponsabilização pode passar pela atribuição de causalidades externas (os actos foram determinados pela pressão das circunstâncias), por demonstrar que os actos praticados evitaram males maiores, que eram inevitáveis ou que os objectivos alcançados justificaram os meios.

Há vários factores contextuais que podem favorecer os mecanismos de racionalização dos comportamentos corruptos. Os contextos de ambiguidade, em que as consequências dos actos ilícitos não são claras ou as vítimas não são personalizadas, aumentam a probabilidade de comportamentos desonestos e favorecem as racionalizações. É o caso quando as vítimas são “os contribuintes”, “o Estado”, “a confiança nos serviços públicos” ou “a imagem da classe política”. São abstracções, em relação às quais é impossível estabelecer laços objectivos de causalidade, apesar dos danos irreparáveis que a corrupção lhes provoca.


4.5. Aumentamos o valor percebido do que nos favorece ou pode favorecer

A investigação confirmou a existência de outro enviesamento que pode explicar a corrupção quando há conflitos de interesses. A ambiguidade que caracteriza os conflitos de interesses acciona mecanismos que favorecem a satisfação de interesses próprios levando a juízos e decisões anti-éticos. Quando se exerce um cargo poder, o recebimento ou a expectativa de vir a receber um benefício, reforça a avaliação positiva da entidade que o oferece. Como consequência, o decisor tende a tomar decisões que lhe são mais favoráveis. Este mecanismo pode levar a decisões de favorecimento sem que o agente tenha consciência disso.

Uma experiência realizada por Ann Harvey, do Baylor College of Medicine, mostrou que tendemos a atribuir mais valor àquilo que nos dá vantagens materiais. O reconhecimento de um benefício real ou potencial, associado a uma situação, activa no cérebro sentimentos de prazer ao mesmo tempo que o córtex pré-frontal ventromedial estabelece associações complexas e atribui significações, elaborando o processo de tomada de decisão. Os factores emocionais interagem com os processos cognitivos, acabando por condicioná-los.

4.6. Valorizamos os benefícios de curto prazo e desvalorizamos os custos de longo prazo

Um factor contextual muito comum são as consequências tardias (ou inexistentes) dos actos de corrupção. Estes crimes têm benefícios imediatos para quem os pratica mas a sua penalização, se ocorrer, é muito posterior aos actos. Estamos perante o que é chamado viés do presente. Tendemos a dar mais importância a custos e benefícios de curto prazo, do que a custos e benefícios no futuro distante.

Estes mecanismos inconscientes que enviesam as decisões são ainda mais perigosos nas pessoas com elevada autoconfiança. A crença nas suas elevadas capacidades e profissionalismo leva-as a não aceitar que as decisões que tomam possam ser influenciadas por mecanismos psicológicos que escapam aos seus critérios racionais, como sejam a tendência para privilegiar o interesse próprio. Neste quadro, aceitam a existência de mecanismos que podem enviesar os seus juízos e decisões, mas acreditam convictamente que lhe estão imunes e, por isso, que tomam decisões isentas.

4.7. A corrupção é uma “rampa deslizante”

A corrupção progride de forma gradual por um mecanismo de slippery slope. A realização de pequenas infracções é o início de um processo crescente que leva a grandes infracções. Decisões pouco conscientes e tomadas sob pressão, podem cair numa “zona ética cinzenta”. A sua ética é duvidosa mas vão constituir um padrão e ponto de partida para outras decisões posteriores ainda menos éticas, mas difíceis de distinguir das antecedentes. Com a continuidade cria-se um “efeito de rampa deslizante” em que as cedências à ética são cada vez mais graves. Esta progressão é difícil de deter porque se transforma numa “nova normalidade” e pode estabelecer-se como uma cultura de corrupção.

As práticas do passado constituem, portanto, uma referência para decisões que se tomam e na sua avaliação ética. Práticas anteriores de elevada exigência ética diminuem a probabilidade de comportamentos corruptos. Pelo contrário, práticas de corrupção regulares levam a um clima de tolerância e cedências sucessivas, gerando um deslizamento ético em que a corrupção se acentua e normaliza.

