Entrevista com António Damasceno Correia – Lançamento do livro – Último Desejo

Conversamos com António Damasceno Correia, Professor Universitário, para conhecer um pouco do seu percurso profissional. Já publicou quinze livros (manuais e monografias de natureza académica), dois livros de ficção e mais de setenta artigos (alguns deles em coautoria), em diferentes revistas nacionais e estrangeiras.

Lançou, recentemente, o livro – “Último Desejo”, um romance inspirado em vidas reais. A obra representa um processo de humanização, isto é, a tentativa de tornar o ser humano mais benevolente, compreensivo e tolerante. Inicia-se com a narrativa escabrosa de uma vida miserável e termina com uma saída airosa e contagiante para uma vida feliz. Para ler e refletir!

  1. Pode falar-nos um pouco do seu percurso profissional?

Eu diria que esse percurso se pode resumir a três períodos: até aos 28 anos foi uma época de aprendizagem, descoberta e início do processo de escrita. Após a Licenciatura em Direito na Universidade Católica comecei a dar aulas na Faculdade de Direito, fui bolseiro do Conselho da Europa no domínio dos Direitos do Homem e fui também bolseiro da Nato em relações internacionais. Foi uma época em que tive a sorte de viajar muito e de conhecer dezenas de países, sobretudo na Europa, mas também os EUA e Canadá.

Dos 28 aos 39 anos vivi um período a que costumo designar de estabilização, quer pelo casamento e constituição de família, quer pelo privilégio de ter trabalhado em Lisboa e Madrid como assessor jurídico e gestor de recursos humanos em três enormes multinacionais e das maiores a nível mundial no respetivo setor. Neste período dei formação profissional a diretores e outros responsáveis na área de Direito do Trabalho das empresas em que estava, continuei o meu processo de aprendizagem através da conclusão do Mestrado em Gestão de Recursos Humanos no ISCTE-IUL e prossegui as viagens pelo estrangeiro, desta vez em família.

Finalmente, a partir dos 39 anos regressei à universidade para fazer o que mais gosto e melhor sei fazer, que é ensinar, investigar e escrever. Fiz o doutoramento em Gestão de Recursos Humanos e especificamente na área de Relações Laborais (ISCTE-IUL), lecionei em várias universidades em unidades curriculares de licenciaturas, mas também em programas de pós-graduação, mestrado e até de doutoramento. Foi também o período em que mais publiquei, sobretudo manuais de natureza académica e artigos em diferentes revistas, sobretudo nacionais.

2.Como foi o despertar para a escrita e em que momento se intitulou escritor?

Fazendo uma retrospetiva despertei para a escrita na adolescência e juventude através de um “diário” de natureza semanal e intimista em que pensava sobre a vida e divagava sobre as opções políticas, religiosas, filosóficas, etc. Ainda hoje guardo centenas e centenas de páginas desse diário e cartas dirigidas a amigas com esse género de apreciações. Respondendo à segunda parte da questão, nunca tive a preocupação formal de me intitular escritor. Mais importante do que isso era a necessidade quase compulsiva de escrever e revelar o que sentia e o modo como interpretava os factos.

3.Quantos livros publicou, que temáticas preferiu abordar e qual o mais marcante?

Tenho quinze livros publicados e para responder à sua pergunta vou dividi-los em duas áreas a que chamarei científica e de ficção e depois falarei do mais marcante. A maioria deles integra-se na primeira área e são dedicados à ciência jurídica, à gestão de recursos humanos particularmente no domínio da negociação e liderança e ainda às relações laborais. O primeiro livro Tribunal de Conflitos, no âmbito do direito administrativo, escrevi-o com 26 anos e provocou-me uma sensação marcante pela novidade e ter pressionado a continuar. Os livros Estado de Sítio e de Emergência em Democracia e O Direito à Objeção de Consciência foram significativos por neles ter defendido valores pelos quais me pauto. O mais difícil e complexo foi O Paradigma da Flexibilidade que exigiu um esforço enorme e permitiu-me criar e propor novas formas de encarar a realidade na área da gestão de recursos humanos. Nos mais recentes manuais de natureza académica que me servem para dar aulas, destacaria o Manual de Estratégia Negocial onde apresento um conjunto de táticas inovadoras com base na investigação que fiz sobre artigos científicos norte-americanos e o Manual de Relações Laborais que pugna por uma perspetiva equilibrada na prossecução dos direitos e interesses das duas partes envolvidas na relação laboral, empregadores e organismos representativos dos trabalhadores.