4.8. O autocontrolo evita a corrupção mas também é essencial para mantê-la

O autocontrolo é a capacidade de manter o comportamento alinhado com os valores morais e as expectativas sociais, quando se prosseguem objectivos de logo prazo. As pessoas com elevado autocontrolo reconhecem os dilemas éticos, os possíveis efeitos negativos das decisões e sabem resistir à tentação de seguir aos seus impulsos imediatos. O autocontrolo evita os actos de corrupção. Sabe-se, por outro lado, que o baixo autocontrolo está relacionado com actos criminosos e sobretudo com a reincidência.

Mas as consequências negativas da corrupção nem sempre são fáceis de reconhecer, sobretudo na corrupção interpessoal, uma vez que a outra parte tem interesse em fazer parecer que não há vítimas e que a decisão corrupta é ganhadora para as duas partes. Por outro lado, em decisões tomadas sob pressão, as pessoas com baixo autocontrolo tendem a ter comportamentos mais cooperativos e a aceitar propostas desonestas, sobretudo se elas provierem de pessoas conhecidas.

No entanto, o autocontrolo pode ter uma função oposta: ajudar a manter a prática continuada da corrupção. Neste caso, o corrupto precisa de esconder a sua actividade e guardar a aparência de pessoa honesta. A manutenção desta hipocrisia moral, com a gestão de identidades conflituais e de mecanismos de descompromisso moral (racionalizações, atribuições externas dos seus actos…), só é possível com um elevado grau de autocontrolo.

4.9. A culpa pode inibir mas também pode encorajar a corrupção

Vários estudos mostram que a decisão de cometer ou não um acto de corrupção depende das reacções emocionais que a pessoa sente quando antecipa o acto que vai praticar. O decisor pode sentir emoções positivas ao imaginar os potenciais ganhos e satisfações que o acto de corrupção lhe vai proporcionar. Esta antecipação aumenta a motivação para o acto corrupto, a qual pode ainda ser reforçada se a ocasião for vista como “uma oportunidade única”.

Mas, por outro lado, a corrupção tem vítimas: pessoas em concreto, o interesse público, a imagem das instituições… A antecipação destas consequências pode despertar sentimentos de culpa ou de vergonha que são fortes inibidores das transgressões éticas.

A culpa tem merecido especial atenção. Há pessoas com mais tendência para se sentirem culpadas, mas a culpa é também determinada por factores sociais e culturais. Há provas sólidas de que as pessoas com mais sentimentos de culpa se envolvem menos em actos delinquentes, valorizam mais as qualidades morais e obedecem às normas éticas. Neste caso, a antecipação dos efeitos negativos da corrupção, sobretudo quando as vítimas são personalizadas, leva à vivência antecipada da culpa que funciona como um inibidor da transgressão.

Contudo, esta lógica pode não ocorrer quando a corrupção envolve favorecer alguém a quem estamos muito ligados. Neste caso, a antecipação da culpa de não favorecermos a pessoa pode sobrepor-se à culpa de praticar um acto que pode prejudicar terceiros. Nos caso de cooperação corrupta que envolve fortes relações de amizade e lealdade, e as vítimas são abstractas, a culpa pode ser sentida por não se praticar o acto corrupto. Por exemplo, sentir-se culpado por não favorecer um familiar em dificuldades, quando dispunha de poder para isso. Há, pois, casos de corrupção interpessoal em que a propensão a sentimentos de culpa favorece decisões corruptas em vez de as evitar.

5.Factores sociais da corrupção

Como vimos, os mecanismos psicológicos individuais contaminam o processo de decisão racional com enviesamentos automáticos e inconscientes que podem estar na base de muitas decisões à margem da ética. Mas a psicologia individual explica apenas uma parte dos comportamentos corruptos. O contexto social tem uma influência determinante não apenas na génese e desenvolvimento dos comportamentos não éticos, mas também na explicação dos fenómenos de interacção social que suportam a corrupção.

5.1. A corrupção apoia-se na cooperação, na reciprocidade, na proximidade e na confiança

Os estudos de Lambsdorff sobre a “reciprocidade corrupta” mostra que as raízes da corrupção se relacionam com mecanismos básicos da vida social como a cooperação, a reciprocidade, a gratidão e a confiança. A cooperação tem uma vertente altruísta, cria laços de confiança e reforça a solidariedade. Mas a cooperação também pode estar na base da corrupção. As relações desonestas implicam uma colaboração das partes para satisfaz os seus objectivos. As experiências de Ariely mostram que os comportamentos anti-éticos são mais prováveis quando as pessoas que cooperam têm ganhos alinhados.

Curiosamente, a corrupção é também um factor de coesão. Sendo uma actividade ilícita, deve ser mantida em sigilo. Exige, por isso, relações de confiança. Ao mesmo tempo, a manutenção das transacções corruptas reforça a interdependência e o compromisso das partes. A corrupção pode também funcionar como um factor coesão e solidariedade.

A retribuição de favores e de actos de simpatia, são comuns na vida social. Quando se aceita uma vantagem (real ou percebida), tende-se a restabelecer o equilíbrio compensando-a com um benefício de igual valor. Corresponder a um convite convidando, ou ajudar quem nos ajudou, são comportamentos que reforçam as relações interpessoais e a coesão dos grupos.

O princípio da reciprocidade está presente em quase todas as culturas. Este mecanismo também está presente nos actos de corrupção como um desvio ético da reciprocidade positiva: pagar um benefício ilegítimo que se recebeu ou beneficiar quem tem poder, para se receber um benefício indevido.

A proximidade familiar ou afectiva também pode encorajar os actos de corrupção. É o caso do altruistic cheating, quando, numa longa fila de espera, alguém com poder beneficia um familiar ou amigo, prejudicando todos os outros.

Mas a situação mais frequente é o viés endogrupal, isto é, a tendência para beneficiar os membros do seu próprio grupo em relação aos grupos externos. A psicologia evolucionista ajuda a explicar esta tendência. A protecção dos membros do grupo de pertença face a concorrentes externos, favorece a sobrevivência da espécie. Esta hipótese encontra apoio na neurociência. A preferência por elementos do seu grupo é influenciada pelos níveis de oxitocina.

No quadro da psicologia social, a protecção dos membros do seu grupo é geralmente interpretada à luz da teoria da identidade social, de Tajfel, ou da teoria realística do conflito, de Sherif e colaboradores. De acordo com a primeira, as pertenças sociais dos indivíduos são elementos estruturantes da sua identidade e da sua auto-estima. O favorecimento do endogrupo é uma forma de favorecer o seu status e, deste modo, elevar a autoestima. Vários estudos mostram que existe uma relação positiva entre os níveis de autoestima e a tendência para favorecer o seu grupo.

A teoria realística do conflito pressupõe que entre o grupo de pertença e os grupos externos há um conflito pela disputa de recursos escassos. A protecção do seu grupo é uma forma de reagir às ameaças externas, reais ou simbólicas, incluindo a ameaça ao status, aos valores e às crenças do seu grupo.

A corrupção mina a confiança nas pessoas e nas instituições mas a corrupção interpessoal pressupõe a confiança entre as partes, pelo menos a confiança recíproca de que a ilegalidade não será denunciada. Neste sentido, e não havendo a possibilidade, numa transacção corrupta, de suporte legal que garanta os interesses das partes, pode dizer-se que a corrupção interpessoal exige níveis de confiança mais elevados do que as relações comerciais correntes.