Finalmente, na área da ficção tenho dois livros publicados. No primeiro, Um Ano na Vida de Helena, analiso a natureza humana e o que está por detrás da tendência para o devaneio. Procuro tornar claro como o amor, a segurança e a estabilidade familiar podem sucumbir diante da fantasia ou paixão de um dos cônjuges. No segundo…

4.Neste segundo livro que acaba de publicar a abordagem descritiva correlaciona-se com a sua experiência profissional e habilitações académicas?

Sim, sem dúvida elas estão presentes, embora os aspetos jurídicos, de gestão de recursos humanos e políticos sejam secundários na obra. Ainda assim faço uma defesa incondicional dos direitos universais do homem (que naturalmente também são da mulher), denuncio a corrupção no país em que decorrem os factos e desdramatizo a problemática da migração das pessoas que procuram melhores condições de vida, assunto que tem estado na agenda política da atualidade e que foi determinante para a saída do Reino Unido da União Europeia. No âmbito da gestão de recursos humanos abordo a importância da formação profissional na requalificação das pessoas, a temática da liderança nas organizações, sobretudo a liderança participativa que estimula o debate, orienta e permite o desenvolvimento das pessoas e, finalmente, a importância do trabalho em equipa.

5.Qual a razão de ser deste seu romance?

O romance surge na sequência de uma interpelação que me foi feita para que conhecesse e retratasse uma determinada realidade e sobretudo a vida de uma mulher nascida num ambiente de miséria, violência e droga, bloqueada por medos, dependente do sexo e com uma visão fatalista da vida. É esta mulher que depois de alterar a sua trajetória evolutiva acaba por se empenhar na defesa de objetivos humanitários. Os objetivos que alcança, que no romance são sobrevalorizados, são de uma tal riqueza e empenho no bem-estar alheio que merecem o destaque que lhe dou.

6.Que história nos conta?

Em termos genéricos esta mulher angustiada trabalha num clube privativo de homens e procura ajuda para sair do beco emocional em que se encontra. Após um tratamento ministrado por um psiquiatra e a ajuda de duas pessoas, reformula a estratégia de vida e passa a exercer uma atividade de serviço social em benefício de vítimas da violência. É tal o empenho para com a nova causa que, face à necessidade de aumentar a oferta do serviço prestado, recruta e dá formação a antigas companheiras. O sucesso e a visibilidade do trabalho empreendido acabam por determinar a sua internacionalização e o reconhecimento das maiores organizações internacionais.

7.Qual a mensagem central do romance?

Globalmente a obra apresenta um processo de humanização, isto é a tentativa de transformar e tornar o ser humano mais benevolente, compreensivo e tolerante, ao mesmo tempo que visa afastar o preconceito. Inicia-se com a narrativa escabrosa de uma vida miserável e termina com uma saída airosa e contagiante para uma vida feliz e ao serviço dos outros.

8.Já está a pensar no próximo romance?

O romance que acaba de ser lançado foi terminado em setembro do ano passado, embora só agora tenha havido condições para poder ser feito o lançamento. E após essa altura, no período de confinamento mais difícil que esta pandemia nos tem obrigado a viver, tive oportunidade de escrever um outro que está em fase de revisão. Trata-se de uma história de amor que gostei imenso de escrever.

9.Como escritor que mensagem deixa às pessoas e profissionais em geral?

O essencial da nossa vida é nunca desistirmos dos nossos sonhos, lícitos, claro, e procurarmos fazer tudo para sermos felizes. Esta segunda parte que aqui deixo nem sequer é uma ideia minha. Herdámo-la dos gregos clássicos, designadamente de Aristóteles que na sua famosa obra Ética a Nicómaco, concebia que a finalidade primordial da existência humana é sermos felizes.

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