5.2. As normas sociais podem “travar” ou encorajar a corrupção

As normas sociais indicam o entendimento partilhado, num grupo social, sobre o que é aceitável, obrigatório ou proibido. As pessoas tendem a conformar-se às normas descritivas dominantes no grupo, isto é, tomam como referência as práticas dominantes, para fazerem juízos avaliativos e tomarem decisões. Um líder pode ser pressionado pela prática social corrente de proteger os interesses dos familiares, e não só fazê-lo como sentir que é uma obrigação…

No caso da corrupção, o conformismo à norma social opera nos dois sentidos: se existe a percepção de que os actos de corrupção são frequentes, a tendência é para julgar a sua prática aceitável e continuá-la; se os actos de corrupção forem pouco frequentes, a sua ocorrência tende a ser limitada.

A norma social influencia tando os comportamentos concretos como os critérios pelos quais os actos são avaliados e até a forma como a prossecução dos interesses pessoais é racionalizada. É isso que resulta de afirmações como “todos fazem o mesmo” ou “se eu não fizer, outro vai fazer”. Note-se que, na visão prospectiva do segundo caso, o “outro” é percebido como corrupto enquanto o próprio se vê como apenas fazendo o que é normal …

A percepção das normas vigentes na organização em que se trabalha ajuda a explicar muitos fenómenos de corrupção nesse contexto. A observação de normas sociais e pessoais que permitem actos de corrupção sem consequências, normalizam esses actos e favorecem a sua proliferação. As culturas organizacionais podem ir acumulando práticas anti-éticas que se prolongam no tempo e se incorporam nos padrões de comportamento habituais, tornando as pessoas insensíveis à corrupção. Em alguns casos espera-se mesmo que os decisores pratiquem a corrupção nos “superiores interesses” da organização. Embora as normas grupais dependam das práticas colectivas, a actuação dos líderes (e o seu exemplo) têm um papel central na criação das normas, e na construção de culturas da corrupção ou da eticidade.

Nos climas de corrupção normalizada ocorre ainda a difusão da responsabilidade a qual tende a agravar o fenómeno. Quando num grupo todos agem de forma corrupta, não só se banaliza a corrupção como a responsabilidade fica diluída por todos, criando um descompromisso ético generalizado. Neste caso, a corrupção tem o caminho aberto.

6.Factores culturais da corrupção

As dimensões culturais do modelo de Hofstede têm sido um instrumento relevante para compreender o impacto da cultura na corrupção. As sociedades colectivistas (onde se integram os latinos), por oposição às individualistas, estão mais expostas aos fenómenos de corrupção. A ideia de que as pessoas se devem proteger em função dos laços de família, de vizinhança ou de interesses corporativos, leva a decisões que favorecem os interesses privados ou dos grupos de pertença, em detrimento do interesse colectivo.

Estas sociedades também cultivam as relações informais, a reciprocidade e a troca de favores como uma obrigação social, o que explica que os fenómenos de favorecimento das pessoas e grupos mais próximos estejam relativamente normalizados, embora sejam energicamente condenados pela moral social. A cultura do “jeitinho”, dos “conhecimentos” e dos “apadrinhamentos”, é típica desta dimensão. Vários estudos indicam que, pelo contrário, as culturas individualistas apresentam níveis mais baixos de corrupção. Estas sociedades, de que é exemplo a norte-americana, desenvolveram um conjunto de mecanismos sociais e jurídicos que visam garantir os direitos dos indivíduos e os interesses da comunidade. Os casos de corrupção existem mas são rapidamente denunciados e punidos.

As culturas com maior distância ao poder também têm índices de corrupção mais elevados. Na medida em que têm estruturas de poder muito hierarquizadas, as pessoas com menos poder estão mais dispostas a corromper os que o detêm para conseguir os seus objectivos, ao mesmo tempo que, os que ocupam posições de poder, estão sujeitos a mais solicitações e a menos escrutínio.

A dimensão evitação da incerteza também ajuda a explicar as diferenças nos níveis de corrupção. Países com maior índice de evitação da incerteza, isto é, pouco tolerantes à imprevisibilidade do futuro e que não confiam na autonomia individual para se tomarem as decisões, criam sistemas complexos e burocratizados. Desenvolvem, por isso, estruturas pesadas e opacas que favorecem a corrupção.

7.A relação entre poder e corrupção é mediada pelo sistema de valores

Embora haja abundantes provas de que a detenção de poder aumenta a probabilidade de actos de corrupção, quer através de decisões racionais com base na análise custo-benefício, quer pela interferência de numerosos mecanismos inconscientes de enviesamento, a relação entre poder e corrupção, não é simples nem linear. Um estudo recente de Wang e Son (Absolute power leads to absolute corruption? Impact of power on corruption depending on the concepts of power one holds) mostra que há uma variável a mediar a relação entre poder e corrupção: a concepção do poder. Os líderes que têm um conceito personalizado do poder, isto é, que veem o poder como um meio para servir os seus objectivos de ganhos pessoais, têm mais probabilidade de cometer actos de corrupção e de os tolerar nos outros. Os líderes com um conceito socializado do poder creem que o poder serve para atingir objectivos com significado colectivo. São, por isso, menos propensos a práticas de corrupção e a aceitá-las. Outros estudos, na mesma linha, têm mostrado que o desenvolvimento moral aumenta a resistência a decisões não-éticas e em interesse próprio.

A distinção entre as duas atitudes face ao poder coloca o foco na questão do sistema de valores que orienta a conduta individual e encontra confirmação na teoria da mentalidade ética (ethical mindset) desenvolvida por Cornelissen e Lammers. Segundo os autores, a maneira como a pessoa lida com os dilemas morais depende de adoptar uma perpectiva baseada em valores e regras morais (pensamento deontológico) ou baseada nos benefícios que se podem obter (pensamento consequencial). No primeiro caso, a pessoa considera a universalidade dos princípios éticos e aplica-os sem relativizações contextuais. No segundo, determina a acção em função das circunstâncias e do momento.

A mentalidade ética faz a ponte entre a reflexão e a acção, e é um bom preditor do descompromisso moral e dos comportamentos corruptos porque tem a capacidade de abarcar a unidade entre o pensamento e comportamento. A mentalidade ética reflecte a filosofia moral da pessoa e embora integre as suas crenças religiosas, não as pressupõe.

O poder em si próprio não é bom nem diabólico. Como refere Adam Grant, psicólogo organizacional da Warthon School, não é o poder que torna as pessoas corruptas porque o poder não muda as pessoas. O poder apenas acentua traços de personalidade e sistemas de valores pré-existentes. Há quem procure o poder para dar expressão aos seus piores impulsos, para satisfazer ambições pessoais de sucesso e riqueza, ou para mantê-lo a todo o custo, e há quem o procure para resolver problemas da sociedade, apoiar os mais fracos e instaurar a justiça. O poder cria um espaço psicológico que permite a expressão amplificada do que há de melhor e de pior em cada um de nós. Potencia a autoconfiança, a ousadia, a ambição realizadora, a orientação para objectivos, a autonomia das tomadas de decisão, a influência sobre os outros e eleva a disposição para o risco. Por isso é, para alguns, o palco de expressão da tríade negra: narcisismo, maquiavelismo e psicopatia. Para outros, é a oportunidade para exprimirem o amor pelos outros e a doação sincera às causas da humanidade. É com poder que mostram a sua maior generosidade. Como diz o biógrafo político Robert Caro, “o poder não corrompe, o poder revela”.

Onde está, então, a verdadeira diferença entre os líderes éticos e os líderes corruptos? Está no enquadramento ético com que exercem o poder, isto é, no sistema pessoal de valores que orienta a acção. Como vimos, há comportamentos corruptos que são deliberados e racionalmente orientados. Há também mecanismos psicológicos individuais e pressões sociais que colocam armadilhas inconscientes aos comportamentos éticos. Isto significa que existe sempre um risco ético que ameaça as pessoas em posições de poder. Os líderes têm que posicionar-se constantemente perante o dilema: utilizar o poder para si ou para os outros?

Um decisor que reconheça os riscos que corre e se apoie num sólido pensamento deontológico, não tem que recear. O poder só corrompe os que se deixam corromper por ele e não faltam os casos em que são os líderes que corrompem o poder.

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